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    Formas Híbridas de Coordenação na Distribuição de Frutas , Legumes e Verduras no Brasil
    Autores: Walter Belik e Nuria Abrahão Chaim

    Resumo

    A crescente atuação da Grande Distribuição na comercialização de hortifrutícolas tem provocado uma reestruturação no fluxo de abastecimento destes produtos. O suprimento de frutas, legumes e verduras destas empresas, que era feito principalmente por meio das Centrais de Abastecimento (Ceagesp e Ceasas), hoje tem se deslocado aos fornecedores de produtos agrícolas, entre os quais se colocam os produtores e os novos distribuidores, agentes adaptados aos volumes de operação e às exigências comerciais e logísticas destas estruturas varejistas. Este cenário tem levado ao desenvolvimento de um novo canal de circulação de produtos agrícolas e de novos agentes participantes, ao mesmo tempo em que provoca o enfraquecimento dos sistemas tradicionais de abastecimento.

    Palavras-chave: Distribuição de Alimentos, Supermercados, Logística

    Introdução

    Novas relações estão surgindo no setor de FLV - Frutas, Legumes e Verduras no Brasil. Seguindo uma tendência imposta pelo poder de mercado da Grande Distribuição (hipermercados, refeições coletivas, fast-food etc.), o produtor vem alterando a sua forma de produzir e comercializar hortifruti, atentando cada vez mais para as questões ligadas à qualidade e à segmentação de produto. Apoiados pela informática e telecomunicações, os agentes estão substituindo cada vez mais o papel dos mercados atacadistas nas negociações. Atualmente, podemos destacar a predominância das Centrais de Compra nas negociações relativas ao preço e das Centrais de Distribuição na função logística, aproximando os produtores dos ponto-de-venda dentro dos requisitos impostos pela rapidez na reposição dos produtos na área de vendas e mínima perda.

    O presente artigo analisa as características deste novo sistema de distribuição de FLV, ressaltando os seus impactos junto à produção agrícola. O objetivo é apresentar de forma sucinta as principais práticas que estão se impondo neste setor, discutindo o espaço de manobra disponível para as políticas públicas de apoio à produção. Não há dúvida de que, diante do maior poder de mercado imposto pelo elo da distribuição, o produtor de FLV deveria estar melhor preparado e organizado, visando a sua permanência no mercado.

    O texto se divide em quatro partes seguindo uma sequência lógica. Primeiramente analisamos o funcionamento dos mercados atacadistas e varejistas de FLV destacando a sua evolução histórica. A seguir temos uma breve discussão dos principais elementos da Economia dos Custos de Transação possuem um elevado poder de explicação na análise do nosso problema. Estes elementos serão retomados no estudo dos Centrais de Compra e Centrais de Distribuição e destacados também na apresentação das evidências empíricas recolhidas junto a grande Distribuição. Finalmente apresentamos algumas conclusões sobre o assunto.

    Características da Operação

    No passado recente, a maior parte dos produtos hortifrigranjeiros era comercializada em feiras-livres. A cadeia produtiva destes alimentos era composta de inúmeras etapas refletindo a precariedade dos sistemas de abastecimento e a falta de planejamento das nossas cidades. O agravamento da situação de carestia, que era potencializada pela massa populacional que se aglomerava nas cidades, induziu o Estado a procurar organizar minimamente os circuitos de abastecimento de produtos frescos.

    Dado o nível de renda da sociedade e o baixo apelo ao consumo, a dieta alimentar era composta de produtos "in natura" ou semi-processados, que eram adquiridos em equipamentos especializados como quitandas, mercearias e feiras-livres. Até o final dos anos 60 a presença da mulher no mercado de trabalho ainda era reduzida2. O orçamento familiar era mantido basicamente pelo homem, que podia sustentar a sua família com o salário. A presença da dona-de-casa na administração das compras do dia-a-dia era a garantia de continuidade do processo baseado em formas tradicionais de comercialização. Ao contrário do que se pensa, não foi o advento dos modernos eletrodomésticos que libertou a mulher mas, ao contrário, foi a necessidade de uma nova fonte de renda que empurrou a mulher para o mercado de trabalho, abrindo a possibilidade de venda de eletrodomésticos (Goodman & Redclift, 1990).

