A Crise Asiática
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
Publicado em "Economia em Perspectiva - Carta de Conjuntura"
CORECON-SP, Janeiro/Fevereiro 1998
A crise asiática foi disparada por um processo de fuga de capital e deflação de ativos financeiros em certo conjunto de economias daquela região. Iniciando-se pelos "tigrinhos" (Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas), suas repercussões adquiriram amplitude global quando aquele processo incorporou os "tigres" Coréia do Sul e Hong Kong, ameaçando também colocar em insolvência seus credores japoneses. As moedas nacionais daqueles países mergulharam em queda livre em relação ao dólar, com exceção de Hong Kong, onde a desvalorização cambial foi evitada a alto custo.
A crise de confiança abateu-se sobre sistemas financeiros de fato às voltas com fragilidade financeira, ou seja, com empresas não-financeiras e intermediários financeiros carregados especulativamente com ativos de baixa liquidez vis-à-vis débitos de curto prazo. Além disso, havia a vulnerabilidade diante de desvalorizações cambiais, dada a proporção do endividamento em dólar naquela super-alavancagem.
No caso dos tigrinhos, o descompasso entre ativos e passivos tinha na especulação imobiliária um componente substantivo, ao passo que, na Coréia, o desajuste relevante refletia ociosidade de capacidade produtiva industrial em seus conglomerados. O elevado grau de endividamento dos conglomerados coreanos, característica indissociável da agressividade presente em seu crescimento, perdera a garantia de solvência obtida no passado mediante receitas com exportações crescentes.
A magnitude dos efeitos de caixa (necessidade de liquidação de ativos) e de contágio de expectativas, em escala mundial, fez efetivamente da crise asiática a primeira da era das finanças globais. A perplexidade diante da crise foi proporcional ao fato de que, até bem pouco antes, a região do Pacífico Asiático se configurava como fronteira de crescimento econômico aparentemente inexaurível.
O descompasso patrimonial que constituiu a causa imediata da crise foi sempre um traço marcante do crescimento dos países concernentes, ainda que em menores níveis. A ausência de aplicação - por parte do setor privado e das autoridades governamentais correspondentes - de critérios de avaliação de riscos e/ou de exigências de sua cobertura, bem como as expectativas firmemente estabelecidas quanto à garantia estatal de solvência em última instância, foram requisitos para a ousadia dos investimentos produtivos na região. Como tais aspectos já estavam presentes durante o longo período de bonança, a explicação da crise exige localizar suas causas menos imediatas, aquelas que transformaram a aposta especulativa virtuosa em salto no precipício.
Uma hipótese muito discutida tem sido aquela formulada por Paul Krugman quanto à exaustão dos fatores de alto crescimento asiático em relação ao resto do mundo, uma vez concluídos dois processos: a incorporação, em setores industriais modernos, dos imensos contingentes de camponeses subempregados característicos da região e a universalização da educação. Altas taxas de poupança e os correspondentes investimentos teriam permitido a velocidade e a magnitude daquela absorção. Em cada experiência nacional, por outro lado, uma vez plenamente utilizadas as fontes, necessariamente as taxas de crescimento teriam de acomodar-se em níveis mais baixos.
A exaustão relativa dessas fontes já teria acontecido no Japão, nos anos 80, e estaria manifestando-se em países como a Coréia do Sul e Tailândia pelo menos desde meados da atual década. A expansão de salários acima da produtividade, nestes últimos, assim como o superaquecimento de seus mercados internos e a transição de superávites para déficits comerciais, seriam sintomas da necessidade de aceitação de crescimento mais lento. Assim como na "bolha" financeira japonesa dos anos 80, com supervalorização imobiliária e de ações, a resistência à realidade estaria por detrás da acentuação do descompasso patrimonial no período prévio à atual crise.
Embora seja inegável a importância dos fatores ressaltados por Krugman, há, a nosso juízo, mais elementos na deterioração de fundamentos do crescimento nas economias em questão. Cada uma das experiências nacionais de crescimento rápido via exportação no Pacífico Asiático, inclusive o Japão, envolveu combinar a implantação local contínua de novos segmentos produtivos e/ou a captura, em breve tempo, de parcelas dos correspondentes mercados no exterior, particularmente dos Estados Unidos. Este processo, materializado através de certa divisão e repasse intra-regional de tarefas, defrontou-se com dificuldades para manter a exuberância de seu ritmo.
O Japão especializou-se crescentemente nos segmentos tecnologicamente mais sofisticados em indústrias como eletrônica, telecomunicações, automobilística e bens de capital. Os tigres cresceram em direção a atividades de fabricação intensiva em mão-de-obra qualificada naqueles ramos, integrando-se ao drive exportador japonês. Por seu turno, os tigrinhos ocuparam espaços anteriormente ocupados pelos tigres na produção e exportação em setores tradicionais intensivos em mão-de-obra não-qualificada, como calçados, vestuários e montagem na eletrônica e na automobilística. A integração em redes de produção de âmbito regionalmente internacionalizado teve, como suporte, fluxos de investimento direto ou joint-ventures, além de crédito bancário, acordos de transferência tecnológica e venda de componentes e equipamentos, da frente para trás na "revoada de gansos".
Levando-se em consideração as óbvias dificuldades de homogeneização pelo alto, ou seja, de todos os países tornarem-se réplicas do Japão ou mesmo dos tigrinhos virarem tigres, a máquina exportadora asiática só poderia continuar crescendo acima do mundo mediante ampliação colossal em suas parcelas nos mercados dos Estados Unidos e na magnitude do déficit comercial deste país. Piorando a situação para os tigrinhos e, em parte, para a Coréia, a China emergiu absorvendo grande fatia dos mercados internacionais para segmentos produtivos intensivos em mão-de-obra não-qualificada.
Enfim, para além da insolvência financeira no curto prazo, há um conteúdo de exaustão relativa de trajetórias de crescimento em economias envolvidas na atual crise asiática. A saída definitiva da crise dependerá de que os encaminhamentos mais imediatos se façam acompanhar por soluções de alcance mais estrutural.