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    Mudanças Institucionais e Seus Impactos Nas Estratégias dos Capitais do Complexo Agroindustrial Canavieiro no Centro-Sul do Brasil1
    Autores: Walter Belik2, Pedro Ramos3 e Carlos E. F. Vian4
    Assunto: Economia Agrícola
    Publicado nos Anais do XXXVI Encontro Nacional da Sober - Poços de Caldas em Agosto de 1998

    Resumo

    O artigo tem o objetivo de enfatizar como as alterações institucionais que estão ocorrendo a partir do final dos anos oitenta e início dos anos noventa estão influenciando nas estratégias competitivas dos capitais do complexo agroindustrial canavieiro em São Paulo. Conclui-se que o setor está adquirindo uma dinâmica diferente da visualizada no período de intervenção estatal. Pode-se destacar dois desdobramentos importantes: Por um lado o setor parece adquirir dinamismo, por outro deverão ocorrer impactos sociais e econômicos importantes.
    Palavras Chave: Cana, açúcar, álcool, estratégias agroindustriais, instituições

    O objetivo deste artigo é analisar as alterações recentes nas estratégias dos grupos empresariais do complexo canavieiro paulista, tentando relacionar estas mudanças com as alterações do ambiente institucional da economia brasileira a partir do final dos anos oitenta. Entre elas cabe destacar a paulatina desregulamentação estatal, a queda do consumo de álcool hidratado e a nova legislação ambiental.

    O texto é composto de três partes. Na primeira é feita uma breve discussão teórica sobre as formas do Estado capitalista e a coordenação setorial. Estes dois aspectos são importantes para se entender como é montado o ambiente institucional e como ele pode ser alterado. Na Segunda parte, resgata-se os principais aspectos estruturais do complexo canavieiro paulista em sua história recente, destacando-se a intervenção estatal e a integração vertical.

    Na terceira parte aponta-se as novas estratégias empresariais do setor, mostrando-se como estas tem surgido a partir do momento em que o ambiente institucional começou a sofrer profundas alterações. Esta parte representa a principal contribuição deste ensaio e deverá merecer reflexão posterior mais aprofundada.

    I - Considerações sobre o Estado e o Desenvolvimento do Complexo Canavieiro

    Existe uma relação direta entre a evolução histórica e os condicionantes culturais de uma sociedade. Esta formação enseja uma determinada relação entre o Estado e o desenvolvimento econômico de uma nação. Na realidade, o conceito de Estado é uma convenção acordada pela população, organizada segundo suas formas de representação, que elege procedimentos e rotinas que visam atingir um determinado nível de bem-estar.

    Em períodos de ruptura, ocorrem mudanças nas formas de representação dos agentes econômicos. No entanto, o peso da herança cultural continua a ocupar um espaço importante na determinação de rotinas e procedimentos competitivos.

    O Brasil tem uma longa tradição na participação do Estado na definição de políticas e, por outro lado, na atuação dos grupos econômicos junto ao Estado buscando acumular privilégios ou melhorar a sua posição em relação aos concorrentes. Assim, o Estado funciona como um sujeito a quem se recorre como parceiro na regulação ou na atuação em diferentes graus. O Estado no Brasil assume características próximas ao que Storper (1997) denomina de "estado externo"5 .

    A maior indagação que se coloca para o caso da agroindústria canavieira é a de como o setor poderá encontrar novas formas de articulação entre os seus diversos segmentos, trazendo consigo o enorme peso acumulado por um determinado tipo de convenção quanto à atuação do Estado.

    As mudanças institucionais observadas para o caso brasileiro são evidentes e se intensificam a partir da segunda metade dos anos oitenta. No plano político, há um processo de democratização e aumento da transparência na função governo como um todo. No entanto é na esfera econômica que irão ocorrer as maiores mudanças. Com a crise fiscal e o fim das formas de regulação baseadas no poder central, os grupos setoriais organizados e os que conseguem se organizar conseguem se sobrepor à retirada do Estado estabelecendo alguma forma de auto-regulação. Para os setores cuja prática de concertação ainda era incipiente ocorre uma fratura entre os diversos interesses e uma contínua perda da capacidade de formulação de políticas. Ou seja, aqueles interesses constituídos dentro do setor que se abrigavam anteriormente sob as políticas setoriais, perdem densidade e terminam relativamente desarticulados. Nestes casos impõe-se a lógica do mais forte e do maior poder econômico.

