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    Disputa pelo Mercado em São Paulo
    Autor: Fernando Nogueira da Costa
    Assunto: Economia Monetária e Financeira

    A leitura dos relatórios de administração dos bancos é um dever de ofício dos analistas do sistema financeiro nacional. Publicados em letras miúdas e ocupando páginas inteiras de jornais, escapam à atenção dos leitores comuns. Mas neles os bancos revelam sua cara, isto é, a face oficial que desejam mostrar ao público.

    Qual é a imagem pública de cada um desses estabelecimentos que tanto freqüentamos, virtual ou fisicamente? O Bradesco tem como principal característica mercadológica se apresentar como um banco prioritariamente dirigido ao varejo, revelando a cultura de empresa de “cliente popular”. O foco principal da propaganda do Banco Itaú se dirige para o cliente classe média. A “cultura da empresa” não permite obter nem o relacionamento pessoal que o gerente do Bradesco tem com o “popular”, nem ter facilidade de alcançar as camadas de altas rendas, como fazem os bancos estrangeiros e o Unibanco. Assim, o perfil do cliente típico do Itaú se delineia configurando o profissional liberal e/ou o assalariado de curso superior. Ele tem até um relacionamento pessoal com clientela composta de donos de pequenas empresas, mas não na proporção que o Bradesco – nos centros urbanos – e o Banco do Brasil – no interior – dispõem. Este, seguido pela Caixa Econômica Federal, aparece como primeira referência em relacionamento bancário para a maioria da população.

    Dos citados relatórios podemos tirar números que concretizam essas imagens populares. O Banco do Brasil encerrou o primeiro semestre de 1999 com um total de 9,7 milhões de contas correntes de pessoas físicas e 900 mil de pessoas jurídicas e governo. A Caixa Econômica Federal, na mesma época, tinha 2,875 milhões de contas de depósitos à vista (e 10 milhões de cadernetas de poupança). Ao final de 1999, o Bradesco registrava 8,7 milhões de contas correntes e 23,6 milhões de contas de poupança. Atendia cerca de 4,188 milhões de clientes, diariamente, número superior às populações de todas cidades do país, exceto as do Rio de Janeiro e de São Paulo. O Banco Itaú e suas subsidiárias administravam uma carteira de 6,5 milhões de clientes ativos. Destes, 3,7 milhões tinham crédito pré-aprovado. O Banco tinha cerca de 200 mil empresas como clientes. O Unibanco contabilizava 3,7 milhões de clientes.

    A cartada decisiva para domínio significativo do mercado bancário brasileiro talvez seja jogada na privatização do Banespa. O Banco tem cerca de 3 milhões de contas correntes, sendo 800 mil de funcionários públicos paulistas, dos quais ¾ cadastrados como clientes financeiros. Concentra a maior parte da movimentação financeira do governo paulista. Este se comprometeu em permanecer com suas contas no Banespa, durante certo tempo, depois da privatização. O Banco tem presença fortíssima no Estado de São Paulo. Possui uma rede de 1.362 dependências, composta por 577 agências e 785 postos. Deste total, 216 estão localizados na capital, 131 na Grande São Paulo, 941 no interior paulista e 74 em outros Estados. É o agente financeiro mais atuante em 100 dos maiores municípios paulistas.

    Embora o Banespa seja um banco de dimensão regional, seus negócios estão concentrados no centro financeiro do país. Da população brasileira – 160 milhões de pessoas –, 22% vivem em São Paulo: são 35 milhões de pessoas – uma população superior à das regiões Sul e Centro-Oeste juntas. Quase 10 milhões vivem na capital de São Paulo, ou seja, uma população maior do que a do Rio Grande do Sul ou, ainda, maior do que a do Uruguai e do Paraguai juntos. Com um PIB de US$ 290 bilhões (o equivalente ao da Argentina), São Paulo detém 36% da economia brasileira. Sua renda per capita era de US$ 8.354, em 1997. Logo, há um significativo mercado potencial, para ser explorado pela atividade bancária, no Estado.

    A capital de São Paulo possuía, em janeiro de 1997, segundo dados da FEBRABAN, 116 sedes de bancos, ou seja, mais da metade dos 229 bancos então existentes no Brasil adotaram-na como o centro de decisões financeiras. Da rede nacional de agências, 11,7% estavam na cidade de São Paulo e quase 1/3 no Estado.

    Segundo pesquisa do SEADE, o Estado de São Paulo possui cerca de 46% e 33% da clientela bancária nacional – pessoas físicas e pessoas jurídicas, respectivamente. Percebe-se a relevância do mercado paulista, especialmente para os maiores bancos – os varejistas. Os bancos que dominam o mercado financeiro, em São Paulo, têm poder de domínio do mercado nacional.

    No Estado de São Paulo, em 1996, o grupo de bancos gigantes que tinha cada um mais de 1 milhão de clientes (em média 2,230 milhões clientes por banco) era constituído por Itaú, Bradesco, Banespa, Unibanco e Banco do Brasil. Esses cinco bancos gigantes possuíam 77% da clientela paulista – somando pessoas físicas e jurídicas. Estima-se que o Itaú tenha a metade de sua clientela em São Paulo e o Bradesco, assim como o Unibanco, cerca de 1/3. O Banco do Brasil teria pouco mais de 1/10 de seus correntistas em São Paulo. Em função do alto potencial de mercado das regiões Sudeste e Sul, o Banco adotou estratégia de ampliar presença nessas regiões, especificamente em São Paulo, onde instalou mais de 1/3 das suas novas agências. A Caixa Econômica Federal, fora desse grupo de gigantes em São Paulo, mudou sua estratégia mercadológica, substituindo sua comunicação de apelo social por um marketing pragmático e sofisticado, dirigido à classe média.

    Calcula-se que somente cerca de 15% da população brasileira têm conta bancária – no máximo 24 milhões de pessoas. Como as contas correntes dos bancos citados – Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú, Unibanco e Banespa – somam, conjuntamente, 35,4 milhões, verifica-se que mais da metade da clientela bancária deve ter mais de uma conta corrente, sendo duramente disputada.

    Qual é o perfil sócio-econômico dessa parcela da população cliente dos bancos? Basta cruzar os dados com os da distribuição de rendimento médio mensal das pessoas de 10 anos ou mais de idade, no Brasil, para perceber que eles privilegiam as contas correntes dos 10% mais ricos que recebem 47,5% do total dos rendimentos. O rendimento médio mensal dessas pessoas era, em 1998, R$ 2.539,00 (quase 20 salários mínimos). Considerando outra classificação social (das 100,8 milhões de pessoas acima de 16 anos), os bancos disputam o mercado composto pela “elite” (7,3%), os “batalhadores” (2%) e os “remediados” (13 %). Em torno de 60% das pessoas desses estratos sociais moram na região Sudeste.

    Na economia com pior concentração de renda do mundo desenvolvido e/ou em desenvolvimento, o mercado que realmente interessa aos bancos é excludente e concentrado, inclusive regionalmente. Lamentavelmente, via privatização do Banespa, vai se conceder uma significativa participação no disputado mercado paulista sem sequer a exigência do vencedor do leilão se comprometer com o financiamento do desenvolvimento do Estado, ou seja, manter o papel social histórico do banco público.