    Os anos 60 foram marcados pelo crescimento do auto-serviço no abastecimento de gêneros alimentícios. As primeiras cadeias de supermercados surgiram nos anos 30 nos Estados Unidos, mas só foram introduzidas no Brasil em 1955 (Belik, 1996). Problemas como uma legislação trabalhista inadequada e um regime fiscal penalizador retardaram a expansão dos supermercados até meados da década seguinte. Curiosamente, é justamente nesta época que se reproduzem nas grandes cidades brasileiras as mesmas condições econômicas e institucionais vigentes na fase de implantação dos "cheapies"(supermercados barateiros) nos Estados Unidos.

    Em primeiro lugar, passamos a conviver com o crescimento exponencial das metrópoles e a invasão dos automóveis. Em seguida, podemos destacar a maior presença da mulher no mercado de trabalho e a adoção de hábitos de consumo alimentar favorecendo a utilização de alimentos semi-prontos. Finalmente, em função do rápido crescimento das taxas de inflação, temos a busca de parte do consumidor por preços de alimentos mais reduzidos. Este conjunto de elementos guardava uma certa similaridade com o ambiente econômico provocado pela recessão dos anos 30 e pelo crescimento das cidades norte-americanas.

    A princípio, a venda de FLV em supermercados era vista apenas como um importante elemento estratégico para atração do consumidor ao ponto-de-venda. As margens na comercialização destes produtos eram consideradas baixas mas os mesmos representavam um importante elemento de fixação de um novo hábito de compra. Dado que os produtos de FLV não poderiam faltar nas lojas e que o seu custo deveria ser o mais baixo possível, muitas experiências foram realizadas no sentido de se obter uma integração direta com a produção. Já na década de 70, alguns supermercados brasileiros mantinham fazendas produtoras de verduras e legumes, sendo que algumas chegaram até mesmo a criar frangos e ovos. Com o fim de complementar estes sistemas de produção integrados, a solução era realizar diariamente compras nas principais Ceasas - Centrais de Abastecimento mantendo, para tanto, instalações atacadistas nestes entrepostos.

    O crescimento do consumo de alimentos frescos e a busca por produtos de melhor qualidade forçaram a que os supermercados dedicassem um maior espaço de venda para a comercialização destes produtos. Segundo pesquisa recente, uma loja de supermercado de tamanho médio reserva 10,5% da sua área de venda para a seção de hortifrutis, o que contribui com 7,5% do seu faturamento anual e 7,9% da sua margem bruta3. Esta proporção é muito próxima do que se encontra na França onde a contribuição destes produtos no faturamento é de 4% a 6% para os hipermercados e 10% a 12% para os supermercados4.

    Todos estes elementos levam a destacar a importância da distribuição integrada na cadeia de FLV. A análise dos esquemas de integração, em um segmento onde a rotatividade é elevada e os requisitos de qualidade são cada vez maiores, deverá ser feita utilizando a abordagem teórica da Economia dos Custos de Transação.

    Considerações Teóricas

    Williamson (1985) definiu nos anos 70 aquelas que seriam as características de uma transação estabelecida em um determinado período e espaço geográfico. Os custos de transação seriam determinados pela incerteza envolvida na transação, a freqüência das operações realizadas e, por último, o grau de especificidade dos ativos envolvidos. Parece fácil entender que esta última característica tem um peso predominante quando comparada com as demais pois, à medida que crescem as características específicas do produto, crescem também os custos de informação de mercado, adaptação e transporte destes produtos. A especificidade pode ser definida de várias formas, mas o que nos interessa mais de perto neste caso é o fato de que existem problemas de perecibilidade e também elementos ligados à qualidade do produto, que interferem diretamente nos seus preços e na dinâmica da cadeia.

