Preço do Petróleo
Aceleração, Ultrapassagem e Amortecedores
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura econômica e economia internacional
Publicado pelo Jornal Valor em 29/09/00
Em 1998, enquanto a crise financeira internacional ainda se desdobrava, o preço do petróleo despencava abaixo dos US$ 10 por barril. No ano seguinte, com a surpreendente virada no cenário econômico mundial, mostrou-se bem sucedida a manobra de redução na oferta do petróleo, comandada pela Arábia Saudita e a Venezuela, com a anuência do México, do lado de fora da OPEP. O problema é que a operação foi bem sucedida em excesso.
Em pouco tempo, a recuperação do preço do barril acelerou até mais que o triplicar. E os produtores se recordam do que aconteceu após os choques de preço do petróleo dos anos 70. Ao tornarem viáveis a prospecção e exploração de fontes antes não atraentes, bem como a substituição parcial de seu uso por outros insumos, acabaram amargando duas décadas nada memoráveis.
Houve uma ultrapassagem da faixa de preços estabelecida como meta da manobra: o targeting deu num overshooting. Por isso, na última reunião da OPEP, foi decidido o aumento da produção em 800 mil barris por dia, a chegar nos mercados em outubro. Na semana passada, foi anunciada a possibilidade de novo incremento de 500 mil barris/dia antes mesmo do próximo encontro do cartel, em novembro, caso o preço do barril não caia até lá para US$ 28.
Considerando-se as estatísticas de consumo e produção mundial e tomando-se como críveis aqueles anúncios, os fundamentos apontariam para o fim da subida nos preços. Em 1999, a queima de estoques correspondeu à diferença entre 75,5 milhões de barris/dia consumidos e 74 milhões produzidos. Neste ano, por seu turno, segundo dados do JP Morgan citados sábado pelo O Estado de São Paulo, a estimativa de consumo diário de 76,5 milhões já vem sendo superada pela produção.
O overshooting no preço ocorreu por causa de uma hiper-reação na formação de estoques, acima da recomposição de níveis anteriores, como movimento especulativo gerado pela elevação de preços esperada. Contribuíram para tanto a resistência contra a desaceleração no crescimento apresentada pela economia dos Estados Unidos, bem como o conhecimento, pelo mercado, da inelasticidade de oferta no curtíssimo prazo, particularmente após o período de baixos investimentos durante a vigência de preços diminutos.
Por outro lado, o consenso é o de que o preço do barril, mesmo que alcance US$ 40 ou mais no futuro próximo, não poderá se sustentar em tais patamares. A incerteza se aplica a sua trajetória, ao longo do inverno no hemisfério norte, bem como aos níveis a que tende depois dos próximos 6 meses.
Quanto mais longo o overshooting, maior será a queda posterior. Esta convicção vem fazendo a Arábia buscar desinflar desde já o preço do barril. Sexta-feira passada foi ajudada pela declaração do governo norte-americano de que vai disponibilizar 30 milhões de barris/dia de suas reservas estratégicas, ao longo dos próximos 30 dias.
No Brasil, onde os preços da gasolina, por exemplo, já subiram quase 30% este ano, há quem defenda a retirada de quaisquer amortecedores diante do choque ou "bolha" do petróleo. Segundo o argumento, bastaria confiar no manejo das taxas de juros, bem como no ajuste de preços relativos e dos níveis de uso e importação do produto, acompanhando como uma sombra a evolução do preço do petróleo no exterior. Nada de deixar a conta petróleo absorver fiscalmente o impacto do preço externo.
Este realismo maior do que o do rei - ou do sheik árabe - implicaria, contudo, maior volatilidade na inflação doméstica. Um estudo de Thiago Rabelo Andrade e Luiz Dias Bahia, técnicos do IPEA, publicado no Boletim de Política Industrial deste Instituto, projeta aumentos no IPCA anual de 0,37%, 1,1% e 1,83%, respectivamente, em decorrência de repasses de incrementos de 10%, 30% e 50% no preço do petróleo. Verificando-se de fato um caráter parcialmente reversível na trajetória do preço internacional do petróleo, o resultado seria apenas uma nova rodada de instabilidade, em seguida ao soluço inflacionário de julho e agosto. Isto num regime de metas ainda não estabelecido em termos de um índice de núcleo da inflação.
No lado fiscal, há margem para que o governo deixe para o fim do ano a revisão do amortecedor, quando deverá estar claro o sucesso ou não do balanceamento do preço do petróleo lá fora. No lado cambial, a estrada é mais pedregosa. Vai ser necessário que o buraco no saldo comercial não impulsione substancialmente o dólar, para que a pressão inflacionária não apareça por outro caminho.
No Brasil, por exemplo, não foi por acaso que, imediatamente após a eliminação da Super11.net, Starmedia e Altavista trataram de anunciar programas de redução de pessoal, para apresentarem-se mais “enxutas”. A intenção é adotar regimes sem riscos de anorexia.
Além de associações entre as próprias empresas da internet, uma tendência é a fusão ou aquisição por capitais já consolidados em outros setores mais maduros. As sinergias com as telecomunicações fazem destas uma origem natural de parceiros.
No Brasil, tem sido crescente a desenvoltura, na área, desfilada por Telefonica/Terra, Telecom Italia/Globo.com e Portugal Telecom/Zip.net, os quais deverão em breve receber a companhia de outros grupos. No lado do objeto de caça, por seu turno, terá de ser mostrado maior conteúdo do que a leitura de “O Pequeno Príncipe”.
Em termos morfológicos, as estruturas de mercado na internet conterão menor número de empresas, porém mais eficientes. Mesmo com a recomposição de lucros, os ganhos diretos e indiretos derivados do comércio eletrônico só não se materializarão na improvável hipótese de margens de lucro tendentes ao infinito na internet.