A HERCÚLEA TAREFA DE LEVANTAR O EURO
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
Publicado pelo Jornal Valor em 15/08/2000
Sexta-feira passada, Ernst Welteke, presidente do Bundesbank, reforçou a manifestação contida no último boletim mensal do Banco Central Europeu (BCE), quanto à atual presença de riscos inflacionários na zona do euro. As expectativas agora estão divididas apenas quanto à magnitude – 0,25% ou 0,5% - da provável elevação dos juros pelo BCE, na reunião de diretores da próxima quinta-feira.
A inflação anual de preços ao consumidor alcançou 2,4% em julho, ultrapassando a faixa de 0-2% estabelecida como meta para a zona. Os preços do petróleo e de outras matérias primas importadas, além da desvalorização do euro em relação ao dólar, são os culpados apontados pelo BCE. Na semana passada, por exemplo, o euro ameaçou cair abaixo do recorde de US$ 0,8884 de maio passado.
A subida nos preços do petróleo, desde o ano passado, atingiu tanto a Eurolândia quanto os EUA. Por outro lado, a valorização do dólar proveu um fôlego adicional de crescimento sem aceleração inflacionária para os EUA, via queda nos custos das demais importações. Já no lado do euro, embora as exportações tenham ajudado o dinamismo macroeconômico recente, a desvalorização e a correspondente pressão de custos encurtaram a margem para crescer sem necessidade de elevação de juros. O euro e o dólar não são faces opostas de uma mesma moeda, mas sua taxa de câmbio influi nas margens para políticas domésticas de expansão nas correspondentes regiões.
Afinal, o que fez o euro despencar desde os US$ 1,18 de seu início? A chave está no fluxo maciço de capital para os EUA. No primeiro semestre deste ano, o déficit comercial norte-americano atingiu US$ 177,6 bilhões, contra US$ 116 no mesmo período de 1999. Por outro lado, de janeiro a maio de 2000, a compra de ativos locais por estrangeiros ultrapassou US$ 186 bilhões, acima dos US$ 116 no período equivalente do ano passado.
Parcela significativa desse fluxo saiu da zona do euro. Em 1999, seu superávit em conta-corrente, de US$ 45,8 bilhões, foi suplantado por US$ 180,4 bilhões líquidos de investimentos diretos e de portfólio no exterior, em grande parte dirigidos aos EUA.
A imagem invertida no espelho da euforia com a “nova economia” dos EUA foi a reversão do overshooting inicial de otimismo quanto ao euro. A despeito do bom desempenho da zona do euro, no período, foi-se reconhecendo a complexidade das tarefas a ser cumpridas para a consolidação da nova moeda, enquanto no outro lado do Atlântico predominavam apenas novidades positivas quanto à produtividade e ao crescimento sem inflação.
Os críticos do euro já haviam apontado suas dificuldades. Segundo eles, o grau de integração econômica e de convergência nos movimentos cíclicos das economias constitutivas do euro não seria suficiente para configurar a zona como uma “área monetária ótima”. Situações regionais divergentes, quanto a crescimento e inflação, tenderiam a demandar políticas de juros e câmbio discrepantes e inconciliáveis. A insuficiente mobilidade de mão-de-obra e de capital, em decorrência das barreiras culturais e institucionais remanescentes, só reforçaria o problema.
Com efeito, tem ocorrido certa divergência cíclica entre as regiões. Ainda mais importante, no mesmo contexto, foi a permanência de significativas diferenças nacionais no tocante à regulamentação financeira, a procedimentos jurídicos, a autonomia decisória governamental etc.
Não por acaso, conforme mostrado no último relatório anual do BIS, assistiu-se ao seguinte fenômeno. Por um lado, quase imediatamente após a introdução do euro, os mercados monetário e interbancário da zona do euro começaram a funcionar de modo inteiramente integrado. As emissões de títulos de dívida denominados em euro pelas corporações cresceram a patamares múltiplos dos anteriores.
Por outro, com a não-consolidação dos mercados de ações e de títulos de dívida, o mercado monetário local, maior e mais líquido, serviu para financiar aplicações... nos EUA. Portanto, no atual estado das artes, nada restaria a não ser elevar os juros reais, no mercado do euro, em relação aos do dólar.
Os euro-otimistas têm observado que, conscientemente, o lançamento do euro foi para induzir politicamente o processo de preenchimento das condições para uma “área monetária ótima”, não o inverso. Cumprindo-se a agenda da convergência institucional, será revertida a restrição do euro em queda. Neste caso, mesmo com a entrada da Grécia e outros, levantar o euro talvez não se torne uma décima-terceira tarefa para Hércules.