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    Uma Pequena Sereia Para Copacabana
    Concentração de Riqueza Ajuda a Entender Porque Sul-Americanos Não Tiveram Desenvolvimento Como os Nórdicos
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 11/01/00

    Nesta especial virada de ano, as páginas do Estado têm-se enriquecido com balanços do século, ora se concentrando no próprio Brasil, ora arriscando comparações com outras bandas. Propomos aqui um cotejo diferente: de um lado, Brasil, Argentina e Uruguai e, do outro, quatro países nórdicos, Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia.

    Na verdade, esse foi um dos temas do último Congresso Internacional de História Econômica, em Madri durante agosto de 1998, numa mesa organizada pelos Profs. Luis Bertola e Gabriel Porcile. Como eu, muita gente acha pertinente a comparação.

    A despeito de diferenças climáticas e de outra natureza, os países nórdicos e os três sul-americanos tinham algumas características em comum no último terço do século XIX. Por exemplo, cada grupo a sua maneira, todos eram ricos em recursos naturais (florestais, minerais, hídricos e agrícolas). Ainda que o potencial de recursos dos nórdicos tenha se concretizado de modo mais gradual do que na América Latina, acompanhando, no caso dos primeiros, a adaptação de seu comércio exterior às mudanças tecnológicas em escala internacional.

    Eram todos áreas "periféricas" em relação ao núcleo duro de países que constituíam então o clube de economias desenvolvidas. No que tange à proximidade geográfica dos nórdicos em relação ao eixo Atlântico Norte, basta citar Portugal e Grécia, por um lado, e Japão e Austrália, por outro, para evidenciar que isso não importou tanto.

    Também não se pode recorrer a diferenças educacionais ou de capital humano para explicar a divergência de trajetórias. Não precisamos citar os bons indicadores educacionais de Buenos Aires e Montevidéu. Afinal, como observaram os Profs. Svante Lindgarde e Andrew Tylecote no referido Congresso, os povos nórdicos eram alfabetizados estritamente para ler textos religiosos. Isto nem sequer lhes capacitava automaticamente a ler jornais. Muito menos a construir a base contratual cujo desenvolvimento os historiadores econômicos têm frisado como elemento necessário para o pleno desabrochar de uma economia de mercado.

    Qual foi a diferença então? Por que o sistema funcionou nos países nórdicos, permitindo-lhes sair da condição de "periferia" nos classificados internacionais, enquanto os três sul-americanos ainda lutam para tanto mais de um século depois?

    A nosso juízo, não basta aludir-se ao passado colonial ou a outros pecados originais abaixo do equador, sem examinar-se o que se passou entre o século passado e os dias de hoje. Cabe inclusive assinalar que o sistema econômico internacional abriu oportunidades e restrições não muito discrepantes para as duas regiões ao longo do período.

    Olhando de um ponto de vista tecnológico e comercial, o padrão foi mais ou menos o seguinte. A cada onda de transformação no centro da economia mundial, abriam-se mercados e possibilidades de novos produtos a ser ofertados pela periferia. Partes dessa periferia, quando engajadas, podiam usufruir de mercados crescentes para seus produtos, evidentemente em segmentos tecnologicamente inferiores aos dinâmicos no centro.

    Em geral, quando ocorriam fins de ciclos e novas mudanças no centro, a periferia engajada via-se numa situação de excesso de aposta na integração anterior. Não apenas na capacidade produtiva e na infra-estrutura física, como em termos de teias de interesses e compromissos sócio-políticos localmente estabelecidos em torno da inserção prévia.

    Foi assim desde a revolução dos transportes a vapor, a qual aproximou e tornou economicamente exploráveis os confins do planeta. Novas oportunidades se abriram na era do aço e da eletricidade, entre o último terço do século XIX e o início do seguinte, continuando o processo durante a era da produção industrial em massa, após a 2a guerra mundial.

    Quer pelo lado das exportações, quer pelo lado da substituição de importações, a maturação tecnológica no centro tornava possível inclusive a subida na escala tecnológica da periferia, reproduzindo localmente vários processos e produtos. Aliás, as parcelas da periferia que mudaram de posição - como as regiões nórdicas - foram aquelas que justamente materializaram, com profundidade, essa ascensão tecnológica doméstica, jamais limitando-se a tentar restaurar o passado e as formas de produção e riqueza a ele vinculadas.

    Nesse ponto, foi mortal a concentração da riqueza e da renda no lado sul-americano. Apesar das diferenças entre Argentina, Uruguai e Brasil, pode-se dizer que, em todos, a concentração do poder econômico e político favoreceu defesas patrimonialistas e restauradoras, com estas freqüentemente impondo custos diretos ou indiretos sobre novas atividades.

    Particularmente desde que se iniciou a era do aço e da eletricidade e, com intensidade ainda maior, na era da produção industrial em massa do século XX, a distribuição de riqueza e renda dos países nórdicos evidenciou-se fundamental. A inclusão social, o retorno econômico associado ao esforço educacional pessoal, bem como a ausência de rendas garantidas para velhas elites, foram favoráveis à ascensão tecnológica e produtiva naqueles países. Não simplesmente pelo lado de escalas dos mercados domésticos mas, conforme mostram muitos estudos recentes, por um chamado processo de aprendizado tecnológico coletivo, incremental e progressivo, o qual supôs uma combinação de educação formal dos trabalhadores e pequenas distâncias na hierarquia social.

    O que é mais importante: deve-se não esquecer a importância ainda mais acentuada desses fatores, para o aprendizado tecnológico, na era que apenas se inicia, a das telecomunicações, da microeletrônica e da biotecnologia. Tanto em Copacabana, quanto naquela praia onde está a estátua da Pequena Sereia em Copenhagen.