Coelhas e velhos lobos
Consolidação Empresarial na Internet não Eliminará Ganhos com Comércio Eletrônico
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura econômica e economia industrial
Publicado pelo Estado de São Paulo em 29/09/00
Terça-feira passada, fechou o provedor Super11.net, aberto em maio. Analistas prevêem que, das centenas de provedores de acesso à internet atualmente existentes no Brasil, restará não mais que uma dúzia em pouco tempo.
Indagaram-me se isso não seria evidência de que, no Brasil, a expansão da internet não deverá intensificar a concorrência nos mercados por ela afetados. Com a consolidação empresarial nos vários segmentos da internet, seguiu a provocação, desapareceria precocemente a pressão de queda de margens de lucro e preços, um dos benefícios da “nova economia”.
Antes de tudo, cabe identificar as diferenças nos impactos da internet sobre a ampla gama de setores, velhos e novos. Faz-se necessário não confundir a dinâmica competitiva interna a cada segmento da internet com seus efeitos sobre os demais setores da economia.
Há poucas dúvidas quanto ao potencial de maior eficiência econômica contido na comercialização eletrônica de bens e serviços, tanto nos casos dos próprios produtos digitais de consumo e de investimento, quanto daqueles entregues fora da rede. Tendem a cair os custos de busca de informações e das transações. Adicionalmente, podem tornar-se mais factíveis as linhas de “produção enxuta”, com melhor gestão da cadeia de suprimento, menores estoques e maior flexibilidade diante de mudanças nas preferências da clientela. Sem contar que, ao ampliar-se o cruzamento entre possíveis fornecedores e compradores, eleva-se o estímulo competitivo à busca de eficiência.
Houve quem argumentasse que tais ganhos poderiam ser compensados negativamente por custos mais elevados nos canais de distribuição menos densos da comercialização eletrônica, pelo menos no caso dos bens e serviços não digitais. Enquanto a comercialização tradicional envolve a aglomeração física em atacadistas e varejistas, até chegar ao usuário final, a eletrônica supõe translados diretos e descontínuos entre fornecedores e cada cliente.
Não por acaso, contudo, estão em desenvolvimento soluções intermediárias, em termos de combinação entre a “velha” economia (postos de armazenagem) e a “nova”. Além disso, nem todos os ganhos de eficiência se traduzirão em preços, levando-se em conta que as necessidades e desejos específicos de cada cliente poderão ser melhor aproximados através da coleta de informações propiciada pela comercialização eletrônica.
É fundamental observar que esses ganhos de eficiência, para os usuários da comercialização eletrônica, não supõem margens de lucro ou preços cadentes nos serviços de comercialização, na passagem da “velha” para a “nova” - ou a “balzaquiana”, combinando ambas. Cabe examinar, de qualquer modo, a atual consolidação nos segmentos de provisão de serviços via internet.
Baixas barreiras tecnológicas à entrada explicam a taxa de natalidade, em ritmo de coelhos, de novos provedores de serviços – portais de acesso, sites de leilão, jornalismo e informações especializadas, vendas de produtos etc. – nos últimos anos. Por outro lado, o potencial ainda inexplorado de economias de escala e de diferenciação de produtos, com ambas se reforçando, está levando a um processo de seleção natural entre tais empresas.
As economias de escala, na internet, não dizem respeito apenas a indivisibilidades técnicas, de equipamentos e equipe, superáveis através de maior tamanho. Há as chamadas “externalidades de rede”, ou seja, o fato de cada acréscimo no conjunto de usuários da firma eleva o valor de sua clientela já capturada, na avaliação de suas fontes de receita. Está ainda em curso um círculo virtuoso entre diferenciação de produto via “conteúdo” – qualidade, velocidade de acesso, atualizações mais freqüentes, cobertura mais ampla, grau de sofisticação na interface com usuários etc. – e escala da clientela.
Foi essa presciência do caráter seletivo do concurso entre as empresas “coelhinhas” que as levou a estratégias de maximização de sua clientela, aqui como nos outros lugares do mundo. A disponibilidade ampla de financiamento para as empresas do ramo, até recentemente, permitiu a ousadia da prática de preços abaixo de custos, com prejuízos a ser cobertos em caso de sucesso de mídia.
Contudo, a maior seletividade nos mercados financeiros, expressa na mudança de tendência na Nasdaq nos últimos meses, trouxe mais um atributo a ser considerado na atratividade das “coelhinhas”, aos olhos dos jurados do concurso, suas fontes de recursos. Além de conteúdo e clientela, vale agora sinalizar com contas bancárias em ordem e, portanto, menor probabilidade de falência antes da final.
No Brasil, por exemplo, não foi por acaso que, imediatamente após a eliminação da Super11.net, Starmedia e Altavista trataram de anunciar programas de redução de pessoal, para apresentarem-se mais “enxutas”. A intenção é adotar regimes sem riscos de anorexia.
Além de associações entre as próprias empresas da internet, uma tendência é a fusão ou aquisição por capitais já consolidados em outros setores mais maduros. As sinergias com as telecomunicações fazem destas uma origem natural de parceiros.
No Brasil, tem sido crescente a desenvoltura, na área, desfilada por Telefonica/Terra, Telecom Italia/Globo.com e Portugal Telecom/Zip.net, os quais deverão em breve receber a companhia de outros grupos. No lado do objeto de caça, por seu turno, terá de ser mostrado maior conteúdo do que a leitura de “O Pequeno Príncipe”.
Em termos morfológicos, as estruturas de mercado na internet conterão menor número de empresas, porém mais eficientes. Mesmo com a recomposição de lucros, os ganhos diretos e indiretos derivados do comércio eletrônico só não se materializarão na improvável hipótese de margens de lucro tendentes ao infinito na internet.