Na Garra ou Na Marra
Moeda Européia Exercerá Impactos Diferenciados Sobre as Relações Econômicas Externas da América Latina
Autor: Otaviano Canuto
Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional e Economia Monetária e Financeira
Publicado pelo Estado de São Paulo em 29 de dezembro de 1998
Na próxima semana, o euro estreará no cenário internacional. Exercerá impactos significativos sobre as economias latino-americanas?
As opiniões se dividem. Euro-indiferentes acham que, no próximo decênio, os efeitos da moeda européia estarão limitados à própria área e, no máximo, à Europa Oriental, o Norte da África e o Oriente Médio. Por seu turno, euro-entusiastas imaginam, já para os anos a seguir, amplas oportunidades comerciais ou financeiras abertas pela nova moeda para as economias da região.
Na verdade, a resposta depende do que se estiver olhando. As prováveis conseqüências do euro serão distintas em cada uma das esferas das relações econômicas da América Latina com o exterior. Senão, vejamos.
Antes de tudo, o euro implicará um choque de eficiência sobre o próprio sistema monetário-financeiro da correspondente área monetária unificada. A eliminação definitiva do risco cambial e de outros custos de transação intensificará a integração, a profundidade e o fôlego dos correspondentes mercados financeiros. Pode-se presumir tanto uma redução em seus custos de obtenção de liquidez, como a economia de recursos hoje empregados na arbitragem financeira, no hedge cambial e nas próprias transações.
Certamente, tais ganhos de eficiência se materializarão mediante um redesenho do sistema financeiro europeu, através de intenso processo de fusões e aquisições. Resta ver se a destruição de postos de trabalho poderá ser mais ou menos compensada pelo provável aumento no nível de atividade financeira ou em outras eventualmente beneficiadas pela unificação.
Desaparecendo os custos de transação cambial, diminuirão também os custos equivalentes no comércio intra-regional, favorecendo a integração e o acirramento da concorrência nos mercados de bens e serviços. O saldo final do processo, em termos de crescimento e emprego, dependerá da inclinação expansionista ou conservadora a prevalecer no conjunto convergente de políticas macroeconômicas, além é claro das eventuais restrições colocadas pela conjuntura no resto-do-mundo.
Há grandes dúvidas sobre o resultado do euro em termos de oportunidades de exportação para a América Latina. Por um lado, as previsões quanto à taxa de câmbio euro-dólar convergem crescentemente em apontar para uma valorização no longo prazo da primeira moeda, o que reforçaria a competitividade das economias com taxas cambiais atreladas à segunda. A valorização do euro decorreria da eliminação de dúvidas quanto à credibilidade do cronograma de implantação, bem como do maior poder gravitacional de recursos que será exercido pelo sistema financeiro local com eficiência aumentada, além da busca de diversificação pelos portfólios globalizados.
O cenário otimista quanto às oportunidades comerciais também conta com políticas fiscal e monetária expansionistas na área unificada. Por outro lado, há sempre a possibilidade de que o protecionismo europeu seja acionado como política de defesa do emprego doméstico.
Sobre o que poucos têm dúvida, é com relação ao robustecimento dos mercados de ativos em euro. Maior eficiência permitirá sua operação com menores spreads entre captação e aplicação. Com isto, poderão oferecer maior rendimento a aplicadores sem que isso seja incompatível com redução nas taxas cobradas a tomadores de recursos.
Portanto, para a América Latina coloca-se de fato a possibilidade de substituição relativa de ativos de prazo mais longo, em detrimento do dólar, com eventual melhora nos termos do binômio volume/preço dos fluxos de recursos externos para a região. Afinal, não apenas tende a tornar-se mais barata e atraente a emissão de títulos nos mercados de euro-bonds, como o funding de investimentos diretos estrangeiros poderá dispor de fontes européias com custos menores que seus atuais.
Os euro-entusiastas ressaltam adicionalmente o fato de haver um descompasso entre os volumes de comércio e de fluxos financeiros entre a Europa e a América Latina. No caso do Brasil, por exemplo, enquanto 27% das exportações se dirigem à Europa, apenas 10% das dívidas estão denominadas em moedas européias. Isto a despeito de mais da metade dos investimentos diretos externos no país ser de origem européia.
Contudo, aí o argumento dos euro-indiferentes ganha força. No tocante a fluxos financeiros de prazo menor, de cunho quase-monetário e vinculados à atividade comercial, a tendência de substituição relativa do dólar é menor.
Tal substituição de moedas exigiria correspondentes atitudes por parte dos participantes no mercado interbancário global de crédito e estes, por sua vez, levam em conta a presença de um banco central como garantidor e emprestador em última instância. A substituição relativa do dólar pelo euro suporia uma atuação com muita garra do Banco Central Europeu (BCE) em tal direção, com envolvimento eqüivalente ao apresentado pelo Federal Reserve e pelo governo dos Estados Unidos nos fluxos de capital para a América Latina. Este, porém, seria um passo muito além da concorrência entre mercados de capitais e das prioridades européias no futuro próximo.
Mencionando as flutuações cambiais entre o euro e o dólar, euro-entusiastas falam das vantagens de diversificação na composição das reservas oficiais na região. Por outro lado, euro-indiferentes podem observar que, enquanto instrumento de intervenção nos mercados, o perfil das reservas oficiais deve seguir aquele vigente no cotidiano dos mercados. A baixa probabilidade de substituição de moedas nas operações privadas nos próximos anos, neste sentido, obstaculizaria a imposição na marra do euro como veículo de intervenção.
Enfim, o euro deverá logo exercer impactos sobre os fluxos de capital de horizonte temporal mais largo, mantendo um perfil baixo quanto às transações monetárias. Sobre o comércio, por outro lado, as dúvidas predominam.
Agora, por falar em garra do BCE e em introdução na marra do euro, a única previsão firme mesmo é a de que os europeus não poderão ficar indiferentes em relação ao Brasil, em Tóquio no ano que vem, se o Corinthians continuar jogando como o fez na final do brasileiro. Em nome do Mercosul ou de qualquer outra coisa: fica, Gamarra!