    Há uma diferença básica na relação entre os indivíduos e os objetivos quando se trata de um grande ou de um pequeno grupo. Segundo Buchanan (1975) a existência de grandes grupos enseja a dependência dos diversos atores em relação às decisões emanadas por parte do coletivo e o comportamento individualista não faz diferença. Os agentes ficam vinculados à realidade colocada pelo grupo maior, esta situação leva a existência dos "caronas". Já nos grupos pequenos, o comportamento individualista está diretamente ligado aos resultados finais que se pretende atingir. Devido à dificuldade de se obter o consenso, o comportamento dos agentes passa a ter um perfil cada vez mais individualista tornado uma política comum algo mais difícil.

    As mudanças institucionais que vem se processando na economia brasileira desde a segunda metade dos anos oitenta impactaram diretamente no setor canavieiro. Com a crise fiscal do Estado e sua gradual retirada das arenas de decisão, a auto-regulação setorial não foi mais além. O setor tende a se dividir segundo as características geográficas de suas empresas, as ligações políticas da sua base e segundo a força dos seus capitais. Este movimento de particularização dos seus interesses, que já podia ser observado anteriormente, intensifica-se nos anos noventa devido a um movimento de concentração de processadores em função da fragilidade financeira de algumas empresas.

    Historicamente, para o setor canavieiro a auto-regulação sempre foi problemática. A presença do Estado e seu papel de mediação foram fundamentais para elaboração de um projeto comum. Assim, com a redução do poder do Estado sobre o setor, este não tem conseguido se emancipar enquanto bloco de interesses constituído. Surge, com isso, uma série de interesses fragmentados refletindo um enorme conjunto de alternativas estratégicas que se apresentam para as diferentes empresas atuantes no setor. Curiosamente, é neste ponto que observamos que as empresas ganham dinamismo e o panorama do setor canavieiro começa a apresentar uma nova face.

    Segundo Farina et alli (1997:153) "o poder das associações se autogovernarem não, surge, em geral, espontaneamente. Para assumir essa função, as associações precisam ser providas de autoridade para obrigar certos tipos de comportamento e coibir outros e esta autoridade só pode ser concedida pelo Estado, ou obtida por consenso". Examinando-se o caso específico do setor canavieiro, observa-se que nenhuma das duas pré-condições levantadas foi efetivamente preenchida no período recente. Com a redução dos preços relativos, extinção das cotas de produção, alteração no dinamismo tecnológico e em relação ao Proálcool, a busca do consenso foi gradativamente substituída por enormes cisões na base de discussão do setor.

    Utilizando-se do esquema clássico em que as estratégias individuais estão diretamente amaradas ao ambiente institucional e às trajetórias tecnológicas, pode-se afirmar que já não é possível garantir o antigo consenso setorial. Menard (1996) demonstra que as mudanças nas políticas públicas podem afetar diretamente os atributos do produto (especificidade, frequência e incerteza) o que interfere nas formas de governança setorial, permitindo que determinadas atividades que eram internas à empresa possam ser externalizadas, passando ao mercado, e vice-versa. O mesmo se pode dizer com relação às condições de operação junto ao fornecedores e junto ao mercado consumidor.

    Em suma, o caso da agroindústria canavieira paulista é um exemplo de como a questão da formatação de um novo consenso setorial é delicada. O setor se depara com uma situação em que precisa montar, rapidamente, um modelo de autogestão. Mas a construção deste é extremamente difícil em um ambiente em que nenhum dos principais atores (Unica, Copersucar, Orplana e Sopral) possui força suficiente para impor os seus interesses junto aos outros, tornando difícil o consenso.

    II - Os Limites da Intervenção Estatal

    Como se sabe o complexo agroindustrial canavieiro constitui-se na mais antiga atividade econômica do Brasil. Evidentemente, torna-se impossível sumarizar sua história em poucas páginas. Portanto, esta parte tem o objetivo de chamar a atenção para aspectos que possam permitir a compreensão de sua trajetória mais recente e de suas características estruturais básicas.

