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    O Caroço de Abacate Japonês
    Impasse na Política Econômica Japonesa Parece Refletir Algo mais que Resistência à Realidade
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira
    Publicado pelo Estado de São Paulo em 24 de março de 1998

    Durante discurso pronunciado em Nova York, em 16 de janeiro, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve Board, interpretou a crise asiática como um "replay" mais modesto da queda do muro de Berlim em 1989. Depois da vitória final contra as economias centralmente planificadas do Leste Europeu, o desmonte do "capitalismo mercantilista" asiático seria outra manifestação da força do "capitalismo de mercado" ocidental.

    Em discurso anterior (02/12/97), Greenspan já havia manifestado a opinião de que sistemas com forte dirigismo estatal podem produzir alto crescimento por um certo tempo, enquanto existir defasagem entre tecnologias locais e padrões mundiais, como na União Soviética nos anos 60 e 70 e no Sudeste Asiático nas décadas dos 80 e 90. À medida que tal defasagem desaparece, continuou Greenspan, cai também a capacidade de manejo, pelos governos, de economias cuja sofisticação se torna crescente.

    O mercantilista-mor asiático, o Japão, parece prostrado. Estimativas apontam para uma contração no PIB este ano. Isto depois de ter sua taxa de crescimento se mantido em torno de 1-2% nesta década, em contraste com os 3-4% dos anos 80. Seu sistema financeiro permanece à beira de um colapso, a despeito das injeções governamentais de recursos.

    No exato momento em que o resto-do-mundo pressiona por maior crescimento japonês, para ajudar na resolução da crise asiática, seus instrumentos de gestão macroeconômica mostram-se ineficazes. Suas taxas de juros já vêm baixas desde o início da década. As reduções de tributos não conseguem induzir a aumento de gastos privados, em decorrência dos temores quanto a desemprego e queima futura de riqueza. Além disso, cerca de 22% do orçamento nacional estão hoje comprometidos com o serviço da dívida pública, depois de mais de US$ 580 bilhões terem sido injetados através de medidas de emergência entre 1992 e 1995. Para piorar, ao déficit público - em torno de 7% do PIB no final do ano passado - se somam ampliações no passivo previdenciário.

    Como é que o paradigma de outrora se meteu nessa embrulhada financeira? As origens desta remontam à "economia das bolhas" da segunda metade dos anos 80. Depois da liberalização dos mercados financeiros em 1984, baixas taxas de juros e a euforia de então foram responsáveis pela formação de bolhas especulativas nos mercados acionário e imobiliário locais, estouradas respectivamente em 1989 e 1992. Para se ter uma idéia de magnitudes, basta observar que o índice Nikkei da bolsa de Tóquio está hoje em um patamar 60% inferior ao pico de 1989 - enquanto o índice Dow-Jones subiu 200% no período. Por seu turno, os valores de propriedades imobiliárias estão hoje em média 80% inferiores aos de 1992.

    A estratégia adotada no Japão foi empurrar com a barriga. Um diferencial entre baixíssimas taxas de juros locais e os ganhos com aplicação no exterior - títulos do Tesouro americano e aplicações nos vizinhos asiáticos - deveriam permitir a paulatina recomposição patrimonial dos agentes financeiros às voltas com os créditos podres herdados das bolhas. Minimizar o ônus em termos de queima patrimonial tornou-se a palavra de ordem. Exemplo disto foi o fato de que o aprivisionamento bancário de reservas para ativos duvidosos só começou a existir em 1995. A crise financeira na vizinhança, no ano passado, aumentou o tamanho do caroço de abacate cuja absorção já vinha dolorosamente se estendendo durante a década.

    O paradoxo em relação à idéia de vitória dos mercados aludida por Greenspan é o de que as bolhas assassinas japonesas nasceram justamente em seguida à desregulamentação financeira de 1984! Por outro lado, argumenta a revista The Economist esta semana, o desastre teria se originado do caráter meia-sola daquela reforma. Sem quebra das ligações íntimas entre bancos, empresas industriais e burocracia estatal que sempre diferenciaram o modelo japonês do padrão anglo-saxão, o resultado da desregulamentação teria sido a propensão aumentada a assumir riscos exagerados, com a expectativa de permanência do guarda-chuva protetor do Estado. Segundo essa revista, até a Rússia está hoje em dia menos regulamentada que o Japão.

    Acelerar o big bang de reformas financeiras anunciadas pelo governo em direção a padrões ocidentais de relacionamento entre o governo, agentes financeiros e não-financeiros, com maior presença competitiva inclusive de agentes externos. Desarmar a burocracia estatal. Além dessas prescrições, The Economist chega a ver funcionalidade em um eventual colapso bancário que venha a definitivamente romper o atual impasse. Segundo esta revista, não haverá retorno de confiança financeira no Japão enquanto não ocorrer a queima de riqueza excedente e fictícia, ainda que esse clearing out venha a significar o fechamento de 50% dos bancos, corretoras e companhias de seguro.

    A paralisia japonesa e a recusa a aceitar os termos de rendição à la Greenspan parecem refletir algo mais que resistência isolada por parte de grupos de interesse. Freqüentemente aparecem menções sutis aos US$ 320 bilhões em títulos do Tesouro dos Estados Unidos detidos por bancos e companhias de seguro do Japão, títulos cuja liquidação em massa certamente exerceria impacto desastroso sobre o mercado monetário internacional.

    Se tomarmos o famoso documento Made in Japan como expressão do que pensa o mundo industrial japonês, vamos lá encontrar uma convergência de idéias com Greenspan quanto ao fim da era de absorção criativa de tecnologia do exterior. No entanto, para a transição à situação de liderança tecnológica e à convivência com o mundo sofisticado das inovações financeiras, o documento defende a manutenção de relações cooperativas e o retorno de elos não-especulativos entre bancos e indústria. Entende-se então a resistência japonesa quanto a engolir o caroço de abacate...