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    Ainda Sobre a Reforma Agrária
    Autor: Ademar Ribeiro Romeiro e Antonio Márcio Buainain
    Assunto: Economia Agrícola

    Em artigo publicado recentemente no Estado o ex-presidente do Incra, Francisco Graziano, lançou um forte questionamento ao programa de reforma agrária do atual governo e defendeu uma nova concepção de reforma agrária. Segundo ele, o desafio da reforma agrária não reside na quantidade e sim na qualidade. Neste particular os resultados teriam sido medíocres, com a lamentável favelização da zona rural. Como os assentamentos vem sendo implementados sob pressão das invasões, e os assentados são recrutados pelos movimentos sociais sem qualquer critério de qualificação e aptidão para o trabalho rural, o resultado produtivo é pífio. Mesmo reconhecendo que a produção agropecuária dos assentamentos nunca foi bem aquilatada, conclui que "definitivamente a produção não é o forte da reforma agrária brasileira" e que os assentados "espalhados pelo país afora praticam uma agricultura quase ao nível da subsistência".

    Outro problema levantado é o do custo (R$ 30 mil por família), que estaria onerando demais a sociedade devido ao seu retorno insignificante. Para o deputado eleito, seria melhor oferecer esse valor em forma de um salário mínimo mensal durante vinte anos.

    Não há dúvidas que o modelo atual precisa ser repensado. Ainda assim, tanto a análise como parte das propostas defendidas por Francisco Graziano merecem fortes reparos. O primeiro diz respeito aos custos efetivamente incorridos pelo Governo federal com a implantação destes assentamentos.

    Estimativas dos Custos Médios por Família
    (US$ de dezembro de 1997)

    REGIÃO

    CO

    NE

    N

    SE

    S

    BRASIL

    Custo Total de Aquisição da terra

    15.496,60

    4.700,81

    6.200,64

    49.563,22

    20.382,10

    9.625,46

    Custo Infraestrutura

    7.335.74

    2.581,28

    1.140,83

    1.627,66

    1.956,41

    2.379,45

    Custo Crédito Implantação

    1.096,29

    1.278,18

    116,71

    898,76

    1.776,43

    658,83

    Custo Crédito Procera

    2.021,80

    4.864,12

    795,11

    5.411,97

    4.979,63

    2.408,02

    Custo Total (CS1 por família)

    25.950,43

    13.424,39

    8.253,29

    57.501,60

    29.094,57

    15.071,77


    Obs.:
    1) Faltaria ainda acrescentar os custos administrativos da Reforma Agrária, o que aumentaria o custo total entre 5 a 10 %.
    2) Os custos para o Brasil são uma média ponderada pelo número de famílias assentadas do universo em cada Região.
    3) CS1 = Custo Total de Aquisição da Terra + Custo Infra-estrutura + Custo Crédito Implantação + Custo Crédito Procera.
    4) Para o cálculo do Custo de Aquisição da Terra foram considerados os juros (6 % ao ano) dos TDAs de acordo com cada prazo de resgate dos projetos de assentamento da amostra.

    Segundo pesquisa recente do Convênio FAO/Incra, o custo médio de implantação de uma família ficou em torno dos U$ 15.000. Excetuando o caso absurdo da região Sudeste, onde o custo alcançou US$ 57.000 devido à força da "indústria" das desapropriações judiciais, nas demais regiões o preço pago pela terra reflete bastante bem os preços de mercado de cada região. Nas Regiões Norte e Nordeste, responsáveis por mais de 70% dos assentamentos nos últimos 4 anos, o custo por família foi de US$ 8.250 e US$ 13.500, respectivamente. Deve-se notar que este custo inclui uma série de gastos não específicos da Reforma Agrária, como educação, saúde, estradas. Ao corretamente assumir este "custo da cidadania", a Reforma Agrária, apesar dos inúmeros defeitos que devem ser corrigidos, é provavelmente o maior Programa de Formação de Cidadãos que este país já conheceu.

    O segundo reparo relaciona-se à situação econômica dos assentados. É certo que uma parte dos assentados, refletindo a situação de analfabetismo, pobreza e miséria que ainda hoje domina o meio rural brasileiro, não está qualificada para operar as tecnologias de vanguarda nem negociar na Bolsa de Chigaco. Ainda assim, os resultados alcançados estão longe do fracasso. Desde 1996 o Convênio FAO/Incra vem realizando estudos em todas as regiões para idenficar e avaliaros principais sistemas produtivos adotados nos assentamentos de reforma agrária. Os resultados revelam dados interessantes sobre a sustentabilidade dos sistemas de produção desenvolvidos nos assentamento. Na Região Sul o sistema dominante é o Sistema soja/aveia/trigo+suino associado ou à pecuária mista ou à erva mate. A renda monetária líquida auferida pelos assentados oscilava entre R$ 9.950 até R$ 12.971 por família/ano. Nesta mesma região existem assentados que ainda não superaram o sistema mais simples (milho+criações associado com feijão ou erva mate), que gera renda líquida em torno de R$ 1.630 família/ano.

    No Centro-Oeste foram registrados desde sistemas mais desenvolvidos, como o soja/milho mecanizado, com rendas de aproximadamente R$ 11.540 família/ano, até sistemas mais simples baseados na pecuária leiteira semi-artesanal, gerando renda de aproximadamente R$ 3.200 família/ano.

    A situação do Nordeste é mais crítica. Ao lado de assentamentos com sistemas baseados na fruticultura irrigada mais gado+inhame (sul da Paraíba), gerando renda de aproximadamente R$ 17.724 família/ano, encontra-se um grande número de assentados praticando sistemas tradicionais, com rendas monetárias baixas (em torno de R$ 1.200 família/ano).