    A ação do Estado aprofunda-se a partir do início dos anos trinta, assumindo o caráter de uma intervenção acentuada, buscando administrar os conflitos que foram surgindo no interior do complexo e , portanto, ela constitui-se num elemento da história do mesmo. Entre outros aspectos dessa intervenção, cumpre destacar que ela se efetivava também pelo mecanismo das "cotas de produção" e pela administração de preços6 .

    Na segunda metade dos anos quarenta, destacou-se a espetacular expansão do número de usinas. Isso foi potencializado pelo surgimento e constituição de um grupo empresarial que passou a fabricar carregadeiras de cana, moendas e caldeiras. Isso foi facilitado pelas inter-relações que se estabeleceram entre os grupos Dedini e Ometto, bem como pelo surgimento em 1953 do Grupo Zanini, que logo passou a ser controlado pela Família Biagi, que já era usineira.

    O açúcar paulista era direcionado para o mercado interno. As exportações, por sua vez, estavam reservadas à produção nordestina e eram gravosas. Assim, o Estado bancava o diferencial de preços em favor dos exportadores. As exportações de açúcar foram importantes para São Paulo quando da Revolução Cubana, a qual permitiu a entrada do nosso açúcar7 no mercado norte-americano.

    Na década de 1950 houve um espetacular crescimento da produção, caracterizada pela concentração técnica e pela busca de terras de melhor fertilidade e localização. Isso ajuda a entender porque a integração de capitais sempre foi grande em São Paulo.

    Essa maior integração do complexo paulista foi ainda reforçada no final dos anos cinquenta com a constituição da Copersucar8 , cuja atuação foi marcada inicialmente pela comercialização centralizada dos produtos de suas usinas integrantes, já que até então o açúcar não se caracterizava por ser um produto que permitisse alguma diferenciação. O álcool residual era produzido em destilarias anexas, ocupando sempre o segundo plano em termos de importância. Em muitos momentos, os usineiros preferiam comercializar o melaço, chegando a exportá-lo, em vez de produzir álcool.

    Tais comentários indicam um outro aspecto importante: as economias de diversificação produtiva sempre foram pouco aproveitadas pelos capitais do complexo. A bem da verdade, no período compreendido entre os anos trinta e os anos oitenta, somente o bagaço como matéria para ser queimada nas caldeiras marcou tal aproveitamento. Outras economias de integração existiam, mas foram quase sempre mal exploradas e/ou de pouca importância econômica.

    A expansão do complexo ganhou um impulso quando do programa de erradicação dos cafezais das terras paulistas. Constituíram-se novas usinas e apareceram novos fornecedores de cana. Contudo, isso apenas veio agravar uma situação que já se fazia antever desde o final dos anos cinquenta: qual seja, o de uma produção que havia ultrapassado as possibilidades de colocação no mercado interno, que só não foi mais grave devido às exportações para o mercado preferencial norte-americano. Exacerbaram-se problemas internos também em São Paulo, o que exigiu ações e legislações específicas por parte do Instituto do açúcar e do Álcool (IAA).

    Em 1965 tal órgão elaborou uma lei que criou o Fundo Especial de Exportação (FEE), já que os planejadores entendiam que estava colocada a possibilidade de grande ampliação de nossas vendas externas. Até final dos anos sessenta, tal fundo não teve grande destaque. Com a contínua elevação de preços entre 1966 e 1973 e com sua triplicação entre esse ano e a primeira metade de 1975, o FEE passou a ser um novo e fundamental instrumento de expansão do complexo.

    O mais importante é destacar que tal instrumento permitiu uma expansão diferenciada, já que passou a beneficiar de maneira desigual os capitais do complexo, pois implementou-se um programa baseado na idéia de que as fábricas com baixa capacidade de produção eram economicamente inviáveis e deveriam ser fechadas e/ou incorporadas. Assim, permitiu-se uma concentração técnica, já que a crise da primeira metade da década tinha provocado uma concentração econômica/centralização de capitais. No tocante à produção agrícola, foi permitida uma concentração de dupla natureza: primeiro, que os fornecedores mais fortes absorvessem e/ou ocupassem mais abertamente as suas possibilidades produtivas, através da incorporação de cotas de fornecedores menores; segundo, muitas dessas cotas foram incorporadas pelas próprias usinas. A justificativa desse processo foi um suposto aproveitamento das economias de escala na produção agrícola e industrial.