    Diante destas características do produto analisado, certas estruturas de governança podem minimizar custos de transação. Em uma estrutura de mercado do tipo "spot" os custos de monitoração do sistema podem tornar dispendiosas certas operações. Isto faz com que, à medida em que o grau de especificidade do produto se eleve, seja necessário introduzir outras formas de relacionamento, entre fornecedores e compradores. Situadas no meio do caminho entre o mercado puro e a integração vertical, existem formas híbridas de relacionamento definidas a partir da colaboração entre agentes. Ménard (1997) recorda que uma elevação no grau de especificidade do produto e maior freqüência criam uma dependência bilateral entre compradores e vendedores, o que leva a formas de integração baseadas em arranjos contratuais de longo prazo.

    Considerando-se que os arranjos contratuais não poderão cobrir todas as possibilidades colocadas pelo oportunismo dos agentes, surge a importância da análise das instituições como balizadoras e asseguradoras dos compromissos econômicos. Da mesma maneira, procurando sair da camisa-de-força imposta pela análise estática estabelecida por um determinado perfil tecnológico e por condições locais da produção, acrescenta-se às características do produto os elementos ligados ao peso dos agentes envolvidos na transação. Isto porque a Economia dos Custos de Transação ainda nos diz pouco sobre o ambiente que leva a um ou outro arranjo contratual (Storper, 1997), ou seja, o comportamento coletivo não se traduz pela soma das decisões individuais estabelecidas à luz das características dos produtos transacionados. Pelo contrário, este é influenciado diretamente pelo poder de mercado destes agentes e pela sua capacidade de impor relações (contratuais ou não) que os favoreça.

    Essas considerações nos permitem observar que na cadeia de produção de FLV o crescimento do pder de mercado e a capacidade de articulação de Grande Distribuição tem sido fundamentais. Evidentemente a comercialização de FLV sempre se pautou pelos requisitos ligados à qualidade com uma alta frequência de relacionamento entre fornecedores e distribuidores e uma grande suscetibilidade aos extremos proporcionados pelo clima. O que é novo no atual contexto é o aumento no grau de diferenciação dos produtos com a incorporação de novos requisitos de qualidade e ao mesmo tempo, a magnificação de escala de distribuição.

    Diante dessas novas condições, a introdução de inovações organizacionais e logísticas associadas ao enorme poder de mercado, exercício de Grande Distribuição têm provocado uma grande mudança no mercado de FLV. A abordagem da Economia dos Custos de Transação nos ajuda a entender a direção dessas mudanças ao apontar para uma redução gradativa das práticas de mercado "spot" no relacionamento entre produtores e distribuidores.

    Novas Tecnologias na Distribuição de Alimentos

    Na busca por uma maior eficiência e um maior controle sobre os bens comercializados, a distribuição passou a fazer uso de técnicas consagradas pela economia industrial. A emergência das centrais de compra e distribuição nos países desenvolvidos está ligada diretamente à aplicação de técnicas de estoque mínimo e produção flexível adotadas na indústria já nos anos 60 (Ohno, 1989). O sucesso destas novas técnicas na logística e distribuição de mercadorias incentivou o seu aperfeiçoamento para sua adaptação a situações extremas, como é o caso de alimentos frescos com alta perecibilidade. No Brasil, a introdução do sistema de CC - Centrais de Compras e CD - Centrais de Distribuição, vem se processando desde meados dos anos 80, substituindo gradativamente os sistemas de integração com fornecedores ou mesmo o obsoleto sistema de compras nos entrepostos montados pelo governo.

    A questão que se coloca para o mercado de hortifrutis atualmente é de como produzir pequenas quantidades sem "standardização" e com alta produtividade? O caminho seguido é o mesmo perseguido pela indústria: especialização de funções com conhecimento do processo em seus aspectos globais. Para tanto, as operações envolvidas no processo de compra, que antes eram um todo uniforme, têm sido repartidas em atividades específicas. Tradicionalmente o provimento de FLV para o varejo continha simultaneamente pelo menos três funções: informação comercial, negociação e logística. Ou seja, o comprador obtinha informações quanto aos preços e características da mercadoria. Em seguida, se estabeleciam as negociações com o pagamento ou a troca de compromissos isolados e, finalmente, se transportava o produto para o equipamento de venda.