    Em São Paulo, o sistema da pecuária leiteira associado a culturas anuais e perenes permitiu aos assentados alcançar um nível de renda agropecuária líquida bastante alto (R$ 15.641 família/ano). Também se registram casos de agricultura de subsistência associados a venda de gado cuja renda não supera R$ 2.000 família/ano.

    Na região Norte os casos de rendas mais altas estão ligados às culturas anuais associados à pecuária de corte, com renda monetária líquida de R$4.241 por família/ano. Os de menor renda restringiram-se à pecuária de corte ou a apenas uma cultura anual (R$ 1.513). Todos estes estudos estão disponíveis na internet para uma apreciação mais detalhada dos interessados (http://incra.gov.br/fao/public.htm).

    Pesquisas anteriores sobre a agricultura familiar brasileira já haviam demonstrado que mesmo os assentados mais antigos da reforma agrária, os quais tiveram pouco apoio, conseguiram superar o grupo de renda mais baixo da agricultura familiar (grupo "C"), encontrando-se atualmente entre os grupos "A" e "B".

    Por si só estas informações demonstram que, apesar dos problemas, a maior parte dos assentados da reforma agrária têm sido capazes de desenvolver sistemas produtivos suficientemente eficientes para superar o custo de oportunidade do trabalho dado por empregos alternativos fora do seu entorno ou nos centros urbanos. Embora muitos beneficiários mal consigam manter-se em um nível de subsistência, este resultado não pode ser desprezado por várias razões. Primeiro porque a alternativa seria a migração para a periferia urbana, sem qualquer perspectiva de inserção produtiva e cidadã. Segundo porque a maioria destes assentamentos encontra-se em terras quase imprestáveis, inacessíveis, muitas vezes abondonadas por grandes empresas após a colheita dos incentivos fiscais, subsídios crediticios e da valorização patrimonial. Em terceiro por que este é o nível de vida dos trabalhadores e agricultores familiares nestas áreas.

    Estes fatos mostram que o dinheiro gasto com a reforma agrária não foi apenas um paliativo social, já que a maior parte dos beneficiados logrou iniciar um processo produtivo sustentável que vem permitindo uma reinserção produtiva e honrosa no sistema econômico e na sociedade. Considerando ainda um número médio de tres trabalhadores por família assentada, a Reforma Agrária realizada até agora significou a criação de centenas de milhares de empregos ao custo de R$ 5.000,00 cada, ou seja de pelo menos dez vezes menor, do que o custo (R$ 50.000,00, no mínimo) da criação de um emprego no setor urbano-industrial.

    O que há de errado então com este modelo de reforma agrária? Certamente muita coisa! Vejamos o que nos parecem ser alguns pontos críticos. O modelo adotado carrega o vício dos programas concebidos nos anos 60, em plena vigência do regime militar: fortemente centralizado no Incra, paternalista e autoritário. É um modelo que até poderia funcionar em pequena escala, mas que certamente não consegue responder à velocidade e intensidade da demanda atual por desenvolvimento agrário. Apesar dos progressos registrados nos últimos anos, o sistema é incapaz de antecipar-se à demanda social, o que vem transformando a reforma agrária em uma sucessão de intervenções emergenciais, com pouco planejamento prévio. Esta dinâmica implica passar por cima de critérios de seleção de terras e de beneficiários. Nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste existem cerca de 50 milhões de hectares de terras ociosas ou subutilizadas, de boa qualidade e com infraestrutura, as quais poderiam e deveriam ser incluídas em qualquer plano de democratização do acesso à terra. O mecanismo de arrecadação e distribuição de terra (desapropriação e assentamento) do atual modelo tampouco é eficiente para responder à atual demanda e por isto deveria ser complementado, como já vem sendo feito, por outros instrumentos, tais como: crédito fundiário, projetos privados de colonização, medidas fiscais etc.

    Finalmente, concordamos que seja importante e imprescindível estímular a criação de empregos rurais não agrícolas, especialmente no contexto atual, marcado pelo desemprego estrutural e conjuntural. Tal proposta não substitui uma política de restruturação agrária. O emprego rural não agrícola num país que ainda conta com cerca de 22% da população ativa no campo é gerado principalmente nas atividades de apoio e transformação da produção agrícola. É preciso evitar cometer novamente o erro dos anos 70, quando se impulsionou a modernização conservadora como solução final para a questão agrária. Vinte anos depois o Brasil continua registrando um dos maiores índices de desigualdade na distribuição de terra e social em todo o mundo. E, ao contrário do que se dizia, a concentração de renda e da propriedade da terra não são funcionais para o crescimento econômico, mas sim um entrave, como recentemente constatou um estudo do Banco Mundial sobre 77 países. É certo que a migração é inevitável; mas o desafio atual é calibrar e redirecionar este fluxo para áreas com capacidade de absorção e isto não pode ser feito sem uma redistribuição do ativo terra e um pesado investimento no homem e na interiorização do desenvolvimento. A menos que seja possível montar uma fábrica em cada vila, não há desenvolvimento local sem a criação de uma próspera agricultura de base familiar.

    Neste contexto, usar contra a reforma agrária o argumento de que o crescimento das ocupações rurais não agrícolas é inevitável em detrimento das ocupações estritamente agrícolas é pelo menos enganador. Sem dúvida isso ocorreu nos EUA e na Europa. Oxalá cheguemos um dia a esta realidade, onde apenas 5% ou menos da população economicamente ativa trabalha em atividades estritamente agrícolas. Só que no meio tempo é preciso criar as condições para que esse processo se faça de modo equilibrado. Para tanto, é necessario aumentar tanto as oportunidades de emprego estritamente agrícolas, através da reforma agrária e do fortalecimento e ampliação da agricultura familiar, como as demais oportunidades de emprego rural, que em parte dependem das primeiras.