Terapias Equivocadas
Porque Apenas Dar Mais Recursos Para o FMI Não Resolveria a Atual Crise Financeira Na América Latina
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional e Economia Monetária e Financeira
Publicado pelo Estado de São Paulo em 08/09/98
Entre as opiniões de economistas brasileiros sobre o FMI relatadas por Sônia Racy, em sua coluna do Estado no domingo passado, apareceu com destaque a da incapacidade daquela instituição para lidar com a atual crise financeira internacional. Alguns ressaltaram a disponibilidade insuficiente de seus recursos e/ou a inadequação de seu enfoque diante dos mercados financeiros contemporâneos. Se está equivocada sua abordagem, mais dinheiro para o Fundo teria de se fazer acompanhar por mudanças em sua orientação.
A julgar pela atuação do FMI na Ásia, há de fato o risco de que o FMI tenha adquirido a mania de enxergar todas as crises financeiras externas de economias emergentes como repetição da crise da dívida externa pública latino-americana do início dos anos 80. Mesmo diante de números macroeconômicos relativamente robustos, como era o caso da Coréia, o Fundo insistiu em um pacote que continha, além de reformas estruturais no setor financeiro, um conjunto de medidas que parecia aplicável a casos de insolvência.
Compreende-se hoje, com relativa clareza, que havia uma tendência estrutural à inflexão no crescimento espetacular daquela região. Reconhece-se também que a combinação entre a desregulamentação financeira local, a disponibilidade de financiamento externo de curto prazo e as expectativas generalizadas de garantias governamentais implícitas para os tomadores de recursos suscitaram bolhas especulativas imobiliárias ou excessivos investimentos em capital fixo.
Por outro lado, com algumas exceções, isto não estava se configurando em uma deterioração de fundamentos macroeconômicos a exigir o pacote padrão do FMI. Em geral, não estavam presentes déficits públicos e externos em explosão, baixos níveis de poupança doméstica, inflação acelerada, apreciação cambial desmesurada e outros fatores similares que pudessem explicar o pacote de medidas macroeconômicas requerido pelo Fundo.
Conforme observado pelo Prof. Michel Aglietta, da Universidade de Paris X, durante um seminário organizado pelo Instituto de Economia da Unicamp e a Unctad (United Nations Conference on Trade and Development), na semana passada, dificilmente a desvalorização cambial média de 80% na região e a queda em mais de 50% no índice asiático de valores de ações, entre julho e dezembro do ano passado, poderiam ser explicados como mero ajuste em relação a fundamentos. Na verdade, a terapia do FMI acelerou a doença.
O erro básico foi o de não se reconhecer que a situação não seria normalizada com simples elevação de juros e a adoção do pacote-padrão do FMI, por parte dos devedores. Dada a presença do pânico contagioso entre os credores, predominante em relação à observação de fundamentos, o repasse de recursos aos asiáticos representou a chance de saída definitiva para muitos credores. O resultado foi mais deflações de ativos, mais saída de capital e a crise de liquidez para produtores locais, com estes ainda por cima às voltas com elevados juros locais.
No caso da América Latina nas duas últimas semanas, até o FMI tem reconhecido o conteúdo basicamente de contágio presente na saída de capital, após a moratória com desvalorização cambial da Rússia. Não ocorreu, em relação às economias maiores, qualquer fato macroeconômico novo que pudesse explicar o súbito êxodo de capital. Neste contexto, uma repetição do pacote asiático poderia ter efeitos ainda mais perversos, até porque os fundamentos macroeconômicos latino-americanos se mostram ainda mais frágeis.
O que resta a fazer então? Esperar que a eventual manutenção ou redução de taxas de juros nos Estados Unidos e na Europa dê conta de acalmar os mercados? Torcer para que medidas governamentais nos emergentes convençam os credores de que vale a pena apostar nos fundamentos locais?
Diante da desconfiança do Congresso dos Estados Unidos em relação à competência do FMI, face ao fracasso do ajuste na Ásia e o calote perpetrado pela Rússia após receber recursos do exterior, nem mesmo a atual exaustão financeira do Fundo deverá ser contornada. Mesmo que viesse a receber novos recursos, possivelmente sua disponibilidade estaria ainda mais condicionada a exigências sobre os países envolvidos.
Os equívocos da terapia para os emergentes asiáticos, no entanto, poderiam servir para reflexão no presente caso latino-americano. Nem tudo se resume a condicionalidades de ajuste sobre devedores. O pânico pode ser detido mediante suporte direto de bancos centrais dos países credores a grandes intermediários financeiros, de modo a permitir que cumpram seu papel de agüentar as ondas unidirecionais de venda por parte dos detentores de títulos de países emergentes. Problemas de risco moral por parte destes intermediários, ou seja, de descumprirem com o acordado, podem ser enfrentados mediante cooperação ou atuação unilateral de bancos centrais dos países avançados.
Interesse há para tanto. A queda em bloco latino-americana elevaria substancialmente a probabilidade de recessão mundial. Controles de capital, o recurso que se tornaria inevitável para os emergentes latino-americanos em caso de continuidade da atual evasão de capital, também não empolgam as economias avançadas. Portanto, a atuação de bancos centrais como emprestadores em última instância junto a um número seleto de intermediários financeiros globais, indo além da mera administração de suas taxas de juros domésticas, parece ser uma saída necessária e desejável. Este é, porém, um tipo de responsabilidade dificilmente transferível para organismos multilaterais. O FMI está fora.