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    Balzac e a Nova Economia
    A Nova Economia não Findará com um Estouro da Bolha Acionária
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira, e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 04/04/00

    A semana passada foi marcada pela queda vertiginosa nas cotações do mercado eletrônico Nasdaq, onde se concentram as ações de tecnologia dos Estados Unidos. Cresceu a convicção quanto à presença de uma bolha especulativa na exuberância apresentada pelas bolsas nos últimos tempos.

    Seria uma eventual derrocada das cotações nas bolsas, além disso, um sinal de que a chamada "nova" economia corresponde a um rótulo sem conteúdo, nada mais que o reflexo de um super-otimismo esquizofrênico nas bolsas, como afirmam alguns? Neste caso, revela-se certa incompreensão sobre a natureza dos fenômenos atualmente em curso.

    Um primeiro aspecto a ressaltar é que o efeito mais relevante das novas tecnologias talvez seja tornar mais eficiente a velha economia. Os impactos das Tecnologias de Informação (TIs) vão muito além dos próprios setores onde se originam.

    Tomemos como exemplo o comércio eletrônico, ou seja, uma entre as fontes de mudanças derivadas das TIs. Embora a venda eletrônica ao consumidor - livros, CDs etc. - venha atraindo a maior atenção, na verdade o grande potencial de efeitos da comercialização eletrônica, ainda praticamente inexplorado, está no comércio entre as empresas.

    Não se trata apenas do fato de que, nas compras de insumos, componentes e equipamentos de cada empresa, a maior circulação de informações tende a intensificar o grau de concorrência entre seus fornecedores. Na verdade, os próprios custos de transação incorridos nas tarefas de compra cairão com as vias eletrônicas.

    Um estudo recente da Goldman Sachs - citado na revista The Economist da semana passada - aponta, por exemplo, para a possibilidade de redução de 14% no custo de fabricação de automóveis através da aquisição on-line de componentes. O estudo sugere que, nas cinco maiores economias do mundo, o comércio eletrônico poderá, meramente através da queda nos custos de aquisição de insumos e equipamentos, reduzir os preços médios em quase 4% na economia como um todo.

    A diminuição nos custos de aquisição não esgota os efeitos do comércio eletrônico entre empresas. Ganhos adicionais deverão advir das oportunidades de melhor gestão da cadeia de fornecimento. Da mesma forma, o melhor monitoramento e recomposição de estoques permitirá sua minimização, reduzindo o correspondente custo com imobilização de capital.

    O segundo aspecto a observar, para compreender-se o que está ocorrendo, é o fato de que boa parte dos ganhos de eficiência com as tecnologias de informação não serão diretamente apropriados sob a forma de maiores lucros por seus usuários ou provedores. Reportando-nos mais uma vez ao comércio eletrônico, cumpre lembrar que o acirramento da competição entre fornecedores, em qualquer ponto das cadeias de produção e comercialização, implica pressão por menores margens de lucro e por repasse de quedas nos custos aos preços.

    É verdade que, nos setores de origem das tecnologias, as chamadas "economias de rede (network)" que acompanham a difusão de novos produtos, criando clientelas fiéis, podem propiciar situações privilegiadas, como ocorreu no caso do sistema operacional Windows da Microsoft. Vale observar, por outro lado, a iminente condenação da empresa por práticas antitruste.

    De qualquer forma, as dificuldades para elevação de margens de lucro, em vários "setores de tecnologia", têm revelado barreiras à entrada e posições de mercado mais contestáveis do que se imaginava. Além disso, os ganhos substanciais de produtividade e custos na "velha" economia não tendem a ser apropriados pelos segmentos da "nova".

    O terceiro aspecto a notar, no atual contexto, decorre dos anteriores. Por um lado, houve crescente percepção quanto aos impactos das novas tecnologias. Por outro, superestimou-se sua tradução em maiores lucros das empresas envolvidas. O resultado foi a bolha especulativa, ou seja, o descolamento de preços de ações em relação a seus fundamentos.

    Esse terceiro aspecto se manifesta através da evidência de que o descolamento das cotações, bem como a conseqüente correção nas últimas semanas, estariam ocorrendo de forma ainda mais acentuada nos casos das empresas da "nova", em comparação com as da "velha" economia. A queda do Nasdaq, relativamente maior que a do Dow Jones, constituiria então um ajuste de preços relativos de ações, acompanhando a deflação geral dos ativos.

    Poderá, de qualquer modo, um estouro da bolha perturbar a "nova" economia? Afinal, o efeito-riqueza exercido pela supervalorização acionária sobre o consumo norte-americano tem ajudado a elevar a demanda por bens e serviços, acompanhando o aumento de sua oferta potencial. Caso esteja correto, porém, o diagnóstico de superaquecimento da economia que serviu de justificativa para a subida nos juros norte-americanos, por parte do Federal Reserve, seria problema menor o desaparecimento do efeito-riqueza.

    No que tange aos setores de tecnologia cujo financiamento tende a ser negativamente afetado pela correção de cotações, a composição de margens de lucro necessárias deverá emergir após alguma reestruturação patrimonial. De qualquer modo, os efeitos presentes e futuros das novas tecnologias não têm porque se dissipar após os finais das farras acionárias.

    Segundo vários analistas, há precedentes históricos para a associação entre, de um lado, mudanças tecnológicas na economia como um todo e, de outro, a supervalorização inicial do retorno dos investimentos nos setores de origem. Trata-se de um padrão já encontrado, por exemplo, no ciclo das estradas de ferro da primeira metade do século XIX.

    Aliás, foi nessa época que viveu o escritor francês Honoré de Balzac. Assim como este realçou as virtudes das mulheres maduras, cumpre-nos lembrar as amplas possibilidades de aproveitamento das novas tecnologias pela "velha" economia. É na economia balzaquiana que se realizam plenamente as potencialidades da "nova".