Clickable Image Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment




    Os Duelistas
    Euro e Dólar Entrarão em Disputa no Mercado Monetário Global
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
    Publicado pelo Estado de São Paulo em 05 de maio de 1998

    Em Bruxelas, no último fim de semana, foi sacramentada a circulação da moeda única européia - o euro - a partir de janeiro próximo. Qual será seu provável impacto sobre a configuração do sistema monetário-financeiro internacional?

    Nos atuais fluxos monetário-financeiros em escala global, 50% das exportações, 85% das transações com divisas e 62,7% das reservas cambiais estão denominados em dólares. Por outro lado, 14,1% destas reservas mundiais estão em marcos alemães e 18% nas moedas em conjunto dos 11 países que embarcaram na primeira viagem do trem (Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo e Portugal). O simples desaparecimento das transações cambiais intra-Europa fará com que, é claro, as reservas em Euro, após a conversão, constituam um percentual abaixo dos tais 18%.

    De qualquer forma, sabe-se que o peso do dólar na circulação monetário-financeira internacional é desproporcional ao tamanho da economia norte-americana, o que decorre de seu quase monopólio no papel de banqueiro mundial. Os Estados Unidos têm hoje uma renda per capita em torno de US$ 28 mil, uma população de 271 milhões e respondem por 19,6% do comércio externo e 20% do PIB do mundo. Por seu turno, a Europa dos 15 (incluindo Inglaterra, Dinamarca e Suécia, que optaram por adotar mais tarde o Euro, além da Grécia, que não se habilitou) tem 291 milhões de habitantes, renda per capita de US$ 24 mil e, mesmo quando subtraímos as transações comerciais entre os países da área, seu conjunto abarca 20,9% das trocas internacionais.

    A indagação que se coloca é, pois, em que medida o euro substituirá parcialmente o dólar - ou será por este substituído. Há quem fale até - como Fred Bergstein, diretor do Institute for International Economics de Washington - em transferências líquidas, a longo prazo, entre meio e um trilhão de dólares para o euro no total das reservas cambiais mundiais. Estimativas têm sido apresentadas de que entre 30% e 35% dos empréstimos mundiais se darão em euro no próximo ano.

    Alguns fatores favorecem naturalmente um incremento na utilização do euro. A escala maior da área monetária atuando como base da segunda divisa na economia internacional deverá induzir gestores de portfólios privados e de reservas oficiais, fora e dentro da Europa, a aumentar a presença de ativos e passivos denominados em euro em suas carteiras, buscando diversificação contra riscos. Da mesma forma, os mercados financeiros europeus obterão maior profundidade, fôlego e liquidez, o que por si só constitui fator de atração de investidores.

    Esse potencial de substituição parcial do dólar, por outro lado, vai exigir credibilidade crescente do euro para se materializar. No ano passado, por exemplo, alguns analistas chegaram a apostar que as dúvidas cercando a lista de participantes do euro, o atendimento aos critérios de Maastricht, o futuro Banco Central Europeu (BCE) etc., levariam a um significativo movimento de afastamento e desvalorização do marco alemão em favor do dólar. Neste sentido, a materialização, sem recuos, do cronograma de implantação tendeu a reforçar a confiança na nova moeda.

    Quanto mais avançar no cronograma, incluindo a plena operação do BCE em 1999, menor tende a ser a carga da incerteza. O papel do euro como âncora cambial tenderá inclusive a se firmar no Leste Europeu e na África. Poderá até vir a reduzir o poder gravitacional do dólar sobre a Ásia e a América Latina, ainda que, neste ponto, as opiniões se dividam quanto a essa possibilidade de transcender significativamente sua área de influência mais imediata.

    A credibilidade a longo prazo do euro, de qualquer modo, dependerá de mais do que a permanência dos países dentro dos limites de déficits fiscais e endividamento público acordados como critérios para a transição. Também não será suficiente uma sinalização de que o BCE adotará comportamentos não muito distintos do Bundesbank alemão. O dinamismo econômico europeu será peça-chave, particularmente face aos níveis de desemprego e às tensões que podem abater-se sobre o euro em caso de mau desempenho macroeconômico ou comercial vis-à-vis o resto-do-mundo.

    Neste sentido, alguns ganhos imediatos decorrentes do próprio euro serão de grande ajuda. No tocante às transações intra-Europa, serão eliminados riscos e custos de transação cambiais (estes últimos estimados em 0,5% do PIB da região). O cenário atual de retomada do crescimento - 3% a.a. - e de queda do desemprego, na média dos países, também é favorável.

    No duelo com o dólar por posições nas finanças globais, um dos pontos fracos do euro está em sua maior vulnerabilidade diante dos chamados "choques assimétricos", pelo menos em relação ao concorrente. Por choques assimétricos, quer-se dizer crises em pontos isolados do sistema econômico, tais como desemprego e outras conseqüências, por exemplo, de deslocamento espacial de atividades produtivas. Barreiras lingüísticas e culturais à mobilidade de mão-de-obra, assim como as diferenças em políticas sociais e trabalhistas, colocam problemas de ajustamento maiores que no caso norte-americano. Mais do que até aqui, tornar-se-á crucial a dotação orçamentária, em nível da União Européia, para transferências compensatórias, principalmente porque desaparecerão as políticas fiscal e monetária autônomas nos âmbitos locais.

    A posição relativa da moeda européia dependerá também, evidentemente, do crescimento econômico relativo da área dominada pelo dólar, incluindo aí América Latina, Ásia e os próprios Estados Unidos. De qualquer forma, ninguém duvida que ocorrerá a sucessão de duelos entre as duas moedas, em diversas frentes e momentos do início do próximo milênio.