Emoções Financeiras e Cambiais
Crise Asiática Dá Lição Sobre Vulnerabilidade das Defesas Convencionais das Economias em Desenvolvimento
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
Publicado pelo Estado de São Paulo em 29 de julho de 1997
Sem Marcelinho e sem um lateral de reserva, a torcida do Corinthians voltou a ter fortes emoções a cada jogo! Mas a taxa de câmbio e as bolsas não têm ficado atrás. A agitação no inferno cambial dos tigrinhos asiáticos - Tailândia, Malásia, Filipinas e Indonésia - e a queda nas bolsas de valores aborígenes, na semana passada, constituíram um cenário e tanto para um thriller de grande público.
No início desta semana, foi profundo o suspiro de alívio em mercados financeiros e na economia brasileira em geral. Graças em grande parte a Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (Fed), autoridade monetária dos Estados Unidos, que declarou terça-feira não ter pressa para elevar as taxas de juros em seu país. Anúncios de baixas taxas de inflação norte-americanas constituem hoje em dia um evento festivo para as economias nacionais financeiramente vulneráveis e fazem do presidente do Fed um astro de primeira grandeza.
A rigor, o episódio das bolsas brasileiras revelou-se muito mais um momento de realização de ganhos da grande alta dos últimos tempos. O mundo dos títulos é um mundo virtual, que de vez em quando precisa materializar seus ganhos e perdas no vil metal. As turbulências cambiais e financeiras asiáticas vieram em boa hora, particularmente para aqueles que têm condições de exercitar nervos de aço.
Mesmo durante a queda nas bolsas, os observadores puderam constatar alguns sinais de que não se tratava então de algum efeito de contágio da crise asiática sobre os demais mercados emergentes e o brasileiro em particular. Não só os grandes investidores locais e estrangeiros não correram em manada para a porteira apertada, como alguns fundos voltaram logo a receber recursos. Nesta semana, uma pequena alta na Bovespa veio até a compensar parte da redução passada.
Por sua vez, as taxas futuras de câmbio não sofreram pressão de alta, refletindo ausência de expectativas de mudança na política e nos patamares cambiais. As taxas futuras chegaram até a cair nos últimos dias. Ao mesmo tempo, um sinal muito importante foi a acentuada elevação nas taxas futuras de juros, indicando a expectativa de que a defesa cambial seria exercitada a qualquer custo.
Os mercados parecem também não acreditar naquele que seria um possível outro efeito proveniente da Ásia: o efeito de caixa, vale dizer, investidores internacionais com problemas de portfólio decorrentes daquela região que se veriam obrigados a cobrir necessidades de liquidez mediante realização de ativos em outras paradas, para o que outros emergentes seriam opção óbvia.
Estaríamos então diante de um final feliz? Estaria tão descolado o mega-especulador George Soros quando falou em contágio da Ásia sobre o conjunto de mercados financeiros emergentes? Ou com segundas intenções, conforme provavelmente responderia o primeiro-ministro da Malásia, Mahathir Mohamad, depois de ter mencionado Soros como o responsável pelo desencadeamento dos ataques especulativos às divisas de sua região? Talvez até em aliança com os "coveiros do Real", como foram chamados aqueles que, em maio passado, alertaram para a importância de se acompanhar, daqui do Brasil, a crise financeira e cambial da Tailândia.
Desde o estouro da crise asiática, os economistas do governo puderam esgrimir, de fato, vários argumentos em suporte à idéia de que o Brasil estaria atualmente longe, além do México de 1994, também da Tailândia e de outros emergentes asiáticos submersos em dificuldades. Os déficits em conta-corrente do balanço de pagamentos não alcançam ainda os níveis desses últimos. Além disso, há privatizações e ingressos de capital previstos para os próximos anos.
Adicionalmente, a crise asiática tende a gerar, em contraponto ao contágio e ao efeito de caixa, um efeito-substituição, ou seja, nos portfólios de investidores internacionais a região latino-americana tenderá a ser melhor avaliada em termos relativos e a roubar espaços dos candidatos a campeões de fluxos de capital de outrora. Por último, mas não menos importante, o saneamento bancário via Proer teria evitado a fragilização financeira doméstica que, por exemplo, revelou-se uma face fundamental da crise asiática. Neste sentido, os lances recentes nas bolsas e no mercado cambial futuro revelaram confiança de agentes privados nesse diagnóstico, pelo menos a curto prazo.
A questão está justamente aí. A experiência dos ex-candidatos a tigres da Ásia - e até a Coréia não está se livrando - já se constituiu em exemplo clássico da burrice do velho preceito de que "não se mexe em time que está ganhando". A mesma cobertura externa de crescentes desequilíbrios comerciais daqueles países, que foi exibida como prova da confiança no sucesso de seus modelos, mesmo depois da China ter deslocado e ocupado o espaço de mercados ocidentais para muitos produtos da região, na verdade sustentou - e depois derrubou - um castelo de cartas financeiras que se revelava crescentemente desprovido de fundamentos sólidos.
Sem fundamentos, não se pode jogar. E o que é sólido se desmancha no ar, como demonstrou a mudança asiática de paradigma de êxito para uma área à beira de um ataque de nervos. A crise asiática está dando uma lição a respeito da vulnerabilidade das defesas convencionais em relação aos riscos associados a desequilíbrios crescentes em conta-corrente. Também evidenciou que a disponibilidade de financiamento externo não é necessariamente indicador confiável de sustentabilidade a longo prazo.
Voltando a Marcelinho e o Corinthians, dá pra ver que as emoções futebolísticas e financeiro-cambiais têm paralelos. Por exemplo, o professor Wilson Cano, do Instituto de Economia da Unicamp, corintiano e contumaz crítico da política econômica, foi indagado sobre o que achava do patrocínio do Banco Excel a seu time, um banco afinal beneficiado pelo Proer. Respondeu de primeira que este era o favorável lado social do Proer. A fiel agradece.