    Os produtores brasileiros foram surpreendidos com uma grande queda de preços no final de 1975 que explicitou o problema da capacidade de produção super-dimensionada, já que os capitais do complexo haviam planejado e executado ampliações visando colocar grande parte da produção açucareira no mercado externo. Contudo, um novo evento externo beneficiaria novamente os produtores: o primeiro choque do petróleo logo serviu de justificativa para uma nova ajuda estatal para os capitais já instalados e para os que adentraram o complexo naquele período (final dos anos setenta, início dos oitenta). Os financiamentos do Proálcool9 , permitiram numa, primeira fase, a montagem e ampliação das destilarias anexas às usinas, para produção fundamentalmente de álcool anidro e, numa segunda fase, a montagem de destilarias autônomas para a produção de álcool hidratado10 . O programa ganhou apoio quase unânime com o segundo choque do petróleo em 1979, tendo sido montadas muitas destilarias em regiões que não tinham nenhuma tradição e qualificação. Ademais, reforçou-se a característica estrutural antes apontada, já que as destilarias eram praticamente auto-suficientes no abastecimento de cana.

    Assim, menos de um quinquênio depois, antigos e novos proprietários ampliaram e constituíram unidades produtoras com recursos públicos quase a fundo perdido, se leva-se em consideração que o processo inflacionário brasileiro acelerou-se a partir do início dos anos oitenta. O Estado viabilizou, assim, uma produção alternativa para a maior parte das empresas que já atuavam no complexo. É fundamental destacar que as avaliações de então apontavam para um cenário pessimista para o comportamento futuro dos preços do petróleo, estimando que o preço do barril no ano dois mil chegaria US$ 50. Como se sabe, isso não aconteceu: o preço reverteu sua tendência já a partir de oitenta e cinco, ainda quando estavam maturando boa parte dos investimentos feitos durante o auge do Proálcool (1979/80).

    Outro aspecto que cabe destacar é que a crise das finanças públicas explicitou-se abertamente a partir do início dos oitenta e, aliada ao problema inflacionário, desaconselhava a continuidade do apoio ou subsídios. Em outras palavras, tornou-se muito difícil justificar a continuidade do apoio ao Proálcool numa conjuntura de preços de petróleo em queda e de inflação fortemente ascendente, o que aconteceu notadamente a partir do final de 1985.

    A isso deve ser acrescentado que o IAA já vinha sendo ameaçado de extinção desde essa época. Sem recursos e sem meios outros de sustentação, o seu fim parecia apenas uma questão de tempo. As dívidas que os produtores tinham com ele foram assumidas pelo Banco do Brasil e pelo Tesouro Nacional, quando da extinção do órgão em principio de noventa, já no Governo Collor.

    Assim, o complexo canavieiro adentrou a década de noventa com uma modificação básica: já não era mais possível continuar assentando sua sobrevivência e mesmo sua expansão no forte apoio estatal. Embora isso não signifique que ele tenha sido totalmente abandonado, muito menos que os produtores tenham deixado de solicitar apoio, o fato é que a partir de então explicitou-se mais claramente sua características estruturais básicas e suas debilidades, as quais passaram a ser refletidas e enfrentadas pelos capitais que competem no interior do mesmo.

    III - Novas Estratégias Competitivas

    Nos últimos 25 anos o complexo canavieiro nacional passou por um período de expansão da produção açucareira, atingindo, na safra 96/97, duzentos e quarenta e sete milhões e duzentos e cinquenta mil sacos de sessenta quilos de açúcar. Neste mesmo período, em média, 30% da produção foi exportada, 42% foi destinada ao consumidor final e 28%11 ao segmento industrial, sendo que as fábricas de refrigerantes, chocolates, balas e confeitos são as maiores compradoras12 . Existem empresas do complexo canavieiro que são acionistas de fábricas de refrigerantes e fornecem grande parte da produção diretamente a estas empresas, caracterizando um mercado interno ao grupo econômico o que permite a redução de riscos e dos custos de transação ligados ao mercado atacadista e industrial. Por outro lado, o complexo canavieiro nacional caracteriza-se por uma baixa concentração técnica da produção13 pois aproximadamente 300 usinas controlam cerca de 75% da produção nacional de açúcar14 . As maiores usinas do país não participam, individualmente, com mais do que 2,5 % do total de açúcar e álcool produzidos no país e a soma da participação de todas as unidades pertencentes aos oito maiores grupos familiares do setor chega a cerca de 40% do açúcar nacional.

