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    ARGENTINA E INGLATERRA - Déficit Fiscal zero Poderá Aprofundar a Crise Argentina
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 07/08/2001

    O ministro Cavallo conclamou o apoio dos argentinos para a defesa diante dos ataques especulativos contra o peso. É inevitável lembrarmo-nos do primeiro ministro da Malásia, em 1997, apontando George Soros e os fundos de hedge ocidentais como responsáveis pela crise financeira e cambial asiática. Em ambos os casos, a tentativa é a de convencer o público de que nada de errado estaria ocorrendo com as economias em questão, não fosse por alguns estrangeiros manipulando mercados para ganhar dinheiro com suas moedas locais.

    Por causa da “rica” experiência de crises dos anos 90, os analistas dispõem hoje, como referência, de uma vasta tipologia – “gerações” - de ataques especulativos e subseqüentes crises cambiais. Uma das conclusões gerais é a de que, quaisquer que sejam as causas e as formas específicas dos ataques especulativos, estes só são notados e têm êxito se a vítima estiver frágil. (*)

    O primeiro ministro inglês, Tony Blair, em sua recente passagem por estas bandas, poderia ter observado ao presidente De la Rua, se assim o quisesse, as semelhanças entre a atual situação argentina e a vivida pela Inglaterra no início dos anos 90. A experiência inglesa virou um daqueles clássicos "estudos de caso".

    Em 1992, diante de altos níveis locais de desemprego, o governo inglês da época não obteve credibilidade em sua promessa de manter o patamar supervalorizado em que estava a libra esterlina, no então programado ingresso na unificação monetária européia. Os mercados apostaram contra a promessa, o que passou a exigir respostas em termos de taxas de juros elevadas e, assim, uma piora na situação macroeconômica doméstica, ou seja, nos custos políticos da teimosia do governo.

    A corda rompeu no lado mais fraco: o governo cedeu, a libra esterlina desvalorizou e George Soros, ao ganhar rios de dinheiro com o sucesso do ataque, passou a concorrer com Bill Gates na posição de ícone dos tempos modernos. De tabela, a noção de "ataques especulativos" iniciou sua trajetória das páginas de negócios para a primeira página dos jornais.

    Como na Inglaterra de então, o problema de fundo da Argentina é de competitividade e crescimento, ambos prejudicados pelo regime de câmbio ultra-rígido. Os problemas fiscais e de sustentação política do governo são conseqüência. Não por acaso, já ocorreram sete programas de ajuste fiscal nos últimos 18 meses.

    Por isso mesmo, cabe indagar qual a possibilidade da política de "déficit fiscal zero" resolver a crise argentina. Veja-se a cadeia de eventos favoráveis necessários para a promessa do ministro Cavallo: déficit fiscal zero, queda do prêmio de risco Argentina, súbito otimismo com investimentos, crescimento, aumento na arrecadação tributária e desafogo fiscal etc. Independentemente de qual seja o fôlego das medidas de recuperação da rentabilidade de investimentos produtivos delineada no "plano de competitividade" de Cavallo (flexibilização parcial do câmbio comercial, protecionismo etc.), o fato é que a tendência imediata é a de eventos desfavoráveis em decorrência do "déficit fiscal zero".

    Jorge Carrera, professor da UNLP e diretor da revista INFORME IEFE, editada pelo Instituto de Estudios Fiscales y Económicos, fez uma simulação dos efeitos do déficit fiscal zero. O corte de salários do setor público deverá exercer um efeito recessivo por duas vias: através do efeito multiplicador macroeconômico da decorrente redução de gastos em consumo e, na seqüência, pelas exigências de cortes adicionais de salários que deverão se seguir à queda de arrecadação tributária, mantendo-se a regra do déficit zero.

    Supondo-se uma redução média de 7% na folha de pagamentos do setor público consolidado, o efeito tende a ser uma queda de 3% no PIB, em termos anuais, no terceiro trimestre de 2000. Dado que, nas atuais circunstâncias, a arrecadação tributária na Argentina tende a variar em 1,35 vezes cada alteração no PIB, a redução neste imporia um ajuste adicional de mais 4% nos salários de acordo com a regra. A isto se seguiria mais uma rodada de diminuição de gastos e de PIB (1,6%) no quarto trimestre e assim por diante, conforme mostrado no gráfico ao lado. Ao final, a tendência seria de uma redução total de 14% na folha de salários públicos, em sucessivas e desgastantes rodadas de ajustes para baixo, com o PIB caindo, em termos reais, 1,5% no ano.

    Pelo visto, os mercados vão continuar vendo a Inglaterra quando olham para a Argentina.

    Coluna 1- % DE QUEDA DO PIB APÓS CADA CHOQUE DE REDUÇÃO DE GASTOS
    Coluna 2- % MÉDIO DE QUEDA NOS SALÁRIOS PÚBLICOS

    (*) Curado, M. & Canuto, O. - "Modelos de crises cambiais de terceira geração versus fatos estilizados na América Latina" (sites.uol.com.br/ocanuto )