    Com as exigências impostas pela flexibilidade e qualidade há uma busca de maior eficiência e necessidade de se estabelecer vínculos mais duradouros com os fornecedores, ou seja, na medida em que aumentam a especificidade do produto comercializado e a freqüência das transações, a relação entre os agentes vai transitar de formas de livre mercado para algum tipo de integração.

    Neste sentido, a função de compra e negociação é transferida para uma CC - Central de Compras. Num único espaço se realizam transações virtuais para uma grande empresa varejista ou para diversos varejistas independentes de um mesmo ramo, sob sistema de "pool", condomínio ou mesmo cooperativa. O objetivo da práticas de compras em conjunto é o de exercer poder de compra proporcionado pelo aumento da escala.

    A classificação de produtos e o peso de uma instituição (formal ou informal) reguladora no controle das características pré-estabelecidas para cada transação é fundamental para o bom funcionamento de uma CC. A existência de contratos possibilita a reposição imediata dos produtos no momento em que estes saem das prateleiras, ou seja, tão logo os recursos de informática emitam uma ordem de compra. Este procedimento, utilizado no sistema Toyota para a indústria, é conhecido como "auto-ativação da produção" e foi aplicado diretamente ao caso da distribuição.

    Como recorda Green(1998a: 33), no comércio moderno, os contratos tendem a se multiplicar de forma crescente. Entre os contratos, que são a base do sistema de intercâmbio, estão os de habilitação (garante o acesso de provedores à CC) e afiliação (entre os pontos de venda e a CC). Estes contratos diferem radicalmente dos velhos contratos de venda que tratam de transações determinadas, sem estabelecer previamente o preço ou os volumes, mas também podem ser complementares a estes.

    A aplicação de técnicas de aprovisionamento como o chamado ECR - "Efficient Consumer Response", que se utiliza de ferramentas como a troca eletrônica de dados para implementar um fluxo contínuo de fornecimento na Grande Distribuição, é a base para o funcionamento destas novas redes de fornecedores. Muito embora o ECR esteja se disseminando muito rapidamente entre as empresas - supermercadistas e outras a sua utilização para Frutas, Verduras e Legumes ainda está no início no Brasil . Devido aos problemas de classificação e embalagem, a maior parte da venda de produtos destas categorias se dá sem a troca eletrônica de pedidos .

    Green; Vaz & Schaller (1997) estudaram as principais formas contratuais utilizadas nas relações entre provedores e varejistas na Europa. Ao contrário do antigo mercado "spot" onde as relações eram absolutamente fortuitas, o que caracteriza esta nova fase é a solidariedade entre os agentes produtivos. Um primeiro tipo de contrato está baseado em um sistema simples de entregas programadas, cuja duração é de curto prazo e envolve a produção de itens específicos. Em contratos de mais curto prazo envolvendo produtos industriais, a logística se desenvolve preferencialmente por meio de "entregas programadas"5 e o fluxo das mercadorias corre direto do produtor ao equipamento de venda a partir de condições comerciais pré-determinadas. No entanto, quando as características do produto e da negociação permitem, o período dos acordos pode ser estendido por um tempo maior. Neste caso, os acertos quanto aos preços são feitos ao longo do período, obedecendo uma tendência previamente programada e um nível de qualidade pré-estabelecido. Esta relação está embasada em uma espécie de contrato aberto, assim denominado "Contrato de Referência" na França6.

    Em substituição às funções de troca física de mercadorias, que denominamos de logística, os sistemas flexíveis trabalham com CDs - Centrais de Distribuição. As CDs têm como elemento comum a sua localização e seu "lay-out". Estas instalações normalmente se situam nas cercanias das metrópoles, atendendo a vários equipamentos varejistas localizados na região. O "lay-out" de uma CD acompanha o desenho de uma fábrica montada sob algumas linhas de produção. Neste espaço, a carga é desmontada, processada (limpeza, embalagem e etiquetagem) e remontada, segundo as necessidades impostas pela demanda, aferida diariamente em cada um dos pontos-de-venda.