    Como foi enfatizado nas seções anteriores, o complexo agroindustrial canavieiro passou por uma série de mudanças institucionais e de coordenação. Esta seção discute como estas alterações estão influenciando nas estratégias das empresas do setor no Centro-Sul. Aponta-se elementos de uma nova dinâmica concorrencial que pode levar a modificações estruturais. Até meados dos anos oitenta as empresas do complexo não investiam na diferenciação de seus produtos, na diversificação produtiva e apenas algumas empresas buscavam uma melhor condição técnica de seus equipamentos. Os investimentos em progresso técnico e na diferenciação de produto, diversificação produtiva e na especialização da produção têm gerado uma profunda reformulação da agroindústria canavieira no Centro-Sul.

    A - Estratégia de Diferenciação de Produto

    Esta estratégia é baseada na busca contínua de diferenciação do produto pela qualidade, marca, preço, entrega, embalagem, entre outros atributos. Pode-se mencionar que até meados dos anos oitenta apenas duas marcas de açúcar refinado dominavam o mercado no Brasil. A partir do início dos anos noventa, outras empresas investiram em refinarias próprias e passaram a buscar a diferenciação de produto, através da utilização de diversos tamanhos de embalagem15 e de diferentes tipos de refino. Cabe destacar que algumas das empresas que iniciaram a refinação própria eram filiadas da Copersucar e se desligaram para comercializarem o açúcar por conta própria.

    A Usina Guarani lançou a marca Guarani, em várias embalagens, com diversos tipos de refino e com adição de vitaminas para o consumo infantil. Ademais, esta empresa está iniciando a produção de açúcar líquido invertido para atender ao consumo industrial e prestar um serviço às empresas de alimentos, uma vez que elas precisam transformar o açúcar cristal em xarope para usá-lo na produção de alimentos e bebidas. A Usina Nova América também entrou no mercado de açúcar refinado, lançando a marca Dolce em vários tamanhos de embalagem, mas este grupo centrou a sua atividade nas outras estratégias que serão discutidas abaixo.

    O caso mais importante e mais interessante de diferenciação de produto que foi possível constatar é o da Usina Albertina. Após muitos anos esta empresa desligou-se da Copersucar e procurou investir no lançamento de uma marca própria de açúcar refinado, o Sucareto, com embalagem descartável de 250 gramas, destinado ao consumidor individual, restaurantes, lanchonetes e cafés. Recentemente, o Sucareto ganhou uma versão light16 , baseada na mistura de açúcar refinado com adoçante artificial.

    Por sua vez, a Usina da Barra está financiando o desenvolvimento, por uma universidade, de um derivado do açúcar, denominado de Lowsugar. Este produto é fruto da transformação química do açúcar e, segundo o que se divulgou, pode não engordar e não provocar cáries. Isto poderia levar tal usina a concorrer com os adoçantes artificiais com vantagens de custo e com grande apelo de marketing por não fazer mal à saúde.

    O sucesso da estratégia de diferenciação do produto esbarra na pouca experiência comercial das empresas do setor, pois durante muito tempo elas venderam sua produção através da Copersucar ou direto para o IAA. Por sua vez, a venda de produtos aos atacadistas e aos supermercados coloca os produtores frente a outros grandes capitais, que muitas vezes adotam comportamentos oportunistas.

    Outro aspecto importante é a elevada exigência de capital para investimento em embalagens, em novos tipos de refino e novas formas de distribuição para poder concorrer com os adoçantes artificiais, mesmo no mercado industrial.

    As empresas que continuarem a ter sucesso na implementação desta estratégia podem elevar as margens de lucro com o uso do mix de produtos, marcas e variações de tamanho de embalagem e com as maiores possibilidades de diferenciação de marca por região e estado da federação.

    B - Estratégia de Diversificação Produtiva

    A busca de diversificação está relacionada com a obtenção de maiores lucros e com a manutenção do crescimento de longo prazo, mas também pode estar ligada à sobrevivência da empresa que atua em mercados com tendência à estagnação, retração e concentração técnica e de capitais.

