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    Poupança e Dança das Cadeiras
    Autor: Fernando Nogueira da Costa
    Assunto: Economia Monetária e Financeira
    Publicado pela Gazeta Mercantil em 09/06/97

    O debate sobre "escassez de poupança", que se desenrola na Gazeta Mercantil (GM), pode enrolar o leitor leigo. A evidência empírica, apresentada aparentemente em defesa de certas posições, pode ser vista como uma demonstração de tese antagônica. Em outros termos, a série temporal de 1981 a 1996 com a composição da poupança em percentual do PIB (publicada na GM, 14/5/97) pode sugerir uma leitura equivocada. Por exemplo, o economista Fábio Giambiagi afirmou que "a existência de um déficit em conta corrente [poupança externa] é a expressão da poupança interna do Brasil ser insuficiente para financiar o investimento agregado" (GM, 29/4/97).

    Se a esse argumento junta-se a opinião de que "a piora do déficit na conta corrente dos últimos anos espelha, em parte, a deterioração da questão fiscal", chega-se à proposição de "reduzir o déficit público para abrir espaços maiores de investimento junto com um esforço de redução do consumo. Com isso, haveria um aumento maior de poupança pública e privada disponível no setor interno para investimento e o Brasil dependeria menos de recursos externos". Essa idéia tornando-se oficial, muitos cidadãos deste país pagarão a conta, com mais um ônus social devido a equívocos de alguns economistas.

    São vários os equívocos. Primeiro, a série do total da poupança é derivada do investimento realizado, porque, por definição, investimento ex-post é igual à poupança ex-post. Apura-se a taxa de investimento através de proxies: índices de produção de bens de capital e de materiais da construção civil. Obtém-se a formação bruta de capital fixo e apresenta-a como um percentual do PIB (produto interno bruto). Percebe-se logo que, quando caiu o investimento no Brasil (de 1983 a 1985 e de 1990 a 1992), foram anos de recessão (ou precedidos de queda do PIB), que ampliaram a capacidade ociosa e reverteram a expectativa dos empresários, levando à suspensão de seus projetos de ampliação da capacidade produtiva. Aliás, pode-se consultar os jornais da época, para verificar a ocorrência, em 1980/81, do mesmo tipo de "tese" da necessidade de ampliar a poupança interna, cortando gastos (públicos e de consumo). O país já sofreu o que resulta disso...

    Importante é destacar, aparentemente, uma correlação - com ou sem defasagem - entre as séries anuais da poupança total (ou investimento) e de crescimento do próprio PIB. Mas é uma correlação espúria, devido à interdependência demonstrada. Conceitualmente, quando cresce o investimento, multiplica-se a renda, que resulta numa poupança, dada pela diferença entre a renda e o consumo do período.

    O cálculo da composição da poupança agregada é residual, ou seja, tendo seu total (obtido pelo investimento), subtrai-se o que é possível apurar diretamente: a "poupança externa" (déficit na conta corrente do balanço de pagamentos) e a "poupança do governo" (déficit público descontando-se seus investimentos). A "poupança privada", portanto, é um resíduo contábil, obtida indiretamente, pois não há possibilidade de levantamento estatístico do "consumo agregado", para subtraí-lo da renda gerada no período e obter diretamente essa poupança. Sendo assim, evidentemente, dado o investimento e/ou a poupança total, elevando-se o déficit no balanço de transações correntes (em razão de câmbio defasado, déficit do balanço comercial, crescimento de viagens internacionais, despesas com fretes, remessas de lucros e dividendos, pagamento de juros internacionais, etc.), vai se obter uma queda da "poupança interna". Sendo o déficit público a outra informação disponível, alcança-se por diferença a "poupança privada".

    Pois bem, na série apresentada de 1981 a 1996, o triênio de maior "poupança privada" foi 1987-89 com média de 25% do PIB, contrastando com a média de 17% do período anterior (1983 a 1986) e de 15% do período posterior. Nesses anos, a "poupança externa" foi positiva somente em 1987 (0,5 % do PIB), sendo negativa (expressando pequena "remessa de poupança para o exterior") em 1988 (- 1,4) e 1989 (- 0,2). A "despoupança do governo" ficou relativamente baixa, entre - 0,9 e - 1,9. Pergunta-se: com esse crescimento da poupança privada e essa independência em relação à "poupança externa" houve, nessa época de ameaça de hiperinflação, um surto de investimento? Ou houve um declínio relativo do PIB e posterior queda do investimento?

    Na verdade, variáveis exógenas, determinadas discricionariamente, como a taxa de juros e a taxa de câmbio, explicam mais o déficit público ("poupança do governo") e o déficit na conta corrente ("poupança externa") do que qualquer abordagem pelo excesso de gastos não-financeiros internos, privados ou públicos. No entanto, alguns economistas colocam a origem do déficit na conta corrente na diferença entre a renda nacional e os gastos internos, ou seja, explicam-no pela existência de um excedente do investimento privado sobre a poupança privada e/ou um déficit fiscal. O excesso de gastos (ou insuficiência de poupança), correspondente a esse déficit externo, dependeria então de escolhas privadas e/ou política fiscal.

    Outro equívoco é supor dada a produção doméstica, a partir de um hipotético pleno emprego (ver Garcia & Giambiagi. GM, 2/6/97). Numa visão estática, evidentemente, ocorre sempre o que se traduz por "efeito esvaziamento" (crowding out): para aumentar os gastos em investimento, necessariamente tem de cortar consumo privado e/ou gastos públicos ou então Ter maior déficit em transações correntes externas. É incrível o que os economistas tiram de uma pobre identidade contábil: sugerem uma recessão com a maior desfaçatez! Aliás, por isso Deus criou os economistas: para os desastres naturais parecerem amenos...

    A metáfora da "dança das cadeiras" - aquela brincadeira em que um número maior de pessoas do que de cadeiras tem de sentar assim que a música parar - dá uma imagem do que realmente acontece. Numa festa, para os convidados não perceberem a insuficiência de assentos, o melhor é tocar sempre uma música dançante. Quando parar, será a crise. Algo análogo ocorre na dinâmica da economia. Se os gastos em investimento ficarem restritos às dadas rendas, ou melhor, poupanças individuais, será a crise, pois não serão realizados. Mas, se o circuito finance-investimento-renda-aplicações-funding funcionar cumulativamente, ele poderá sustentar o crescimento econômico. É necessário um certo mecanismo de arranque no investimento ex-ante, para gerar poupança interna ex-post, num país. O crescimento do investimento e, consequentemente, a multiplicação da renda nacional, geram a chamada poupança. O que importa é colocar o motor em funcionamento ("tocar a música"), num processo de retroalimentação.

    Portanto, trata-se de esboçar uma estratégia de desenvolvimento com políticas voltadas para a expansão sustentada do investimento, do produto e do emprego - e, em consequência, da chamada "poupança". Ao contrário do que defende o argumento da "poupança prévia", não é a falta de "poupança" que impede o investimento no Brasil, mas sim, entre outros fatores, justamente a falta dessa estratégia para orientar as expectativas empresariais de longo prazo, além do não enfrentamento dos problemas institucionais do financiamento do desenvolvimento. Trata-se de gerar um círculo virtuoso pelo fator de sinergia criado entre o crescimento coordenado de fundos de pensão, o desenvolvimento do mercado de capitais e o aumento das "finanças industrializantes".