Quando os Brancos se Entendem
Semana de Praga Foi Marcada Pela Calma nos Preços do Petróleo e no Euro
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira e Economia Internacional.
Publicado pelo Estado de São Paulo em 03/10/00
A violenta festa nas ruas de Praga, na semana passada, só serviu para ocupar a mídia. Como bem observou a revista The Economist neste fim-de-semana, a horda de manifestantes atacou o alvo errado e na hora errada. O encontro anual conjunto do FMI e do Banco Mundial pôde acabar mais cedo porque a reunião relevante já havia ocorrido, no sábado anterior, entre os ministros do G7, na embaixada alemã.
A rigor, as decisões prioritárias já haviam sido tomadas antes mesmo da reunião na embaixada. Nos dias anteriores, o preço do petróleo e a queda livre do euro, considerados como as ameaças imediatas ao cenário da economia global, foram objeto de ação das autoridades das economias centrais. Para o encontro em Praga, ficaram as declarações quanto à necessidade de que a globalização "funcione para todos", sem avanços inclusive na questão do perdão da dívida dos países mais pobres. A política internacional continua pragmática e nada filantrópica.
Enquanto a confusão reinava em Praga, materializavam-se os efeitos dos anúncios da OPEP e dos Estados Unidos acerca do petróleo. A intenção declarada de aumento da produção pela Arábia Saudita, ajudada pela disposição de uso das reservas estratégicas norte-americanas colocada pelo presidente Clinton, fez o preço cair na quinta-feira.
Só não se manteve a queda na sexta porque a União Européia anunciou não pretender utilizar suas reservas estratégicas. Talvez a decisão - não consensual - de seus 15 ministros das Finanças tenha dado ouvidos ao grito, pela OPEP, de que já foram suficientes os movimentos recentes de contenção da alta, ameaçando reverter as decisões de aumento da produção caso os europeus seguissem o exemplo dos EUA. O fato é que, apesar das dúvidas quanto às possibilidades de transformação de petróleo pelas refinarias no futuro próximo, bem como quanto à trajetória do preço durante o inverno no hemisfério norte, as intervenções da Arábia e dos EUA parecem ter desanuviado o horizonte quanto a um novo choque do petróleo.
O entendimento entre "países brancos" - expressão de Paul Krugman para as economias desenvolvidas, em contraste com as emergentes - foi exercitado para valer no caso do euro. Na sexta-feira, dia 23, os mercados cambiais foram surpreendidos pela operação conjunta dos principais bancos centrais do mundo contra a desvalorização do euro. Aberto o precedente, no dia seguinte, após a reunião dos ministros na embaixada alemã em Praga, o presidente do Banco Central Europeu, Win Duisenberg, pôde fazer a ameaça, com credibilidade, de que tem "o instrumento da intervenção" em seu arsenal.
Tudo indica ter sido bem sucedida a intervenção. Durante a semana passada, o euro pareceu estabilizar-se no patamar de 0,88 por dólar, pelo menos temporariamente. Nem mesmo o "não" dinamarquês ao euro chegou a abalar a cotação, contrariando temores neste sentido. Certamente a previsão de derrota do governo da Dinamarca, favorável à integração monetária, esteve entre os elementos favoráveis à decisão por intervir pelos bancos centrais.
Um sinal claro de êxito da intervenção esteve presente nos mercados de opções, nos quais as opções de compra do euro cresceram em relação às opções de venda. Os derivativos podem ter manifestado alguma alteração nos sentimentos.
De uma forma ou de outra, talvez tenha sido detido um "comportamento de manada" no mercado - um "impulso próprio", nos termos de Duisenberg - que parecia estar levando o euro muito abaixo do que seria razoável, diante dos fundamentos. Tudo indicava estar em curso um processo de auto-realização de profecias pessimistas feitas pelos mercados quanto à moeda, em decorrência dos perniciosos efeitos da própria desvalorização cambial e dos preços de petróleo (cotados em dólar) sobre o tenro crescimento europeu, em contraste com mais anúncios de crescimento sem inflação nos EUA.
Foi compreensível a convergência de interesses em torno de deter o "impulso próprio" do euro em direção ao abismo. Para os EUA, por um lado a valorização do dólar e os fluxos de capital provenientes da Europa têm sido favoráveis para seus baixos custos de capital e para o crescimento sem inflação. Por outro, porém, no ritmo em que marchava o processo, inevitavelmente cresceria também a percepção de risco quanto a uma aterrissagem forçada do dólar, na hipótese de uma reversão súbita de sentimentos.
Dentro de certos limites, o dólar e o euro são faces de uma mesma moeda. Sua taxa de câmbio não pode flutuar muito além de certas margens, sob pena de desestabilizar todos na economia global. Mesmo que as intervenções articuladas entre os bancos centrais venham a ser raras, pontuais e de timing pouco previsível, é provável que, na semana de Praga, tenha-se assistido ao começo de uma nova fase de coordenação monetária tácita ou implícita entre os "brancos".
Cabe observar, inclusive, que novas intervenções devem mostrar-se necessárias no futuro próximo, diante de testes pelo mercado. Pelo menos foi isto que aconteceu, em 1998, durante a sustentação coordenada do iene pelo Banco do Japão e o Federal Reserve americano.
Já no tocante à reversão da atual posição do euro, a dualidade dólar-ouro torna tudo mais difícil. Enquanto as expectativas de retorno e risco de longo prazo continuarem bem mais favoráveis nos EUA, em relação à Europa, as taxas reais de juro do euro dificilmente eliminarão sua atual desafagem em relação às americanas. Tende a permanecer a armadilha: o diferencial dos juros reais mais baixos na região do euro não pode ser eliminado sem nervosismo quanto ao crescimento local e, ao mesmo tempo, favorece a extroversão de capital rumo aos EUA.
Enquanto isso, a horda das ruas de Praga espera pela nova reunião dos brancos.