    No final dos anos oitenta e início dos noventa, muitas destilarias buscam a diversificação para o açúcar, entrando em um mercado que na época tinha bons preços e boa demanda internacional. Podemos citar como exemplos de adoção desta estratégia empresas como a Colorado (SP), Vale do Verdão (GO) e Guaíra (SP).

    O açúcar é um produto com demanda inelástica e assim, pequenas quedas de preço ou o aumento da oferta não causam grandes variações na quantidade consumida. Deste modo, com a elevação da produção que ocorreu com a entrada de novas empresas, os usineiros passam a ter que buscar o mercado internacional ou a arcar com os estoques crescentes do produto.

    Neste contexto, a diversificação produtiva para o açúcar passa a não ser mais atraente e as destilarias que se diversificaram nos anos noventa buscam outras áreas de atuação, tendo como base os subprodutos e o confinamento de gado bovino. Jardest (SP), Univalem(SP) e Dedini(SP) são exemplos da adoção desta estratégia. Por sua vez, empresas de grande porte como a Vale do Rosário e a Usina Santa Elisa, passaram a fazer cogeração de energia elétrica17 .

    Alguns grupos mais arrojados e com certa tradição em outras áreas de produção agrícola, buscaram usar estas vantagens. Assim, pode-se citar o exemplo da Usina Nova América, que esta investindo grandes somas na produção de suco de laranja pasteurizado e na diferenciação deste produto, lançando novas embalagens e novos tipos, como o suco concentrado. A empresa processa e comercializa chás e suco de abacaxi. Este processo é muito mais arriscado, pois envolve a entrada em um mercado completamente diferente do de açúcar.

    Novamente aqui aponta-se possíveis riscos ligados à adoção da diversificação produtiva: as empresas do setor possuem pouca experiência em outros mercados, principalmente naqueles em que há uma necessidade de obtenção de vantagens através da diferenciação de produto, distribuição e propaganda. Há uma elevação dos custos de transação ligados ao comércio de alimentos prontos, pois em muitos casos18 a distribuição deve ser feita com veículos refrigerados e o controle sanitário é bem maior que no comércio de açúcar.

    A diversificação das usinas em direção à alcoolquímica é tecnicamente viável, mas a concorrência com a petroquímica é conjunturalmente improvável diante dos subsídios dados a alguns derivados de petróleo, como a nafta. Por outro lado deve-se levar em conta as dificuldades de organização dos grupos econômicos do setor para investirem em campos fora do seu principal ramo de atividade.

    Esta estratégia permite que as empresas se beneficiem da experiência na produção agrícola integrada, das economias de escala e escopo na produção industrial e agrícola, baixem a sazonalidade do uso

    Quadro 1 - Comparação entre as Estratégias Analisadas

    Energia e dos subprodutos.

    Estratégia Aplicação da estratégia ao setor Exemplos de empresas e grupos
    Diferenciação de Produto
  • Novas marcas de açúcar refinado.
  • Embalagens de vários tamanhos,
  • Embalagem descartável,
  • Açúcar light
  • Guarani, Nova América, Da Barra, Albertina
    Diversificação Produtiva
  • Destilarias que passam a ser usinas
  • Cogeração de energia elétrica
  • Produção de suco de laranja
  • Confinamento de gado bovino
  • Fornecimento de Garapa para produção de ciclamato monossódico
  • Alcoolquímica
  • Colorado, Vale do Rosário, Santa Elisa, Vale do Verdão, Univalem, Jardest
    Aprofundamento da especialização na produção de açúcar e álcool
  • Automatização da produção industrial
  • Mecanização da agricultura
  • Melhora da logística de transporte e produção da cana
  • Transferência das unidades de produção para áreas agrícolas mecanizáveis e de melhor qualidade
  • Grupo Cosan, Colorado, Vale do Rosário, entre outros.
    Fonte: Elaboração dos autores com base em informações secundárias.

    C - Estratégia de Aprofundamento e especialização na produção de açúcar e álcool.

