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    AS ECONOMIAS ASIÁTICAS DOIS ANOS APÓS A CRISE
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira.
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 20/06/00

    A recuperação das economias asiáticas teve nas exportações para os Estados Unidos sua principal alavanca. Por isso, quando afigurou-se inevitável a desaceleração norte-americana, a previsão de crescimento para a Ásia foi revisada para baixo. Na hipótese da aterrissagem suave da economia americana, a expansão asiática passou a ser projetada como algo entre 3% e 5% em 2001.

    Acompanhando o novo cenário, ocorreu um refluxo parcial do capital que havia retornado à região desde o ano passado. As moedas e as bolsas da Coréia do Sul, Tailândia, Indonésia e Filipinas perderam parte do valor recuperado desde o ano passado.

    Alguns analistas formularam o argumento de que, dada uma insuficiência das reformas estruturais implementadas naqueles países, a saída de capital e a revisão para baixo no crescimento estariam expressando a ausência de fundamentos sólidos para a retomada das taxas de crescimento prévias à crise. Não se trataria, desde logo, de algum risco de nova rodada de crises, pois afinal todos conseguiram recuperar posições sustentáveis na conta-corrente de seus balanços de pagamentos, além de seus bancos e empresas terem liquidado boa parte das dívidas de curto prazo junto aos credores ocidentais. A restrição se aplicaria, porém, sobre a disponibilidade de recursos para a volta do crescimento espetacular de antes.

    Os sistemas bancários estariam ainda descapitalizados e, portanto, incapacitados de cumprir seu papel de provedor de novos empréstimos e liquidez. A consolidação bancária e, principalmente, a entrada de bancos estrangeiros mais sólidos não teriam atingido a profundidade necessária.

    Por seu turno, as corporações industriais ainda estariam às voltas com altos níveis de endividamento em relação ao capital próprio. Além disso, seus empréstimos em inadimplência constituiriam peso contra a credibilidade necessária para levantar fundos e investir ao término da capacidade ociosa herdada da crise. A reestruturação empresarial também teria permanecido aquém do necessário no setor produtivo.

    Há bases para este argumento? Pode-se apontar a resistência de grupos econômicos domésticos, na Tailândia, Indonésia e Filipinas, no tocante à reestruturação e capitalização de bancos, pagamentos de dívidas etc.

    Na Coréia do Sul, por seu turno, também não acabou o saneamento dos chaebol, seus grandes conglomerados. Depois do colapso da Daewoo em 1999, a Hyundai passou por maus momentos no final do mês passado, quando alguns credores domésticos se recusaram a rolar débitos de curto prazo.

    Mas o mesmo governo coreano que impôs ao FMI a revisão do teor inicial do acordo assinado entre eles tem agido de modo firme no tocante ao saneamento financeiro local. Estabeleceu um teto de 200% para a razão empréstimos/capital dos chaebol. Além disso, proibiu os bancos de terem uma exposição acima de 25% de seu capital em relação a cada um dos 5 maiores chaebol, forçando o resgate de empréstimos vigentes. Também foi fechada a válvula de escape encontrada pelos chaebol através dos fundos de investimento.

    Os bancos, desde 1998, estão obrigados a registrar ativos conforme preços de mercado. Adicionalmente, passaram a operar com um sistema de classificação de créditos mais restritivo, não mais limitando-se a rebaixar apenas aqueles já inadimplentes. Introduziu-se, assim, o reconhecimento de riscos de crédito e de mercado no sistema financeiro.

    Tem-se também assistido a mudanças na governança empresarial, acompanhando a percebida necessidade de novas formas de financiamento. Estes aspectos, além da contribuição oferecida pelo crescimento atual das economias, enfraquecem o argumento da insuficiência de reformas. A saída de capital, nesses últimos meses, mais parece ter razões idênticas àquelas do caso latino-americano e demais emergentes: o menor apetite por risco no ajuste de portfólios globais após a possibilidade de aceleração nos juros norte-americanos. "Turbulências no exterior", não fundamentos locais.

    Não por acaso, no início de maio, três anos após o primeiro ataque especulativo contra o baht tailandês, China, Japão, Coréia do Sul e as economias do sudeste asiático acordaram estender multilateralmente uma rede de swaps de moedas, através da qual todos eventualmente poderão contar com as reservas acima de US$ 300 bilhões do Japão e US$ 160 bilhões da China. A "crise do FMI", como foi chamada na região a experiência de 1997-98, pode ter resultado no embrião do FMI asiático.