    A nova carga, repartida em caminhões leves, atinge os pontos-de-venda com maior rapidez e já vem arrumada e pronta para ser depositada na área de vendas. Os ganhos logísticos na operação são evidentes, mas o impacto maior está no frescor e na maior durabilidade dos alimentos na área de vendas, o que permite reduzir o desperdício e também obter melhores preços junto ao consumidor.

    As vantagens com a instituição do sistema de CCs e CDs para a Grande Distribuição são a redução acentuada dos custos de distribuição e estocagem, além da maior flexibilidade para a prática da segmentação e diferenciação de produto. Já pelo lado do produtor, a coordenação da cadeia imposta pela Grande Distribuição leva à necessidade de maior produtividade, regularidade e pontualidade na entrega, o que faz com que os produtores menos capacitados, ou aqueles que não possam fornecer grandes quantidades com regularidade e qualidade, acabem saindo deste mercado.

    Como vimos, a separação de cada uma das funções envolvidas na transação comercial permite um ganho de eficiência para o comprador, deixando para trás os velhos esquemas de comercialização com base no atacado. Nesta forma de relacionamento, "a empresa de distribuição substitui em parte os mecanismos de mercado na tarefa de coordenar as atividades econômicas promovendo uma repartição ótima de recursos, associando-se em forma mais ou menos contratual com seus provedores...." (Green, 1998b: 14). Observa-se portanto que a Grande Distribuição impõe uma governança muito diferente daquela estabelecida pela via do mercado. Enquanto a modalidade de compra através do mercado "spot" estabelecia tacitamente um contrato instantâneo, de troca imediata, sem identidade e sem dependência, os contratos de referência são formas híbridas de relacionamento impostas pelo poder de compra da Grande Distribuição junto aos seus fornecedores.

    Na Europa, este sistema está mais avançado na França em que, em média, 87% dos produtos alimentares passam pelos CDs (Paché, 1998). Segundo estimativas de Lanini (1998:75), houve uma diminuição da ordem de 30% no custo logístico de movimentação e distribuição de mercadorias na Europa entre 1987 e 1992 . Esta redução demonstra que há espaço para o estabelecimento da logística como atividade independente. No Brasil, este sistema tem avançado rapidamente, embora ainda seja uma novidade. As maiores redes de supermercados já trabalham com CCs e CDs, mas a utilização de ECR ainda é restrita para o caso dos alimentos "in natura". São vários os aspectos decorrentes deste novo paradigma na comercialização de hortifrutigranjeiros. Observa-se impactos importantes desde a produção agrícola até nos hábitos de compra do consumidor. Surgem também novos agentes na cadeia produtiva como é o caso das empresas encarregadas da logística.

    Evidências Empíricas

    Em entrevistas realizadas em empresas supermercadistas foi possível identificar formas organizacionais inovadoras quanto ao sistema de compras de frutas, legumes e verduras, que se enquadram na discussão apresentada anteriormente. Vamos apresentar quatro casos dentre os diversos analisados que representam bem este novo paradigma na distribuição de alimentos.

    Entre as estruturas que se apresentam, podemos destacar primeiramente as empresas Cooperhodia e Comercial Gentil Moreira, a primeira ocupava o 13º lugar na classificação nacional, com faturamento de 467,4 milhões de reais em 1997, e a segunda, com faturamento de 315,5 milhões de reais em 1997, a 17a posição na classificação nacional7.

    O serviço de aprovisionamento de hortifrutícolas em tais supermercados é feito por uma empresa distribuidora que opera uma CC e uma CD. Neste sistema, esta empresa é responsável pela aquisição e distribuição de FLV às lojas dos supermercados que contrataram seus serviços. Faz parte de suas atribuições a negociação com os fornecedores de produtos agrícolas (que são em sua maioria produtores rurais, apenas no caso de frutas importadas as compras são estabelecidas com atacadistas), cuja relação tem como base contratos informais de fornecimento, ou ainda contratos de referência, em que são estabelecidos os padrões de qualidade do produto e da embalagem desejados.

