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    Idéias, Instituições e Interesses
    Após as Crises do México e da Tailândia, FMI e Banco Mundial Parecem Buscar Eixos Divergentes de Orientação
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
    Publicado pelo Estado de São Paulo em 7 de outubro de 1997

    É óbvio que idéias, instituições e interesses mudam. Mas suas recombinações às vezes se revelam surpreendentes.

    Poucas semanas atrás, os economistas do governo estavam deblaterando contra as menções feitas pelo FMI quanto aos aspectos frágeis da macroeconomia brasileira. Ao mesmo tempo, o noticiário mencionava elogios ao FMI por parte de João Pedro Stédile, do Movimento dos Sem-Terra. Quem em sã consciência poderia imaginar isso até então?

    O próprio FMI está em busca de seu eixo. Foi para seu encontro anual com o Banco Mundial, em Hong Kong, sob acusação de não estar cumprindo adequadamente suas funções de monitoria geral do sistema financeiro internacional, não tendo devidamente se antecipado às crises mexicana e tailandesa. Durante o encontro, as duas instituições se depararam com Milton Friedman defendendo sua extinção!

    A crise tailandesa disseminou-se a partir de junho para as economias emergentes vizinhas, instalando-se desde então uma verdadeira montanha russa nos mercados de ações e de câmbio da região. As emoções asiáticas, acrescentando-se às mexicanas de menos de três anos atrás, tornaram impossível a complacência diante da volatilidade de grande parcela dos fluxos de capitais para as economias emergentes.

    As respostas a posteriori às crises do México e da Ásia foram de âmbito regional, com o FMI exercendo um papel coadjuvante em ambas. Embora não de modo tão substantivo como procederam os Estados Unidos diante da crise mexicana, também vem sendo exercida uma parcial coordenação entre os bancos centrais asiáticos. O Japão já propôs a constituição de um fundo regional de suporte a economias com dificuldades, podendo este fundo vir a alcançar o montante de US$ 100 bilhões.

    Em Hong Kong, o FMI reagiu conclamando um aumento de suas responsabilidades e de seu capital disponível. Devidamente municiado, entraria em campo supervisionando a remoção de controles de capital ainda existentes e evitaria o recurso a controles por parte de economias às voltas com dificuldades de liquidez externa. Seria o antídoto multilateral em relação a uma espécie de regulação internacional regionalizada que se insinua no caso das finanças, com estas acompanhando as tendências já firmadas de regionalização do comércio.

    A plataforma de preservação da liberdade absoluta de movimento de capitais está em sintonia com a agenda externa dos Estados Unidos, a julgar por uma declaração de Lawrence Summers, ex-Economista Principal do Banco Mundial e hoje Secretário do Tesouro daquele país. "A liberalização financeira, doméstica e internacionalmente, constitui hoje uma parte central da agenda dos Estados Unidos", disse aquele economista, segundo a revista The Economist.

    A dança de idéias e interesses é deveras surpreendente. Em 1993, Summers escreveu, em co-autoria com Gerard Caprio, um economista do Banco Mundial, um artigo onde diziam: "assim como no caso das usinas de energia nuclear, a livre entrada não é algo sensato na atividade bancária".

    Por seu turno, o atual Economista Principal do Banco Mundial e ex-Conselheiro Principal de Economia de Bill Clinton, Joseph Stiglitz, construiu uma profusa e respeitada carreira acadêmica na qual sempre abordou a presença de imperfeições nos mercados, inclusive nos financeiros. Stiglitz é um dos poucos economistas que, hoje em dia, ainda têm chances de ganhar um prêmio Nobel, a despeito de sua agenda de estudos privilegiar as "falhas de mercado".

    A ida de Stiglitz ao Banco Mundial parece ter, até agora, significado uma convergência de fato entre idéias e instituição. O último relatório do Banco contém, em relação aos anteriores, um tom de menor "mercadolatria", sem cair em uma "estatolatria", para usar as expressões do Deputado Delfim Netto. Em Hong Kong, o Banco declarou uma opção pelos pobres e pelas políticas sociais!

    Independentemente de instituições multilaterais e Hong Kong, as economias emergentes estão mais atentas à instabilidade dos fluxos de curto prazo, depois que o México e a Tailândia provaram o gosto da vulnerabilidade diante de capitais voláteis. Se há sempre menções às óbvias dificuldades de aplicação de controles de capital nos marcos de economias integradas ao exterior, por outro lado é lembrado o exemplo do Chile e de suas restrições de quarentena e outras aos fluxos de capital de curto prazo. Parece declinante a crença de que posições fiscais saudáveis bastam para assegurar a estabilidade do ingresso de capital externo, qualquer que seja a composição deste último.

    Voltando a Summers e Stiglitz, há entre outras uma idéia abordada em seus trabalhos acadêmicos anteriores - presente na citação do primeiro acima - que será provavelmente recordada por instituições e interesses. Ambos lidaram em termos teóricos com a possibilidade de "excesso de concorrência" no sistema bancário. Quando premidos por concorrência pesada dentro do próprio setor ou de outros agentes financeiros, os bancos podem assumir posições de riscos além do recomendável, visto que maior prudência significa perda de mercado e baixos lucros em tais condições.

    A partir da desregulamentação financeira nas economias avançadas nos anos 80, à qual se seguiu uma diluição relativa de fronteiras entre os mercados e os tipos de agentes financeiros, o assunto despertou muita atenção. Por estas paradas tropicais, não será surpreendente a emergência local da idéia daqueles autores, diante da onda esperada de ingresso de bancos estrangeiros.