Clickable Image Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment




    Bolhas, Milagres e Mitos
    A Crise Financeira da Coréia Não Desmente seus Sucessos Anteriores
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
    Publicado pelo Estado de São Paulo em 2 de dezembro de 1997

    O que aconteceu com o milagre asiático? Este é o título de um texto de Paul Krugman disponível em sua home page no MIT. O autor revisita o tema deoutro trabalho seu, publicado há três anos na Foreign Affairs, quando previu uma inflexão no crescimento asiático e suscitou forte polêmica. Na época, o trabalho The Asian Miracle, do Banco Mundial, recebia grande atenção.

    Krugman investiu, em 1994, contra a própria idéia de um milagre asiático. O Japão já atravessava sua longa recessão dos anos 90, mas o fenomenal crescimento das demais economias na região parecia sustentar o milagre... ou seu mito, segundo aquele economista.

    O exuberante crescimento asiático teria sua base em três fontes, todas no lado da oferta das economias: altas taxas de poupança, a incorporação de camponeses subempregados por setores industriais modernos e a universalização da educação. Em cada país, uma vez plenamente utilizadas as duas últimas fontes, necessariamente as taxas de crescimento teriam de se acomodar em níveis mais baixos.

    A exaustão relativa destas fontes teria já acontecido no Japão, nos anos 80, e estaria manifestando-se em países como a Coréia do Sul e Tailândia pelo menos desde o ano passado. A expansão de salários acima da produtividade, nestes últimos, bem como o superaquecimento de seus mercados internos e a transição de superávites para déficits comerciais, seriam sintomas da necessidade de aceitação de um crescimento mais lento.

    A "bolha" financeira do final dos anos 80, na economia japonesa, com a super-valorização de preços imobiliários e de ações, teria ofuscado a insustentável leveza da continuidade do alto crescimento. O mesmo tipo de resistência à realidade, nos últimos anos, estaria subjacente ao ciclo especulativo imobiliário no resto da Ásia, assim como ao excesso de investimento dos conglomerados coreanos. Tudo isso com a ajuda dos bancos japoneses, que teriam encontrado na região uma grande oportunidade de prolongar sua esquizofrenia.

    Ao atribuir o crescimento exclusivamente à acumulação de fatores de produção, Krugman não ataca apenas a idéia de eficiência técnica com a qual o mundo identificou o crescimento asiático. Sua interpretação não deixa lugar para a "eficiência" das políticas industriais japonesa e coreana, ao passo que esta é colocada no centro em outras abordagens do tema. Neste sentido, a indiferença ou estímulo com os quais os governos da região trataram a volúpia de seus sistemas financeiros, nos últimos anos, seriam apenas uma manifestação adicional do "mito" sobre a Ásia.

    Contudo, pode-se argumentar que apenas parte da história está contida na versão de Krugman. Por um lado, é inegável o acerto de sua previsão quanto à exaustão relativa do crescimento. Não há também como discordar quanto à natureza da bolha especulativa asiática dos últimos anos. Por outro, a nosso juízo, há mais elementos presentes no "boom" e em seu arrefecimento a serem ressaltados.

    Tomemos a Coréia do Sul como exemplo. O que lhe deu destaque e sustentou seu desenvolvimento não foi a exportação, para o Ocidente, de vestuário, calçados ou perucas. No período de uma geração, transformou-se, de uma economia à base de fazendeiros produzindo para subsistência, no maior produtor mundial de chips de memória e de navios, tornando-se também o quinto maior fabricante de automóveis, entre outros exemplos de setores com alguma intensidade de qualificação e tecnologia.

    A Coréia cresceu a taxas médias anuais acima de 8,5% durante mais de trinta anos, para o que, desde os anos 70, foi essencial a velocidade de instalação e obtenção de competitividade em novos setores e produtos, mesmo diante de aumentos salariais. Ora, como testemunha uma vasta literatura sobre o assunto, não basta, para tanto, reunir máquinas, instalações e gente com formação educacional de caráter geral obtida nas escolas, ou seja, os fatores de produção de Krugman.

    Um rápido aprendizado tecnológico "reverso" depende do comprometimento de recursos financeiros - uma espécie de investimento em ativos intangíveis - com re-exame contínuo da engenharia de produção, monitoramento e adaptação na transferência de tecnologia, custos com tentativas e erros, treinamento e outros itens, muitos dos quais nem sequer aparecem como P&D. Não por acaso, existe ampla evidência de tal comprometimento de recursos financeiros na experiência coreana, em níveis muito acima de outras economias em desenvolvimento.

    Aliás, os principais conglomerados coreanos são originalmente pequenas empresas que cresceram sob as benesses da "irresponsável" super-alavancagem financeira, como prêmio governamental por mostrarem bom desempenho. No meio do caminho, outras aspirantes a "chaebol", com menor desempenho, foram castigadas. A hoje em dia execrada super-alavancagem financeira coreana, com o sistema de prêmios e castigos lá embutido em sua era virtuosa, é parte essencial da história.

    A inflexão de crescimento estava colocada em dois fatores. Primeiro, a crescente complexidade dos novos segmentos produtivos a incorporar. Segundo, do lado da demanda, a impossibilidade de continuar ocupando mercados ocidentais, indefinidamente, ao ritmo precedente.

    Acreditar em milagres não é um princípio salutar para pensar políticas econômicas. Mas a desmitificação asiática no bojo da atual crise não deve nos fazer esquecer boas lições. Entre elas, a de que importa muito a qualidade, tanto do que produz uma economia, quanto da política industrial que lhe dá suporte.