    Na dinâmica desta estrutura, a empresa distribuidora assume várias atividades na função de compra do supermercado, que compreende a aquisição de FLV, o transporte até as lojas e colocação dos produtos nas gôndolas. Além disso, vale ressaltar que, no caso da Cooperhodia, os próprios funcionários do setor de FLV das lojas são da distribuidora, e são encarregados de fazer os pedidos e conferir a qualidade dos produtos na entrega. É como se o supermercado "alugasse" o espaço para a venda de hortifrutícolas.

    A negociação entre a Central de Compras da empresa supermercadista e a distribuidora envolve questões de qualidade e também de preço. A fixação tanto da margem de comercialização quanto do preço final ao consumidor é pré-estabelecida, e este último tem como referência o preço dos supermercados concorrentes nas proximidades.

    Este é um dos sistemas mais inovadores entre as empresas entrevistadas (ver Chaim,1999). Nesta estrutura de compra, a empresa supermercadista não se relaciona com os fornecedores de produtos agrícolas, mas "contrata" (o contrato não é formal) o serviço de uma empresa especializada na compra e distribuição de frutas, legumes e verduras ao comércio varejista. As quantidades adquiridas são fixadas diariamente segundo a demanda aferida em cada uma das lojas das redes, e a mercadoria chega aos respectivos pontos-de-venda em aproximadamente 18 horas.

    A possibilidade de atribuir a atividade de compra de produtos agrícolas a uma empresa especializada pode se tornar uma alternativa cada vez mais viável. Principalmente considerando que a compra de FLV tem uma dinâmica própria, completamente diferente dos demais produtos alimentícios industrializados e é complexa e arriscada. Todo o esforço, investimento em capital fixo e humano necessários talvez não sejam mais eficientes do que a atuação de uma empresa especializada.

    Este tipo de organização das empresas Gentil Moreira e Cooperativa do Grupo Rhodia é uma iniciativa pouco comum à realidade brasileira, mas que tem mostrado seu potencial de crescimento, basta mencionar a possibilidade de duplicação das atividades da distribuidora que atualmente atende à Cooperhodia no corrente ano.

    Um outro tipo de organização é aquele observado nas duas maiores empresas supermercadistas no Brasil. Nestes casos, houve um investimento para a construção de uma estrutura de abastecimento própria, a Plataforma de Distribuição assim denominada no caso do Carrefour, e o Depósito da Central de Compras, denominação para o caso do Pão de Açúcar. Para este último, vice líder do setor, com faturamento de 3,6 bilhões de reais em 1997, a compra de hortifrutícolas é centralizada e a especialização da função de compras foi acompanhada da construção de uma estrutura própria de abastecimento de frutas, legumes e verduras aos supermercados da empresa. A empresa possui uma Central de Compras próxima a São Paulo, nesta são negociados os preços, as condições de entrega e estipulado o padrão de qualidade do produto e da embalagem. A entrega dos produtos é feita pelos fornecedores principalmente ao Depósito da Central, que fica ao lado da Central, ou diretamente às lojas. Já a frota para o transporte dos produtos do Depósito para as lojas é da Companhia Brasileira de Distribuição. ("Holding"do Grupo Pão de Açúcar)

    A Central recebe o pedido das lojas diariamente, e assim programa o abastecimento destas. As aquisições são feitas principalmente de produtores agrícolas, apenas a complementação é feita pela comercialização com atacadistas. As compras são realizadas pela Central, porém, são permitidas compras descentralizadas, desde que se respeite o preço negociado e o padrão de qualidade estipulado pela Central. Estas atividades de compra descentralizadas, entretanto, são minoria e ocorrem principalmente em lojas muito distantes da Central.

