A Difícil Arte de Manobrar o Super-Petroleiro Americano
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira, e Economia Internacional
Publicado pelo jornal Valor em 02/08/00
Sexta-feira passada, foi anunciada a prévia de crescimento de 5,2% para o PIB dos EUA, no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 1999, superando as previsões que o colocavam entre 3,5% e 3,9%. Deverá firmar-se a expectativa de que, na reunião do Comitê de Política Monetária do Fed em 22 de agosto, será retomada a escalada na taxa básica de juros iniciada em junho do ano passado e interrompida na última reunião.
Em junho passado, a revista The Economist descreveu a economia norte-americana como um enorme petroleiro, potente e de manejo complexo, mas aparentemente capaz de fazer manobras radicais. Os sinais de desaceleração então manifestos - aumento para 4,1% na taxa de desemprego, desaquecimento no mercado imobiliário - pareciam confirmar a destreza do Fed quanto a reduzir, sem sobressaltos, a velocidade do crescimento. Agora, podem emergir dúvidas quanto à eficácia dos comandos suaves, com baixa agressividade na política de juros.
Antes de tudo, há que se observar a presença de várias instâncias intermediárias entre as ordens de comando (taxas de juros) e o movimento do navio (crescimento sem aceleração inflacionária). A trajetória de navegação, em termos de expansão do PIB e inflação, depende do que se passa nos compartimentos dos mercados de bens e serviços e do trabalho, incluindo aí o impacto sobre o custo de importações decorrente da posição cambial do dólar. Por outro lado, embora o curso efetivo da inflação seja o alvo, a estratégia de navegação só pode lidar com ele por vias indiretas, através dos efeitos da taxa de juros sobre a demanda por bens e serviços. E em cada uma dessas instâncias a "nova economia" norte-americana vem reservando surpresas.
A inflação - conforme medida pelo deflator implícito do PIB - ficou em 2,2% anuais no período de abril a junho, em patamar menor do que os 3,2% previsto pelos economistas. Os custos do trabalho também aumentaram abaixo do esperado. A velocidade aparentemente excessiva do petroleiro não disparou o alarme da inflação.
Mas as dúvidas e incertezas não se limitam aos nexos entre crescimento, desemprego e inflação. Também aparecem nas próprias relações entre a política de juros e o comportamento da demanda por bens e serviços, tornadas mais complexas pelas características adquiridas pelas finanças norte-americanas na última década.
Entre 1990 e 1998, nos EUA, o estoque de títulos negociáveis de dívida privada aumentou de 50% a 71% do PIB. Por seu turno, o valor de mercado das ações listadas em bolsas, no mesmo período, saltou de 58% para 128% do PIB. Cresceu a riqueza financeira com atributos de liquidez e negociabilidade em mercados secundários, tanto em relação ao PIB quanto ao próprio total de ativos financeiros.
As conseqüências disto não se limitam ao peso crescente dos "efeitos-riqueza" sobre o consumo familiar e o financiamento empresarial. Conforme tem enfatizado Alan Greenspan, presidente do Fed, também aumentou a sensibilidade do valor da riqueza financeira diante das cotações vigentes nos mercados e de mudanças nas expectativas, em magnitudes nem sempre previsíveis.
Tome-se, neste contexto, a decisão de subida nos juros do Fed a partir do ano passado. Apesar da ausência de maiores alertas vermelhos na conexão crescimento-desemprego-inflação, avaliou-se que a antecipação de ganhos futuros no valor das empresas, nas bolsas, estava em descompasso com o ritmo possível de materialização desses ganhos, suscitando via efeito-riqueza um excesso de gastos privados.
Como resultado dos aumentos nos juros, o índice Dow Jones, depois de subir 25% em 1999, neste ano apresentou, até quarta-feira passada, queda de 7%. Contudo, no segundo trimestre deste ano, em adição aos gastos públicos, continuaram os investimentos empresariais e - em menor grau - o consumo familiar a manter intensa a demanda por bens e serviços. A própria euforia com as notícias de êxito na redução de velocidade do petroleiro reacelerou seu movimento.
Ao mesmo tempo, o provável aumento dos juros em agosto não deverá romper com o gradualismo seguido até aqui. Até lá deverá ocorrer novo ajuste para baixo nos preços dos ativos. Além disso, Greenspan tem destacado uma assimetria no movimento dos mercados de ativos: a leveza encontrada na subida pode dar lugar, na queda, a choques provocados pelas "chamadas de margem" e pela rigidez em valor nominal das dívidas. Melhor evitar trancos no movimento do super-petroleiro.