O Japão na Bicicleta
Fim da Crise Financeira Japonesa Depende de Definição de Como Será Paga a Conta
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira, Economia Internacional
Publicado pelo Estado de São Paulo em 30/06/98
No dia 17 passado, o Federal Reserve (Fed) norte-americano comprou US$ 2 bilhões em ienes, atuando em conjunto com o Banco do Japão para deter a acelerada desvalorização da moeda japonesa. No dia seguinte, chegava a Tóquio Lawrence Summers, subsecretário do Tesouro dos Estados Unidos, com o fito de discutir saídas para a crise financeira japonesa. Teriam as autoridades norte-americanas e japonesas entrado em sintonia diante desta última?
Afinal, alguns sinais de alerta vermelho haviam tornado-se visíveis nos dias anteriores. A China anunciou o abandono de sua promessa de não desvalorizar sua moeda, na hipótese de permanência do iene em queda livre. Ninguém duvida que uma eventual materialização dessa ameaça certamente provocaria novas rodadas de desvalorização cambial e de ativos na Ásia, com conseqüentes solavancos sobre o resto do mundo. Além disso, as perspectivas de crescimento econômico no Japão, uma das fontes de esperança de alívio para a crise de seus vizinhos, têm-se apresentado cada vez mais sombrias.
Referindo-se à Ásia, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Michel Camdessus, observou recentemente que "uma nova crise, uma crise dentro da crise, está surgindo com a dramática queda do iene". Neste contexto, a intervenção do Fed, as promessas de saneamento do sistema financeiro feitas pelo governo japonês e a viagem de Summers foram vistas como indicação de que, finalmente, algo significativo estaria em marcha.
No entanto, continuaram fortes as emoções na semana passada, no Japão e em boa parte do mundo. O iene voltou a cair e, sexta-feira, dia 26, já descera a um patamar próximo ao anterior à intervenção norte-americana. Corre-se contra o tempo no caso "da crise dentro da crise".
Estima-se a presença de mais de US$ 550 bilhões de créditos de liquidação duvidosa entre os ativos do sistema financeiro japonês. Trata-se de resquícios das bolhas especulativas nos mercados imobiliário e de ações da segunda metade dos anos 80, além de ativos "podres" nos vizinhos asiáticos em crise e do resultado da longa recessão da presente década. A avaliação geral dos mercados é que há uma riqueza cujo caráter fictício vem tendo seu reconhecimento postergado e cujo destino inexorável é a queima, qualquer que venha a ser a forma desta.
Explica-se por aí o insucesso de todas as políticas fiscais e monetárias expansivas tentadas pelo governo japonês. Enquanto não ocorre a queima e, portanto, define-se quem sairá chamuscado, os agentes econômicos domésticos preferem manter sob a forma de ativos líquidos qualquer dinheiro que lhes caia em mãos. E o que é pior: essa preferência pela liquidez dirige-se crescentemente para fora da região.
É como se o sistema financeiro japonês estivesse montado em uma bicicleta. Enquanto sua reestruturação não vem, com saneamento patrimonial, a liquidez local mantém a propensão a fugir, eleva-se o custo de captação de recursos para as instituições financeiras e desabam os preços de suas ações, aprofundando-se a própria crise financeira como conseqüência. É pedalar ou cair.
O resto do mundo está na garupa da bicicleta japonesa. Não se trata apenas dos óbvios efeitos de contágio nas expectativas ou de necessidades de caixa que se seguiriam a um colapso de um dos gigantes da economia mundial. Na verdade, os bancos e companhias de seguro do Japão incluem, entre seus ativos, algo em torno de US$ 320 bilhões em títulos do Tesouro dos Estados Unidos. No caso da queima de riqueza fictícia japonesa ocorrer em uma base individual de instituição por instituição, como peças de um dominó, ao longo do processo haveria venda em massa daqueles títulos norte-americanos e, inevitavelmente, sua desvalorização e a forte subida nas taxas de juros, nos Estados Unidos e no mundo. A atuação norte-americana em defesa do iene teve motivação compreensível.
Contra esse cenário de queima patrimonial caótica, arrastando o mundo para uma depressão em seu processo, o governo japonês prometeu, após a intervenção norte-americana, estar agora definitivamente voltado para soluções patrimoniais. Entre a promessa japonesa e sua materialização, porém, há uma diversidade de percursos possíveis.
As hipóteses anunciadas são várias. Incluem a criação de um "banco-ponte" público para absorver a massa de bancos falidos sob o peso dos ativos de baixa qualidade e garantir os créditos de seus clientes. Depois de recuperar os bancos, estes seriam revendidos ao setor privado. Fala-se também em usar um banco privado como instrumento para tal. Ou, ainda, acionar mais intensamente a agência que já existe cuja finalidade é a aquisição, com desconto, de ativos ruins (o "Resolution Collection Bank"). Quaisquer que venham a ser as formas, o gigantesco "Proer" japonês envolverá alguma socialização de perdas, mediante garantia de credores às custas das finanças públicas.
Localiza-se aí justamente a multiplicidade de trajetos possíveis. A solução patrimonial japonesa pode tentar a preservação máxima da estrutura financeira atual, aumentando a parcela da conta paga pelo setor público. Conforme já argumentamos nesta página (24/03/1998), a letargia japonesa diante da crise reflete, em parte, as tentativas de auto-preservação por parte da teia de relações íntimas entre seus interesses empresariais, uma herança peculiar de seu desenvolvimento.
Configurações alternativas da reestruturação, por seu turno, incluiriam a compra de instituições locais por estrangeiras e/ou fechamento de uma parcela maior da presente capacidade instalada no sistema financeiro, conforme defendido do lado de fora do Japão. Além de reduzir-se o custo público da reestruturação, ter-se-ia um maior grau de castigo sobre os ineficientes.
Os argumentos por parte dos que questionam a viabilidade do eventual preservacionismo financeiro japonês baseam-se justamente nesses dois pontos. A presente situação fiscal deste país é desconfortável (com, inclusive, um passivo previdenciário crescente). Além disso, aos olhos dos mercados internacionais, um dos componentes da crise japonesa seria o excesso de capacidade instalada em sua estrutura financeira. Portanto, o ceticismo dos mercados quanto à saída da crise dificilmente seria revertido. Estaríamos ainda longe de largar a bicicleta e