    Algumas usinas, em face de um mercado mais competitivo, estão buscando novos meios para garantir a remuneração do capital investido. Assim, aparecem estratégias ligadas com a especialização na produção de açúcar e álcool e aumento da produtividade das unidades industriais e agrícolas. Estas empresas estão investindo na automação da produção industrial, na mecanização da agricultura, principalmente da colheita e na melhora da logística de transporte e produção da cana. O grupo Cosan BJ, de Piracicaba, por exemplo, está investindo na transferência de suas unidades produtivas para áreas agrícolas mecanizáveis e de melhor qualidade, procurando concentrar a sua produção em áreas propícias à mecanização da colheita da cana.

    A adoção desta estratégia pode permitir que as empresas se capacitem para investirem nas outras estratégias em um segundo momento. Por enquanto elas têm como benefício a especialização no mercado, a redução dos custos de transação e da complexidade da coordenação da cadeia. O quadro 1, resume os principais movimentos ocorridos em torno desta estratégia.

    Finalizando, cabe salientar que o complexo canavieiro vem passando por um novo período de concentração e centralização de capitais, visto que já aconteceram algumas fusões e incorporações na região mais dinâmica do complexo no Brasil, que é o Centro-Sul. O quadro 2 resume as principais transações ocorridas nos últimos meses.

    Quadro 2 - Exemplos de Incorporações, Fusões e Arrendamentos no Complexo Agroindustrial Canavieiro No Centro-Sul.

    Comprador, incorporador ou arrendatário.

    Empresa adquirida, incorporada ou arrendada

    Objetivos e resultados

    Usina Coruripe e Grupo João Lyra (Grupos instalados no Nordeste)

    destilaria em Iturama e Ituiutaba - Triângulo Mineiro - MG

    Transferência de parte da produção do Nordeste para as terras férteis de Minas Gerais.

    Grupo Armando Monteiro, Grupo Tenório (Grupos do Nordeste)

     

    Instalação de usinas no Triângulo Mineiro

    Usina Alta Mogiana

    Usina Alta Floresta (SP) e Usina Alto Alegre(PR)

    Permite a posterior expansão do grupo em áreas consideradas pioneiras e onde existem terras disponíveis e de fácil mecanização.

    Usina Santa Elisa e Banco Bradesco

    Usina São Geraldo

    Formou-se a maior grupo produtor de açúcar do mundo. E otimizou-se o transporte da cana para o processamento.

    Usina Santa Elisa

    Usina São Martinho

    Troca de plantações de cana com a São Martinho para otimizar o transporte r reduzir os custos de frete

    Grupo Cosan BJ

    Usina Diamante

    Otimização do processamento agrícola

    Usina da Barra

    Corn Products (E.U.A)

    Associação para a fabricação de açúcar líquido para exportação e mercado interno

    Usina da Pedra

    Açucareira Santa Rosa

    Aumento da produção do grupo e Otimização do processamento agrícola, pois as usinas estão em uma mesma região

    Grupo Camilo Cury(Cons. Civil) e TC Agropecuária

    Usina Santa Lydia

    Aquisição

    Grupo Balli (Irã/GB) em associação com a Usina Santa Elisa

     

    Construção de nova usina em S. Paulo na região de R. Preto

    Usina Corona e Grupo Cosan (participação)

    Usina Tamoyo

    Aquisição

    Santa Elisa, Vale do Rosário, MB, Moema, Jardest, Pioneiro, Mandu

    Cooperação para comercialização e compra de matérias-primas

    Constituição da Comercializadora de Açúcar Crystalev

    Fonte: Elaboração dos autores a partir de dados secundários.

    Considerações finais

    A análise acima evidencia que as instituições, ou seja, o Estado e as políticas públicas, a cultura organizacional, a estrutura social e a forma de organização dos agentes econômicos e sociais influem de maneira significativa na formulação das estratégias empresariais e em suas mudanças. Conforme foi descrito, a política de intervenção estatal no complexo canavieiro nacional foi responsável por uma estrutura atrasada e de baixa competitividade que se manteve nos últimos cinquenta anos. A mudança da política e do ambiente institucional, por sua vez, obrigou as empresas a adotarem estratégias diferenciadas das anteriores, buscando a competitividade nacional e internacional.

