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    Champagne
    Retroalimentação Entre Mercados De Capitais E Tecnologia Tem Sido Um Dos Pilares Do Crescimento Norte-Americano
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira e em Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 08/02/00

    "Abram o champanhe, cortem o bolo e mandem a banda tocar". Essa foi a sugestão na semana passada de Martin Crutsinger, jornalista da Associated Press. Um brinde para celebrar a quebra do recorde histórico de 106 meses seguidos de crescimento na economia norte-americana, estabelecido nos anos 60.

    E quanto aos fundamentos dessa expansão sem inflação prestes a completar 9 anos? Quase nenhum analista nega um papel fundamental a inovações tecnológicas e a aumentos de produtividade, por mais que outros fatores também possam ser arrolados.

    Na mesma direção, alguns observam que as dificuldades de mensuração dos novos tipos de progresso tecnológico através das velhas medidas estariam, na verdade, implicando sua subestimação pela contabilidade macroeconômica e das empresas. Quando vários gastos atualmente classificados como de custeio são reinterpretados como investimentos na formação de ativos intangíveis, desaparece parcela da aparente supervalorização patrimonial das empresas nas bolsas norte-americanas.

    Por sua vez, o ritmo de inovações de produto e processo na economia dos EUA tem-se beneficiado de alguns atributos oferecidos por seu sistema financeiro. Boas idéias existem em quantidade. Para que se materializem em negócios rentáveis, contudo, uma condição necessária - embora não suficiente - é a disponibilidade de dinheiro para o investimento. Neste aspecto, vamos apontar aqui alguns exemplos de instrumentos pelos quais os mercados de capitais norte-americanos têm ensejado essa disponibilidade de recursos para a experimentação de novas idéias.

    Um deles é a atuação das "empresas de capital de risco" (venture capital firms), uma peculiaridade das finanças americanas. Trata-se de fundos fechados, que aglomeram recursos dos sócios e os utilizam para financiar empresas inovadoras nascentes. Os fundos de capital de risco recebem em contrapartida uma parcela acionária dos empreendimentos, em geral exigindo que permaneçam de capital fechado.

    Esses fundos de capital de risco preenchem uma lacuna de ocupação custosa ou desinteressante para bancos e grandes instituições financeiras não-bancárias, inclusive os investidores institucionais. Os fundos são mais eficientes na coleta de informações e na seleção das novas atividades com potencial, num contexto de empresas e setores nascentes. Adicionalmente, executam de forma mais eficaz o monitoramento do uso dos recursos, participando ativamente da gestão e do processo de transformação da idéia em uma empresa sustentável.

    Há naturalmente uma certa taxa de mortalidade nos empreendimentos. Contudo, quando se consolidam os casos de êxito, os fundos de capital de risco auferem alto retorno ao abrir o capital das novas empresas ao público. Dependendo da reputação adquirida por tais fundos, acabam eles próprios sendo financiados por investidores institucionais, com estes optando por não esperar pelas ações já valorizadas após a abertura de capital.

    Quando se fala em inovações tecnológicas numa economia moderna, a referência naturalmente tende a ser os departamentos de P&D das grandes corporações, com financiamento via fundos internos dessas empresas. De fato, nos EUA em 1996, enquanto o montante de novos comprometimentos de fundos de capital de risco alcançava US$ 6,2 bilhões (o dobro da década anterior), os gastos com P&D atingiram US$ 184 bilhões. Observe porém que Microsoft, Federal Express, Genentech e muitas outras foram viabilizadas inicialmente através de fundos de capital de risco.

    Tais fundos constituem uma espécie de ponte entre grandes fontes de capital e novos empreendimentos inovadores criados em fundos de quintal (ou de universidades). Os empreendimentos com êxito florescem, ganhando vida independente ou sendo adquiridos para compor o jardim de outras empresas. De qualquer modo, suas boas idéias iniciais estarão incorporadas na economia.

    Outros instrumentos financeiros estimulam a inovação de modo mais indireto. Dão liquidez a ativos das empresas, facilitam sua alavancagem financeira e permitem melhor gestão de riscos. Deste modo, as empresas podem encarar mais facilmente o investimento de experimentação arriscada com novas idéias (produtos e processos).

    A existência de mercados com profundidade e liquidez para "títulos negociáveis lastreados em ativos" (asset-backed securities) permite, por exemplo, que bancos ou outros financiadores possam emitir papéis cuja garantia seja dada pelos correspondentes ativos em carteira. Como resultante, pode-se obter diluição de riscos pelo financiador direto de empreendimentos e diversificação nas carteiras dos compradores dos títulos. Seguem-se uma maior disposição ao financiamento direto dos empreendimentos, bem como um grau maior de alavancagem possível para os empreendedores.

    Os "derivativos" também possibilitam a repartição, a troca e a circulação de riscos (de câmbio, juros, cotações nos mercados etc.) entre agentes da economia. Para quem usa tais instrumentos para a cobertura de riscos - quer sejam as empresas que investem nas tecnologias, seus financiadores diretos ou os portfólios compradores de títulos - os efeitos são similares aos dos títulos lastreados em ativos e outros.

    Da perspectiva do sistema, é claro que há outra face mais escura. Nem todos os riscos são elimináveis via diversificação e, a rigor, os riscos cobertos vão parar na carteira de alguém. O susto com a crise dos fundos de hedge em 1998 ainda está fresco na memória.

    Para o bem e para o mal, vêm crescendo a alavancagem e o endividamento na economia. De qualquer modo, como reflexo no espelho do risco inerente à inovação tecnológica.

    Cabe portanto o champanhe proposto por Crutsinger. Agora, já que se trata de prosperidade, eu trocaria o bolo por caviar.