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    Dragões Caçam Tigres
    Crescimento Econômico da China Tem Papel Importante na Crise Asiática
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional
    Publicado pelo Estado de São Paulo em 27 de janeiro de 1998

    Ao longo de 1980-92, a Ásia (Japão inclusive) acumulou um excedente comercial em torno de US$ 2 trilhões com o resto do mundo. Desse excedente, os Estados Unidos absorveram algo em torno de 70%.

    Uma certa divisão intra-regional de tarefas acompanhou aquele processo asiático. Na dianteira, o Japão especializou-se crescentemente nos segmentos tecnologicamente mais sofisticados em indústrias como eletrônica, telecomunicações, automobilística e bens de capital. Os tigres - Coréia, Taiwan, Hong Kong - cresceram, por sua vez, em direção a atividades de fabricação intensiva em mão-de-obra qualificada naqueles ramos, integrando-se ao drive exportador japonês. Tal integração materializou-se através dos fluxos, do Japão para os tigres, de investimentos diretos e joint-ventures com empresas locais, crédito bancário, acordos de transferência tecnológica e venda de componentes e equipamentos.

    Os tigrinhos - Malásia, Tailândia, Indonésia - ocuparam espaços anteriormente ocupados pelos tigres na produção e exportação em setores tradicionais intensivos em mão-de-obra não qualificada, como calçados, vestuário e montagem na eletrônica e na automobilística. Mas a alegria dos tigrinhos acabou com a emergência do dragão chinês nestes ramos, da qual não escapou também a Coréia.

    Em 1990, a Coréia detinha 25% das importações de calçados dos Estados Unidos. Cinco anos depois, sua fatia havia caído para 3%, enquanto a China abocanhava agora metade dos US$ 12 bilhões de compras norte-americanas. Em artigos de couro, no mesmo período a parcela das vendas coreanas nas importações dos Estados Unidos desceu de 20% para 1%, enquanto o dragão assumia 46% delas. Nas importações norte-americanas de vestuário - US$ 40 bilhões em 1995 - a presença da China expandiu-se de 3% para 16% em dez anos.

    Nestes setores, bem como na montagem final de produtos eletrônicos, o crescimento do dragão deu-se em detrimento dos tigrinhos e afetou até os tigres. Para que isso não tivesse acontecido, o déficit comercial norte-americano teria de ter crescido, no período, a taxas mais do que espetaculares.

    O deslocamento comercial teve, como outra face da moeda, a reorientação nos fluxos de investimento direto em países asiáticos. Em 1991, a Malásia e a Tailândia absorveram, respectivamente, 20% e 10% dos investimentos na região, enquanto a China foi destino de 20% do fluxo. Três anos depois, os percentuais foram de 8% para a Malásia, 1,3% para Tailândia e 67% para a China.

    A nosso juízo, os dados acima ilustram três aspectos relevantes da crise asiática. Primeiro, não se pode entendê-la inteiramente excluindo a entrada da China em cena. Não satisfaz o tom monocórdico com o qual se bate na tecla das ligações perigosas entre setores públicos e privados na região, as quais lá já estavam durante os anos dourados. Tampouco a crise se trata apenas de exaustão da transferência de mão-de-obra de setores tradicionais para modernos, bem como de conclusão dos processos de educação da população, aspectos privilegiados por Paul Krugman e que viraram coqueluche na imprensa.

    No tocante aos tigrinhos, a atuação predadora do dragão foi óbvia e, não por acaso, os primeiros viram-se às voltas com déficits comerciais crescentes nos últimos anos. Os circuitos especulativos locais, inclusive imobiliários, perderam seus fundamentos no crescimento real.

    No caso do tigre coreano, é verdade que já estava colocada a tendência a diminuição de ritmo de crescimento, depois de três décadas com taxa média anual acima de 8,5%. Perseguido já pelos tigrinhos nas indústrias tradicionais, tinha acima o tigrão japonês nas faixas superiores da escala de segmentos produtivos. A hiper-alavancagem financeira de seus conglomerados se desdobrou em excesso de investimento nos ramos eletrônicos e automobilísticos que já conquistara. Mas acabou sendo também mortal a mordida chinesa em alguns de seus mercados.

    Um segundo aspecto, que decorre do primeiro, é o papel crucial da China nos desdobramentos da crise. O cenário mais favorável supõe que as desvalorizações cambiais de tigres e tigrinhos não sejam seguidas por movimento cambial equivalente pelo dragão, com este aceitando uma reversão parcial, em termos relativos pelo menos, do deslocamento anterior. Caso contrário, as oportunidades de mercado abertas pelo eventual crescimento japonês e/ou americano não serão capturadas pelos necessitados, sem falar nas ondas adicionais de deflação em dólares dos ativos asiáticos que se seguiriam.

    Finalmente, em uma perspectiva menos imediata, há que se observar a intenção declarada chinesa de escalar a "cadeia de valor" da indústria. Pretende transitar de seu sistema de micro-empresas intensivas em trabalho não-qualificado e montadas pelo ingresso de capital originário da diáspora chinesa na Ásia, rumo a automobilística, máquinas-ferramentas e produtos químicos, para os quais o investimento de transnacionais e a expansão de mercados locais deverão ser essenciais.

    Por um lado, tigres e tigrinhos suspiram de alívio com a possibilidade do "upgrading" chinês se dar utilizando o crescimento de seu mercado interno, como ativo a ser oferecido a agentes externos. Por outro, diante da mudança setorial de campo de caça do dragão, os tigres já devem estar com as barbas de molho. O Brasil, por sua vez, entra neste terreiro com seu Real forte...