O Horror Econômico
Best seller de Viviane Forrester Condena Complacência de Economistas
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia do Trabalho
Publicado pelo Estado de São Paulo em 21 de fevereiro de 1997
Eis o título de um livro publicado na França no final do ano passado: L'Horreur Economique. Ele vendeu, em poucas semanas, mais de 160 mil exemplares. Já está sendo traduzido para várias línguas e pode até virar roteiro de filme (segundo o jornal Le Monde, de 14/1). Quem o escreveu não foi George Soros, o megaespeculador ícone da globalização financeira, aquele que superou Bill Gates da Microsoft tanto como símbolo econômico deste fim de século quanto como sucesso de venda de livros. A autora é Viviane Forrester, uma artista e escritora conhecida entre os apreciadores da pintura impressionista por sua obra sobre Van Gogh!
Essa "outsider" escreveu um livro de indignação sobre o desemprego e sobre o que chama de "caráter supérfluo" para a economia adquirido por qualquer um de nós nos atuais tempos. Condena os economistas por sua complacência com o estado das artes.
Será tal livro um fenômeno circunscrito à França, o país daquela greve geral do final de 1995, que resiste contra as "reformas estruturais" na previdência e no setor público, implicando redução de rendimentos salariais? Quem sabe a primeira tradução seja para a Coréia do Sul, recém-ingressa na OCDE e nas colunas de explosão social?
O desemprego não é restrito à França. Até na Alemanha, quem diria, o primeiro-ministro Helmut Kohl andou se queixando das dificuldades de emprego que a unificação monetária européia também estaria estabelecendo para seu país. Como no caso francês, o governo alemão encontrou resistência contra suas iniciativas a respeito de flexibilização de seu sistema de proteção social, ainda que sem as proporções ou a comoção social que caracterizaram o primeiro.
A tecnologia poupadora de mão- de-obra é costumeiramente apontada como a principal vilã da história. No entanto, sabe-se que, qualquer que seja o ritmo de destruição tecnológica de emprego, tanto a criação de novos postos de trabalho quanto a multiplicação dos remanescentes poderiam minorar o problema. O requisito, porém, é o crescimento suficiente das economias. A experiência de combinar automação industrial com pleno emprego durante os 25 anos dourados após a 2ª Guerra Mundial, pelos países avançados, é um testemunho dessa possibilidade.
Também não se pode culpar os exportadores asiáticos, nem mesmo a China e seus superávits comerciais. As proporções no comércio e o tipo de produtos importados não permitem tal simplificação. Aliás, as cifras de comércio exterior não são desfavoráveis para a União Européia como um todo.
Ainda sobre o suposto âmbito restrito do "horror econômico": seria um problema típico do velho continente e sua "eurosclerose"? Uma esquizofrênica incapacidade de aceitar que terá de se nivelar por baixo, em termos do mundo do trabalho, ao resto do mundo? Não seriam os EUA e seu bom desempenho de baixa inflação e de geração de empregos nos últimos anos uma prova cabal dos benefícios do desmantelamento da proteção social, haja vista que a desregulamentação teve maior profundidade nesse país?
O caso americano não serve de exemplo. Apenas um país com a posse da moeda mundial pode se dar ao luxo de incorrer em déficits externos colossais e sustentar baixas taxas de juros, ao mesmo tempo em que seu déficit público não desce aos níveis reclamados pelos economistas e os republicanos.
O cenário desregulamentado para a circulação financeira na economia global e a capacidade norte-americana de sucção de recursos financeiros impõem uma outra realidade aos demais países. Austeridade monetária e taxas de juros condizentes com essa tornaram-se a ordem do dia, cuja desobediência é punida pelos movimentos especulativos de saída de capital.
Entre o crescimento e o bom comportamento diante dos investidores de curto prazo, a opção vem sendo sacrificar sistematicamente o primeiro. Sempre na anunciada expectativa de que, mediante saneamento das finanças públicas, o império das finanças globais perderá força, processo no qual seria um mal temporário a redução de rendimentos salariais.
Esse quadro assumiu tonalidades impressionistas na Europa, no caso dos países que resolveram alcançar as metas de austeridade fiscal estabelecidas, no Tratado de Maastricht, como requisitos para a credibilidade da moeda única européia. A Espanha vem mostrando bom comportamento fiscal e... taxas de desemprego acima dos 20%! Até a Alemanha, mais uma vez quem diria, não tem criado confiança em sua capacidade de sustentar seguidamente déficits públicos abaixo de 3% do PIB.
Uma reação concertada entre as principais economias avançadas, reduzindo em conjunto a fragilidade de negociação com os mercados financeiros mundializados, seria a única saída nas atuais circunstâncias. Do contrário, restarão as tentativas unilaterais de aprofundamento doloroso de ajustes fiscais, compondo um jogo de soma negativa em seu conjunto. Esse é o horror econômico que a intuição de Viviane Forrester permitiu entrever, ao contrário da crença cega compartilhada pela maior parte dos economistas quanto à maleabilidade da economia real em relação a seus modelos de longo prazo.