A Crise Coreana
À Exceção da China, Ritmo do Crescimento no Pacífico Asiático Tende a Diminuir
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional
Publicado pelo Estado de São Paulo em 17 de janeiro de 1997
Acostumamo-nos, durante vários anos, a ver a Coréia do Sul no topo da lista de sucessos. Muito se escreveu comparando as derrapagens da economia brasileira a partir dos anos 80 com os êxitos da industrialização coreana.
Mais recentemente, porém, a atenção mundial foi atraída para uma crise na Coréia do Sul. As manobras do governo para a introdução de emendas na legislação trabalhista, de modo a facilitar as demissões em massa, o recurso ao trabalho temporário e a substituição de grevistas, além de outras medidas fragilizadoras do poder de barganha dos sindicatos, tiveram como resposta uma explosão popular nas ruas. Uma das novidades foi o fato do levante ser comandado por sindicatos, no lugar dos estudantes tradicionalmente responsáveis por esse tipo de movimento naquele país.
O pano de fundo da manobra governista é a deterioração na competitividade externa coreana, conforme expressa em seus recentes déficits comerciais. Por sua vez, a taxa de crescimento econômico, de 7,5% nos últimos quatro anos, deverá limitar-se no futuro próximo a meros 6% ao ano!
Na verdade, vários analistas apontam os níveis elevados de taxas de juros e a especulação imobiliária como fatores importantes no encarecimento da produção coreana. A opção governamental foi, no entanto, atacar os salários, os quais, hoje, nos setores-chave da economia coreana, superam até os da Grã-Bretanha, ainda que com jornadas de trabalho mais extensas. O governo não esperava, talvez, a capacidade de reação dos sindicatos - e da OCDE, que cobrou do governo coreano um comportamento condizente com seu novo estatuto de membro de seu seleto grupo de países.
O que aconteceu com o impressionante sucesso do tigre asiático? Em nossa opinião, trata-se do início de um processo de transição de âmbito regional, abrangendo o modelo exportador do Pacífico Asiático para os mercados ocidentais, particularmente no tocante ao grande mercado norte-americano.
Esse modelo exportador correspondeu, em grande parte, a uma espécie de revoada de gansos, tendo o Japão na frente, os tigres asiáticos na segunda fila, os pequenos tigres - Malásia, Tailândia e Indonésia - na terceira e, vindo do fundo, a China, um ganso enorme colocando em risco a ordem. A imagem de revoada de gansos só não é perfeita porque a complementaridade de suas estruturas produtivas não eliminou uma forte concorrência entre seus membros.
Os conglomerados coreanos, por exemplo, aliaram-se a empresas americanas para dar passos adiante na divisão regional do trabalho, em direção à eletrônica. As zonas econômicas especiais da China, por sua vez, vêm concentrando uma parte crescente das atividades de montagem com base em mão-de-obra não qualificada, buscando também atrair o capital da diáspora chinesa pela Ásia.
Contudo, serve a imagem de revoada de gansos porque, concretamente, todos cresciam e aumentavam salários, com o Japão fugindo para a frente em direção aos segmentos produtivos mais nobres, Coréia e Formosa logo atrás, etc. As atividades produtivas iam sendo deslocadas para trás na revoada, enquanto os países da frente tratavam de incorporar novas atividades mais intensivas em tecnologia. O requisito era o rápido aprendizado tecnológico, para conciliar crescimento econômico, salários crescentes e ocupação de mercados ocidentais.
Os limites relativos desse processo foram antecipados. A partir de certo ponto, quando se esgotasse o filão de setores pelos quais os países da frente podiam manter a fuga, os tigres ficariam imprensados entre o Japão e as fileiras de trás. Além disso, teria de ocorrer uma absorção crescente de produtos asiáticos no ocidente para acomodar o modelo, sem contar com o fato de que a magnitude da entrada chinesa na revoada tendeu a ocupar espaços de outros membros. Por cima de tudo isso, abateu-se a crise de origem financeira e o baixo crescimento no Japão desde o início da década atual.
A nosso juízo, a crise coreana é sintoma de mudanças em curso no Pacífico Asiático. Exceto talvez pela China, o crescimento não será tão grande quanto o que seria com a tomada de mercados ocidentais no ritmo anterior, mas tende a repousar em mercados crescentes na própria Ásia. Conforme ilustrado na reação sindical coreana, as profundas transformações econômicas nesses países geraram anseios de modernização, de consumo, de infra-estrutura inclusive social, como subprodutos de seu êxito.
O paradoxo é que essa transição no velho modelo ultra-exportador asiático já se esboçava quando se passou a falar em sua imitação no resto do Terceiro Mundo. De qualquer forma, os problemas da economia coreana hoje são problemas que boa parte do Terceiro Mundo gostaria de estar enfrentando.