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    O custo da guerra
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica e Economia Social
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 05/05/2000

    Em 18 de março de 1962, o editor de economia do Le Monde, Gilbert Mathieu, publicou um artigo com o título "O custo da guerra". Mediante uso criativo de alguns indicadores, contornou a carência de dados oficiais para chegar a uma estimativa de quanto a guerra da independência da Argélia, então em seu sétimo ano, estava custando à França.

    Caiu como uma bomba sobre a defesa da permanência da França na Argélia a conclusão de que tal custo poderia estar significando um montante equivalente a algo entre 10% e 18% do PIB anual. A Organisation de l'Armée Secrète retrucou, literalmente, com uma bomba na casa do autor. Contudo, já era tarde demais para deter o impacto de seu cálculo de custos.

    O episódio ilustra, entre outros aspectos, tanto a influência e responsabilidade do jornalismo no curso dos acontecimentos, quanto as possibilidades de contribuição do cálculo econômico em um vasto campo de assuntos.

    O Brasil não enfrenta nenhuma guerra de independência colonial. Por outro lado, apresenta amplas oportunidades para exercícios da mesma natureza daquele efetuado por Gilbert Mathieu. Entre elas, naturalmente inclui-se a "guerra civil não-declarada" a que corresponde a violência urbana no país.

    Veja-se a estimativa apresentada pelo pesquisador Ib Teixeira, na edição de fevereiro da revista Conjuntura Econômica, quanto ao atual patamar de gastos com segurança dos setores privado e público, no Brasil. O total em 1999 atingiu R$ 37 bilhões, algo equivalente a cerca de 6% a 7% do PIB brasileiro ou metade do chileno.

    Trata-se de uma estimativa por baixo do custo da violência, dado que os gastos arrolados correspondem apenas a prevenção ou proteção (as quais têm resultados imperfeitos, de todo modo). A conta cresceria brutalmente caso também fossem considerados os demais custos decorrentes da violência. Estão por ser feitas, por exemplo, pesquisas sobre a disposição-a-pagar, da população, por programas de redução na violência, de modo a obter-se uma noção do custo social associado ao desconforto gerado pela insegurança.

    Como outro exemplo, há o custo de oportunidade derivado da perda de turismo estrangeiro. Teixeira sugere que, ao invés do atual 1 milhão médio anual de turistas, o Brasil poderia estar recebendo 8 milhões ou mais, não fosse pela violência. Dada a estimativa de gastos médios locais de US$ 1.000 por viagem, o país estaria deixando de receber divisas na ordem de no mínimo US$ 7 bilhões.

    Estimativas como as de Mathieu e Teixeira dão números ao desperdício social de recursos humanos e materiais escassos nas atividades de guerra ou similares.

    As raízes da violência certamente transcendem a simples pobreza, mas no mínimo desta se alimentam. Quanto custaria erradicar a pobreza? Pode-se calcular, ao menos, o gasto necessário para universalizar a cobertura dos serviços sociais básicos (saúde, educação, água potável e habitação) junto à população?

    Na edição de janeiro da Conjuntura Econômica, Teixeira cita dados de uma pesquisa da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), segundo a qual, partindo-se do patamar de gastos na área social no Brasil em meados dos anos 90, a meta de cobertura universal poderia ser alcançada mediante gasto adicional per capita de US$ 26 por ano, em termos de dólares de 1996. A saber, US$ 4,1 bilhões ou meros 0,5% do PIB.

    A utilidade da extroversão do cálculo econômico para outras áreas vai além da quantificação dos aspectos macroeconômicos destas. Análises de custo-eficácia ou similares mostram-se indispensáveis, por exemplo, na avaliação de políticas públicas. Diante de um dado objetivo perseguido, a racionalidade econômica pode apontar as opções de instrumentos e intervenções que geram melhores resultados por unidade de custo econômico envolvido. Desta forma, para qualquer dado patamar de gastos públicos, a análise contribui para a maximização dos benefícios das políticas públicas, quaisquer que sejam as unidades não-monetárias de medida em que estes benefícios devam ser mensurados.

    A era da expansão livre dos orçamentos públicos, após a Segunda Guerra Mundial, foi sucedida, no mundo, pela limitação de recursos à disposição para o gasto social. Mesmo nos países onde a provisão pública de serviços como educação, saúde, previdência etc. ainda permaneceu significativa, tetos orçamentários passaram a impor seleção de prioridades entre as várias políticas e intervenções possíveis em cada área. Na mesma direção, formuladores de políticas agora devotam mais atenção aos incentivos econômicos para que agentes sociais adiram às políticas das quais são objeto, como modo de elevar a eficácia em seus efeitos.

    Mais uma vez, o Brasil também comparece como campo fértil de análise. A pesquisa da CEPAL sobre os gastos sociais na América Latina, acima citada, apontou o país como detentor, em meados dos anos 90, do maior nível de gastos sociais per capita na região. Ao mesmo tempo, seus níveis de analfabetismo, expectativa de vida, desnutrição e mortalidade infantil mostraram-se entre os piores. Mesmo levando-se em conta o fato de que o estoque de dívida social a ser resgatada, como ponto de partida de tais gastos, era maior do que em outros países, a comparação entre custos e eficácia das políticas sociais brasileiras serviu como evidência da necessidade de uma revisão nestas últimas.

    O primeiro editorial do Valor Econômico (02/05/00, p. A26) ressaltou que "a economia tem adquirido importância crescente e cada vez mais visível na vida das pessoas em todo o mundo e especialmente no Brasil". Assim como no episódio do "custo da guerra" da Argélia e tantos outros na história, a análise e o jornalismo econômico continuam entre as funções mais vitais na vida social.