    Nesta empresa, a ligação entre fornecedor e supermercado é mais facilmente percebida. Existe uma preocupação explícita em desenvolver melhores padrões de qualidade para os hortifrutis vendidos nas lojas. A busca por produtos com uma boa aparência, com embalagens mais higiênicas e mais atraentes ao consumidor final são questões que se colocam na negociação de vários produtos. Apesar disso, ficou claro através de entrevistas que é praticamente impossível fazer um contrato formal de fornecimento, já que a produção é muito instável. Sendo assim, entre o fornecedor e a empresa são desenvolvidos apenas acordos informais ou de referência. A única relação formal ocorre para determinar as condições de pagamento.

    A empresa Carrefour, primeira colocada do setor, com faturamento com 5,5 bilhões de reais em 1997, apresenta a mesma estrutura de compra que a anterior. O Carrefour possui uma Plataforma de Distribuição em Osasco, em São Paulo/capital e outra em Uberlândia (MG). É a Plataforma que faz o contato e o cadastramento do fornecedor, negocia o preço (com base nos preços da Ceagesp e dos supermercados concorrentes), as condições de entrega, as bases do pagamento e estipula o padrão de qualidade do produto e da embalagem.

    Neste esquema de funcionamento cada loja manda à Plataforma sua programação para a semana, assim tem início o processo de negociação e compra dos produtos pedidos8, a ser realizado pela Plataforma. No Carrefour, a preocupação com a qualidade também é visível e atinge até mesmo pequenos detalhes como é o caso de mandiocas com tamanho padronizado e embaladas em pequenas caixas de papelão, pimentões e pepinos também em caixas de papelão, todos entregues desta maneira pelo fornecedor. Assim como na Companhia Brasileira de Distribuição, não existe qualquer contrato formal que garanta o fornecimento de tais produtos, a informalidade é o que prevalece e sustenta a relação híbrida.

    Como dissemos, apesar do desenvolvimento destas novas estruturas em empresas de grande inserção no mercado varejista nacional, gerando impactos em toda a cadeia agroalimentar, este é um movimento ainda incipiente dentro da complexa realidade brasileira. A forma tradicional de comercialização ainda se faz presente nas empresas varejistas (não apenas supermercados), e mesmo nas empresas que têm investido em formas alternativas de suprimento de FLV (como no caso das empresas descritas, que ainda utilizam o Ceagesp e Ceasas para as compras emergenciais).

    Desta maneira, deve-se destacar que esta é uma tendência em consolidação que vem ampliando a sua influência para as áreas de fast-food e refeição coletiva. Já existem pequenas CC e CD para outras redes supermercadistas de menor expressão, assim como ligadas a restaurantes centrais que realizam o primeiro processamento para cadeias de alimentação. Estes novos movimentos abrem espaço para a atuação de outros agentes, entre os quais o poder público, que pode atuar principalmente como implementador e coordenador de programas de padronização de hortifrutícolas, a fim de que mais produtores tenham condições de inserção neste novo paradigma para a distribuição de FLV.

    Conclusões

    Novas formas de coordenação das atividades entre a fonte produtora de hortifrutícolas e a Grande Distribuição têm se desenvolvido no Brasil, nos últimos anos. A busca por qualidade e eficiência e a ausência de formas de regulação por parte do Estado fez com que o elo da distribuição assumisse cada vez mais o encargo de chamar para si a responsabilidade de desenvolver novos sistemas de aprovisionamento de FLV.

    O presente artigo analisou dois casos em que a atividade logística da distribuição se descolou da atividade comercial em si, constituindo-se um negócio à parte. Em outros dois casos, grandes redes de supermercados passaram a exercer diretamente o seu poder de mercado "desenvolvendo fornecedores" e coordenando o fluxo de produtos para as suas lojas. Neste última situação, as empresas assumiram diretamente as atividades de informação de mercado, compra e logística, que eram totalmente desempenhadas, no passado, pelas Centrais de Abastecimento montadas pelo Estado.

    Verificou-se em todos os casos que com o avanço da tecnologia e dos requisitos de qualidade estão surgindo formas híbridas de relacionamento entre produtores e distribuidores, situando-se entre as velhas práticas do livre mercado e da integração entre empresas.

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