Negócios em Família
Abertura Econômica ao Exterior Exige Mudanças de Gestão nos Grupos Econômicos Nacionais
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Industrial
Publicado pelo Estado de São Paulo em 29 de setembro de 1997
O Banco Boavista mudou de mãos há alguns dias. Foi incorporado pelo Banco InterAtlântico, uma sociedade entre os Grupos Monteiro Aranha, do Brasil, e Espírito Santo, de Portugal.
Seu preço? 1 real! Diante de um crescente buraco de caixa do Boavista, ameaçando provocar turbulência no sistema financeiro com sua iminente queda, o Banco Central exigiu e conseguiu rapidez na transferência de propriedade.
Além de constituir mais uma mudança recente no cenário do sistema financeiro nacional, o episódio teve um outro lado que atraiu a atenção do grande público. Tratou-se de mais uma grande perda patrimonial da família Guinle de Paula Machado, fundadora do Boavista em 1924.
A família construiu e operou por várias décadas o Porto de Santos, descobriu petróleo na Bahia, construiu a Companhia Siderúrgica Nacional, além do Copacabana Palace Hotel, do Palácio das Laranjeiras e outras peças importantes da história econômica e social do país. Seu nome incorporou-se à memória popular como um dos ícones do sucesso capitalista familiar nacional, enquanto seus membros encarnavam a versão brasileira dos bons vivants.
Independentemente da história patrimonial familiar, inclusive do Boavista, há algo de cunho mais geral no episódio. Boa parte dos grupos econômicos nacionais ainda guarda uma estrutura familiar no controle (propriedade) e na gestão. Esta herança deverá ser reavaliada em muitos grupos, sob pena de amargarem estagnação - ou mesmo decadência - se assim não procederem.
Comparados a seus congêneres em outras economias de porte semelhante, os grupos brasileiros são diminutos - mesmo se excluírmos do cotejo os famosos conglomerados coreanos. Além de relativamente pequenos em faturamento, em muitos casos detêm um forte caráter patrimonialista, manifestando-se isso inclusive na freqüente ausência de ligações e sinergia entre seus investimentos.
A outra face do caráter familiar e do tamanho reduzido dos grupos é justamente seu baixo nível de alavancagem externa. Até hoje ainda persiste uma resistência à abertura acionária ou à captação de recursos via endividamento - a não ser para cobrir buracos já abertos. Não foi por acaso que, ao cabo das últimas décadas de desenvolvimento industrial brasileiro, apresentavam relativa atrofia tanto os mercados de capitais locais, quanto as relações de longo prazo entre empresas não-bancárias e bancos pertencentes a grupos nacionais distintos.
Esses traços congênitos foram acentuados no curso das relações com o Estado durante aquelas décadas de industrialização. Este último cumpria funções nutritivas, quer como fonte de recursos, quer como escoadouro para aplicação de recursos excedentes privados através da dívida pública.
O fato é que, além daqueles nutrientes públicos estarem exauridos, a abertura comercial e financeira nos anos 90 mudou profundamente o meio ambiente dos grupos nacionais. O novo contexto concorrencial não inclui apenas as possibilidades de importação de produtos e a emergência de novos atores externos em alguns setores domésticos. Vem trazendo com ele os processos de fusão/aquisição e as alianças estratégicas entre grupos econômicos que caracterizaram a economia internacional a partir do final dos anos 70.
Nas economias avançadas, a competição acirrada e letal levou à difusão das alianças estratégicas em um número crescente de setores. Quando e enquanto avaliam de interesse mútuo, os grupos combinam suas capacidades tecnológicas, mercadológicas, financeiras ou de outra natureza. Implementam projetos de pesquisa, joint ventures para produção conjunta ou mesmo a aquisição de outras empresas. Particularmente importante tem sido o acesso a fontes de recursos, crescendo o papel dos investidores institucionais.
Não dá para jogar este jogo mantendo-se os caracteres que hoje têm alguns grupos brasileiros. Antes de tudo, para vários deste grupos, as opções estão entre investir e injetar recursos mediante fusão, abertura de capital acionário, alavancagem financeira etc., ou serem absorvidos! Porém, cada uma daquelas formas de crescimento é incompatível com controle e, particularmente, gestão familiar. Quem iria repassar recursos financeiros e tecnológicos a grupos nos quais haja ligações perigosas entre empresas e patrimônios familiares?
Não por acaso, os espaços abertos pela privatização para os grupos nacionais têm sido majoritariamente ocupados por aqueles que conseguiram articular alianças entre si, com instituições financeiras locais e com atores externos. O próprio Boavista foi absorvido por uma associação entre um grupo estrangeiro e outro nacional, tendo este último já acumulado uma larga experiência de parceria estratégica. O estilo familiar de propriedade e gestão dos negócios é tão contemporâneo quanto o cassino da Urca no Rio de Janeiro.