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    Morangos Eletrônicos
    Especialização em Produtos com Base em Recursos Naturais Só Permite Crescimento Sustentado se Agregar Serviços e Tecnologia
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Agrícola
    Publicado pelo Estado de São Paulo em 20 de dezembro de 1997

    Cerca de três anos atrás, em um debate no IPEA sobre a economia chilena, um expositor discorria sobre suas altas taxas de crescimento e sua especialização na exportação de produtos com base em recursos naturais. Na mesma palestra, enfatizava as possibilidades de importação de novas tecnologias abertas para aquela economia, a partir de sua liberalização comercial.

    Na platéia, um outro economista declarou, em voz suficientemente alta para ser escutado por todos, estar ouvindo falar pela primeira vez em "pêssegos eletrônicos". Com a balbúrdia que se seguiu no debate, permaneceu no ar a pergunta sobre o elo entre a especialização em produtos naturais por uma economia e a incorporação de novas tecnologias pela própria.

    Em 12 de outubro passado, o Estado publicou uma matéria sobre a empresa Valença da Bahia, a maior exportadora de camarões brasileiros para os Estados Unidos. O debate acima referido certamente teria encontrado bons subsídios nesta matéria.

    A Valença está, segundo a matéria, oferecendo parcerias, propondo-se a liderar uma "rede" (sem trocadilho) de produção de camarões. Forneceria larvas de camarão e rações para engorda, além de assistência técnico-biológica e mercado garantido para compra. O modelo adotado pelas grandes companhias de carne de porco e frango do Sul do país, como a Sadia e a Perdigão, estaria fazendo escola no setor dos crustáceos.

    A base técnica da produção, objeto das alianças estratégicas em torno dos crustáceos, envolve elementos como sistemas de sucção de água do mar ao longo de 6 Km, mecanismos de estabilização da temperatura da água em 27o constantes, além de um método de reprogramação do ciclo de reprodução dos camarões capaz de reduzi-lo de 1 ano, na natureza virgem, para 5 dias, nos tanques da empresa. Confesso ter me incomodado apenas com o fato de que os ovos que apresentam problemas são triturados para servir de ração aos outros. Há possibilidade do "camarão louco"?

    Tecnologia, além de dinheiro e marketing, entram ainda a jusante da produção propriamente dita dos crustáceos. Bandejas de 1 quilo pré-cozido e devidamente embalado de camarão borboleta, com marca registrada e pronto para ir ao forno de microondas, constituem o segmento com maior potencial de dinamismo em termos de quantidade e lucro.

    Também é evidente que o manejo de uma rede de empresas deste tipo - como no caso clássico da Benetton - requer boa dose de processamento eletrônico de informações, nos cadastros de fornecedores e clientela, nas consultas on-line etc., sem falar na própria produção.

    Para dar outro exemplo, pensemos numa exportação de rosas e como esta pode ter um conteúdo eletrônico. Para que um vendedor de flores de Montréal possa fornecer a seus clientes, no meio do inverno canadense, uma certa quantidade de botões de rosas prestes a abrir, vários passos intensivos em processamento de informações terão necessariamente sido tomados por seu fornecedor externo: a estimativa do "timing" de plantio e colheita, a adequação do acondicionamento do produto para transporte etc. Algo semelhante ocorre em vários outros produtos que exigem tratamento especial, como morangos por exemplo.

    Nos casos acima, o que se observa é que o substrato natural da transação, ou seja, o camarão, a flor e o morango que são os objetos de consumo, constitui apenas uma parcela do que é negociado. A rigor, o que se vende é um produto onde o conteúdo incorporado de serviços tem um valor de mercado que pode superar em muito a significância do conteúdo de recursos naturais em estado bruto.

    Há, na verdade, muita diversidade quando se trata de produção e exportação com base em recursos naturais. Em termos de dinamismo de mercado e de valor agregado, de absorção de mão-de-obra qualificada e de oportunidade de aprendizado tecnológico, faz muita diferença se se trata de produtos básicos com baixo processamento ou de segmentos com elevada incorporação de serviços.

    Em termos macroeconômicos, a diferença se manifesta no fato de que, quanto maior é a especialização em produtos de baixo conteúdo de processamento e serviços, na economia internacional, maiores são as restrições de comércio externo ao crescimento e menor a sustentabilidade deste último nas economias correspondentes. Cumpre também observar que, em termos de políticas de competitividade externa, são distintos os requisitos de financiamento, formação de capital humano, absorção de tecnologia etc., quando se pretende um conteúdo de produção local menos próximo da natureza em estado bruto. Particularmente relevante, no caso de incorporação de serviços, se tornam os instrumentos públicos de regulação de qualidade.

    Voltando ao debate mencionado no início deste artigo, cabe notar que a inquietação do ouvinte sobre os "pêssegos eletrônicos" fazia sentido. Por seu turno, uma resposta do expositor poderia, por exemplo, ter observado que não se exporta morangos silvestres e nem morangos mofados, o que supõe que sejam afinal "morangos eletrônicos". Depois disso - aí a tarefa já seria mais difícil - ao expositor cumpriria mostrar o conteúdo de alta incorporação de tecnologia e serviços na especialização com base em recursos naturais da economia chilena.