    No passado, as estratégias individuais estavam subordinadas a uma regulação geral estabelecida pelo Estado interventor. O que é novo e o despontar de novas estratégias individuais baseadas na diferenciação de produto, diversificação produtiva e especialização. Estes movimentos são indicativos das dificuldades para restabelecer o antigo consenso em relação às condições de produção. Se há um movimento comum a todo o complexo canavieiro do Centro-Sul do Brasil, este é o de concentração/centralização de capitais, que se faz novamente presente.

    Contudo este texto é preliminar e seu tema exige futuras pesquisas sobre os complexos regionais e a adoção da análise institucional, bem como uma reflexão mais aprofundada das estratégias competitivas que estão sendo adotadas.

    Bibliografia Citada

    BUCHANAN, J. (1975): Le cavalier Libre IN : Grefee, Xavier Economie Publique . Ed. Economica

    DATAGRO - São Paulo. Datagro Consultoria e acessoria Empresarial. Vários Números

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    MENARD, C. (1996): Why Organizations Matter: A Journey Away From the Fairy Tale - Atlantic Economic Journal - Vol24, december 1996 - número 4 - pág. 281-300.

    MOREIRA, E. F. Pestana - "Expansão, Concentração e Concorrência na Agroindústria Canavieira em São Paulo: 1975 a 1987". Campinas, IE - Unicamp, 1989. Tese de mestrado

    RAMOS, P. "Agroindústria canavieira e Propriedade Fundiária no Brasil - São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, 1991. Dissertação de Doutorado em Administração.

    RAMOS, P. "Um estudo da Evolução e da Estrutura da Agroindústria Canavieira no Estado de São Paulo - São Paulo, Fundação Getúlio Vargas, 1983. Dissertação de Mestrado em Administração.

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    Notas

    1 Artigo publicado nos anais do XXXVI Encontro Nacional da Sober - Poços de Caldas - Agosto de 1998
    2 Professor Doutor - Instituto de Economia - Unicamp. Caixa postal 6135. Campinas - SP . CEP- 13083.970 - E - Mail: Belik@eco.unicamp.br
    3 Professor Doutor - Instituto de Economia - Unicamp. Caixa postal 6135. Campinas - SP . CEP- 13083.970 - E - Mail: Peramos@turing.unicamp.br
    4 Doutorando - Instituto de Economia - Unicamp. Caixa postal 6135. Campinas - SP . CEP- 13083.970 - E - Mail: cefvian@eco.unicamp.br. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa do Setor Sucroalcooleiro (GEP-SUCRO).
    5 Storper(1997), classifica a atuação do Estado e dá várias denominações a estas atuações. O intuito do autor é mostrar que a atuação do Estado é diferenciada nas sociedades capitalistas, variando segundo o grau de coordenação própria da sociedades na regulação da economia.
    6 Quem quisesse adentrar o complexo tinha que obter uma cota abandonada ou inativa, já que, de maneira geral, era proibida a formação espontânea de unidades produtoras. Assim, ter acesso a uma cota outorgada pelo Estado passou a ser imprescindível para viabilizar os investimentos no complexo. O IAA estabeleceu o controle de preços em função da concorrência entre São Paulo e Nordeste e das relações atribuladas entre usineiros e fornecedores de cana.
    7 O açúcar brasileiro é exportado para os E.U.A sob o sistema de cotas anuais estabelecidas por aquele pais.
    8 Resultado da união de duas cooperativas regionais que haviam sido criadas no início da década.
    9 Excluíam a montagem de destilarias com uso de máquinas e equipamentos importados para incentivar a produção interna de máquinas e equipamentos
    10 O álcool anidro é adicionado à gasolina e o hidratado é usado para mover motores ciclo Oto.
    11 Vian (1997), Datagro, Unica
    12 Ver COPERSUCAR (1988) e Vian(1997).
    13 Apesar das medidas concentracionistas do IAA antes referidas.
    14 Moreira (1989), Vian (1997), Ramos (1983).
    15 Aparecem as embalagens de 1 Quilo, 5 quilos, e de 1 grama. Esta última é consumida por cafés, restaurantes e casas de Chá.
    16 Denominado Sucareto Light.
    17 A Usina Santa Elisa está alterando a sua razão social para Companhia Energética Santa Elisa.
    18 Como o do suco de laranja pasteurizado ou concentrado.