Clickable Image Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment




    CASAMENTOS NO PAPEL EM ALTA
    Causas e Conseqüências Apontam para Continuidade das Fusões Bancárias
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira, e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 21/03/2000

    A fusão entre os bancos alemães Deutsche e Dresdner, um dos assuntos principais no noticiário econômico internacional das últimas 2 semanas, deverá consolidar US$ 1,2 trilhão em ativos. Neste critério de valor de ativos, por enquanto tal fusão promete ser superada apenas pelo US$ 1,37 trilhão daquela ainda em curso entre os japoneses Fuji, Dai-Ichi Kangyo e IBJ.

    Na área das finanças, tem-se classificado como megafusões os casos em que as partes têm ativos acima de US$ 1 bilhão. Para virar manchete, agora só quando o menor tamanho envolvido ultrapassa US$ 100 bilhões, recebendo então o título de supermegafusão. Nos últimos dois anos, casamentos como o Citicorp-Travelers e BankAmerica-NationsBank, nos Estados Unidos, e UBS-Swiss Bank, na Europa, entre muitos outros, banalizaram o tema.

    A despeito do caráter recente da aceleração das supermegafusões, já se pode localizar 5 de suas causas.

    Antes de tudo, as mudanças tecnológicas têm aumentado substancialmente as economias de escala presentes no fornecimento de serviços financeiros. As novas ferramentas de engenharia financeira - contratos de derivativos, modelos de gestão de riscos, garantias fora-do-balanço etc. - são melhor manejadas pelas grandes instituições. Além disso, já há evidência de que, em termos de ganhos de escala, a tradicional atividade bancária através de filiais e agências é superada de longe no caso dos caixas automáticos, do on line banking e das centrais de atendimento telefônico.

    Um segundo elemento subjacente à febre de mega-casamentos tem sido a emergência de capacidades instaladas em excesso, mesmo quando isto não se desdobra em crises abertas nas instituições. Afinal, quando há operação abaixo das escalas eficientes, linhas de produto insuficientemente diversificadas ou mesmo ineficiência operacional, a resolução dos problemas via fusões ou aquisições é mais conveniente do que através das falências, já que se preserva o valor das franquias incorporadas.

    Os casos do Japão constituem a referência óbvia, mas não a única. A própria fusão entre o Deutsche e o Dredsner tem, entre suas causas, a perda de mercado pelo crédito bancário alemão no varejo do financiamento empresarial local, em favor de instrumentos financeiros não-bancários. Também nos Estados Unidos se pôde constatar excessos de capacidade bancária. No tocante às operações ativas dos bancos, estes recorreram - com sucesso - a operações fora-do-balanço e de crédito no atacado para compensar a perda de mercados de varejo para instrumentos não-bancários.

    No lado dos passivos, por sua vez, as famílias americanas hoje detêm uma parcela maior de sua riqueza fora dos depósitos bancários. Cabe observar que as instituições financeiras estabelecidas como objeto de caça apresentam em geral menor eficiência operacional, maiores índices de créditos inadimplentes e menores níveis de capitalização do que seus candidatos a compradores.

    Um terceiro fator para as fusões tem sido a melhora substantiva nas condições financeiras de alguns grandes bancos. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, a rentabilidade bateu recordes em meados dos anos 90. A partir daí, as baixas taxas de juros norte-americanas e os elevados preços de ações de instituições financeiras facilitaram inclusive o financiamento de atividades de fusão e aquisição, mesmo quando também estavam elevadas as cotações das instituições alvo da caça para casamento. A rigor, os negócios vêm se dando mais sob a forma de comunhão de papéis do que pela aquisição com dinheiro à vista.

    A globalização financeira também se inclui entre as causas. O crescente translado internacional de títulos, bens e serviços vem ampliando a demanda por operações cambiais, depósitos e empréstimos internacionais e outros serviços financeiros através das fronteiras. Naturalmente, as fusões e aquisições configuram um instrumento para a consolidação de mercados e a globalização dos fornecedores de serviços financeiros.

    Os analistas convergem na opinião de que essa consolidação internacional ainda está distante de ser concluída. Até porque a desregulamentação financeira - a quinta causa das fusões - não apenas teve uma difusão internacional apenas gradual, desde os anos 80, como ainda está longe de terminar e de esgotar suas conseqüências, mesmo nos âmbitos regionais.

    Por exemplo, as restrições formais à consolidação entre bancos e não-bancos nos EUA, em vigor desde os anos 30, só completaram sua queda no ano passado. Na União Européia, a despeito da permitida operação livre através das fronteiras desde 1993, a consolidação transnacional vem ocorrendo em ritmo menor que o esperado no caso dos bancos. Enquanto avança de modo célere a consolidação financeira não-bancária européia, persistem diferenças significativas em termos de padrões culturais e institucionais, métodos de compensação e outros aspectos da atividade bancária.

    Tomando como referência os casos em que a transição se completou, após os casamentos, os estudos apontam para melhoras em termos de custos e/ou margens de lucro para o conjunto dos parceiros. Este fato corrobora as hipóteses de causas tecnológicas e de resolução de ineficiências acima mencionadas.

    Para finalizar, gostaríamos de ressaltar dois pontos. O primeira é a evidência já estabelecida de que, após as fusões, um dos resultados tem sido o afastamento relativo dos bancos envolvidos em relação a pequenos clientes. Cumpre observar a relevância de que outras fontes e instituições cubram a lacuna, onde quer que as megafusões exerçam impacto.

    O segundo ponto é o de que, se lá fora megafusões ainda estão por vir, por aqui ainda há muita reestruturação bancária a acontecer. A privatização do Banespa deverá ser apenas uma passagem para novas rodadas de instabilidade matrimonial bancária, por estas bandas, qualquer que venha a ser o perfil do sistema bancário resultante da venda.

<