Bananas
Cumpre Estar Alerta Contra o Transbordamento do Eventual Surto Protecionista Norte-Americano
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica e Economia Internacional
Publicado pelo Estado de São Paulo em 17 de novembro de 1998
Os Estados Unidos anunciaram a possibilidade de colocar tarifas punitivas de 100%, a partir do ano que vem, sobre uma lista de dezenas de importações da União Européia (UE). A lista é ampla, incluindo itens que vão de malas a vinhos, sucos de frutas, canetas esferográficas, aspiradores de pó, papel, brinquedos, acessórios para iluminação, bolos etc.
O volume de vendas européias naqueles itens, em 1997, foi de US$ 1,63 bilhão. Pouco em relação aos US$ 320 bilhões comercializados entre a União Européia e os norte-americanos. Preocupante, porém, é a abertura da temporada de pressões protecionistas nos Estados Unidos, representada no episódio.
A alegação norte-americana é a de que a UE não levou a sério uma determinação da Organização Mundial de Comércio (OMC), de acordo com a qual a política de importações de bananas pelos europeus estaria em conflito com as normas do comércio mundial. As bananas de ex-colônias européias no Caribe estariam entrando na Europa com privilégios em relação às congêneres da América Latina.
Não se trata de alguma iniciativa de defesa de interesses comerciais de terceiros. O novo regime de quotas de importação de bananas, estabelecido pela UE como resposta à OMC, estaria prejudicando distribuidoras americanas de bananas, cuja base de fornecimento corresponde a áreas com vendas potenciais maiores que os respectivos tetos.
De qualquer modo, diante da real importância das bananas para a economia norte-americana, compreende-se porque os europeus argumentaram ser desproporcional a reação dos Estados Unidos. Aparentemente, há mais do que bananas ao sul da fronteira em questão e estas estão servindo de estopim para o atendimento a demandas protecionistas diversas dentro do país.
Com efeito, na semana passada, o presidente Clinton declarou que seu país não seria escoadouro para invasão de produtos baratos da Ásia e da Rússia. Seu secretário do comércio, William Daley, completou dizendo que os Estados Unidos não seriam "o quarto de despejo de economias problemáticas".
Clinton destacou o aço, cujas importações com dumping estariam pondo em risco os empregos domésticos no setor. A declaração veio alguns dias depois de um encontro, na Casa Branca, com trabalhadores e executivos da siderurgia. Mas fabricantes de máquinas-ferramenta, semicondutores e autopeças também têm se queixado dos preços excessivamente baixos da concorrência externa. Espera-se que não venham a firmar um novo estilo de encontros na Casa Branca.
O triângulo envolvendo norte-americanos, asiáticos e europeus era razoavelmente esperado. Depois da queda acentuada nas moedas da Coréia do Sul, Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas, acompanhando a saída de capital e a crise financeira nestes países, o resultado imaginável seria uma reversão em seus saldos comerciais, como parte de seu ajuste macroeconômico. Inicialmente, a mudança de sinal em seu comércio ocorreu com a redução drástica de importações. Pouco a pouco, porém, com o restabelecimento de mecanismos de financiamento à produção, as exportações começaram a se insinuar de volta no exterior, às custas de violenta deterioração nos termos de troca daqueles países.
A depressão na economia japonesa colocou inevitavelmente as grandes economias ocidentais na alça de mira. Estimativas apresentadas por Marcus Nolland e outros, em um trabalho publicado em julho passado pelo Institute for International Economics, apontavam para uma deterioração em torno de US$40-50 bilhões no saldo comercial anual dos Estados Unidos, como conseqüência da crise asiática. Arriscaram prever que o impacto sobre a Europa seria ainda maior. Tudo isto em termos nominais, o que equivale a dizer muito mais em quantidades físicas, quando descontamos a deflação de preços em dólar dos produtos asiáticos.
Na verdade, a economia norte-americana apresentou-se como o grande absorvedor de fato. No terceiro trimestre deste ano, suas exportações caíram em 2,9% anualizados, depois de terem sofrido quedas também nos dois anteriores. As importações, por outro lado, aumentaram 3,4%.
Durante esse tumultuado terceiro trimestre, em meio à baixa em Wall Street, a moratória da Rússia, o aperto de crédito e tudo o mais, o PIB anualizado dos Estados Unidos cresceu ao ritmo de 3,3% em relação ao anterior, superando a expectativa de 2,2%. Mesmo com a expansão geral, contudo, as tendências no comércio com a Ásia vêm gerando queixas pesadas por parte de alguns ramos específicos.
O G-7 conseguiu, em conjunto, costurar o fundo de contingência para países afetados pela turbulência financeira internacional, bem como a capitalização em US$ 90 bilhões do FMI. Agora os Estados Unidos demandam que a contribuição em termos de mercados à disposição das "economias problemáticas" seja repartida entre os membros. Inscrevem-se aí as ameaças sobre o aço da Rússia e da Coréia e sobre os vinhos franceses, atendendo a pressões domésticas.
Poderia a elevação do protecionismo norte-americano sobre produtos asiáticos favorecer sua substituição por concorrentes da América Latina? Afinal, segundo estudo de R. E. Saez, do BID, cerca de 57,8% das exportações da América Latina para os mercados da OCDE estavam, em março deste ano, potencialmente na rota de colisão competitiva com os países da Ásia que desvalorizaram suas moedas. No caso dos produtos manufaturados, o percentual era menor, de 36%.
Contudo, o processo movido pelas empresas siderúrgicas norte-americanas junto ao Departamento de Comércio em seu país, conclamando haver grandes danos provocados pelas importações, incluíram Coréia, Rússia e... Brasil. Independentemente de ter êxito a reclamação da siderurgia brasileira por estar arrolada, haja vista não ter ocorrido nenhuma desvalorização cambial acentuada e o aço subsidiado ser coisa do passado, vale o alerta quanto ao fato de que o protecionismo também é contagioso. Desse jeito, não é um bom negócio a defesa das bananas latinoamericanas pelos Estados Unidos.