Ataques Especulativos
Situação por que Passou a Tailândia, Recentemente, Serve de Alerta para o Brasil
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
Publicado pelo Estado de São Paulo em 23 de maio de 1997
A moeda tailandesa, o baht, esteve sob forte ataque especulativo na semana passada. Uma forte onda de vendas e depreciação do baht foi detida apenas a partir de um esforço conjunto de intervenção por vários bancos centrais desta região do mundo, além de uma oportuna suspensão local de operações nos mercados à vista e nos derivativos. O episódio deveria ter recebido maior atenção no Brasil.
A imprensa internacional foi quase unânime em apontar esta vitória tailandesa como um primeiro round de um pugilato ainda longe de ser encerrado. A despeito de uma redução no déficit em conta corrente de 8% para 7,3% do Produto Interno Bruto desde o ano passado naquele país, as autoridades monetárias têm sido obrigadas a sustentar elevadas taxas de juros para defender a moeda local. Por outro lado, essa mesma defesa de juros altos ameaça levar à lona seus setores bancário e imobiliário. A continuação de uma tendência de queda no mercado acionário local, bem como as posições assumidas no mercado futuro de câmbio, revelam que os agentes estão avaliando como baixa a guarda da economia tailandesa em relação a golpes futuros.
A experiência traz alguns pontos de reflexão relevantes para outras economias com trajetórias similares nos últimos anos. Como Malásia, Filipinas e Indonésia na Ásia e Brasil, México e Argentina na América Latina, a Tailândia faz parte do chamado grupo de economias emergentes. Trata-se de economias em desenvolvimento cujo desempenho macroeconômico recente tem se caracterizado por pesados déficits em conta corrente e um abundante ingresso de capital viabilizado mediante oferta local de substanciais rendimentos financeiros e plena liberdade de saída. A entrada deste capital tem permitido inclusive a formação de reservas externas e o uso da valorização cambial como instrumento anti-inflacionário em vários destes países.
Evidentemente, a maior ou menor fragilidade das contas externas torna diferenciados esses casos. A própria economia tailandesa corresponde, na avaliação dos analistas, a um dos elos frágeis da região nas carteiras globalizadas de investidores. Em momentos de realização de ativos, por necessidades de liquidez ou por insegurança dos investidores, os elos frágeis são os primeiros a serem escolhidos para tanto. Contudo, pelos mesmos motivos convém não supor de antemão que estamos necessariamente diante de um fato isolado, no caso tailandês, se há elementos em comum com outros países.
Há cerca de um mês, durante reunião do Fundo Monetário Internacional, ouviu-se falar dos riscos quanto ao excesso de dependência em relação aos mercados financeiros internacionais. No mesmo sentido, pode-se localizar há vários dias um certo nervosismo quanto aos rumos imediatos das taxas de juros norte-americanas no futuro próximo, cujas subidas tendem a carregar consigo os patamares mínimos de juros a serem sustentados pelas economias emergentes. Exemplo disso é a ansiedade com que - como nos capítulos de uma novela mexicana ou nos intervalos do boxe tailandês - já há vários dias vinha sendo aguardada a reunião do Comitê de Mercado Aberto do Federal Reserve desta terça-feira, dia 20 de maio.
A pronta atuação concertada de vários bancos centrais asiáticos em suporte ao baht tailandês manifestou sua avaliação quanto aos riscos de contágio na região. Estes bancos não se limitaram a intervenções defensivas em seus próprios âmbitos locais. Assim como o apoio norte-americano ao México após o nocaute cambial deste, em fins de 1994, ajudou a evitar outros colapsos na região, a tarefa de defesa do baht não foi deixada para o próprio banco central tailandês, apesar das reservas deste último alcançarem algo entre US$ 38 e 42 bilhões, em um país com um Produto Interno Bruto que não chega a um terço do brasileiro.
Daqui do Brasil, vale observar alguns pontos. Antes de tudo, chama a atenção a fragilidade da defesa tailandesa de reservas externas diante do ataque especulativo, tornando necessário o suporte externo. Da mesma forma, cabe notar o caráter limitado de uma resposta de política econômica que se limite a elevar as taxas de juros, até a onda passar! A vitória tailandesa no primeiro assalto foi acompanhada de um estado de pré-colapso em sua economia.
"O Brasil não é o México e nem a Tailândia". Por outro lado, a substituição de fluxos voláteis de capital por formas mais estáveis de financiamento externo é ainda um cenário virtual anunciado pelo governo brasileiro. Melhor agir mais rapidamente no tocante a seus déficits em conta corrente. Do contrário, terá de abdicar de suas ambições de autonomia relativa no tocante aos programas de integração regional. Ou alguém acredita que uma eventual atuação concertada de âmbito regional, diante de algum ataque especulativo, limitar-se-á a uma cooperação financeira?