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    Alinhamento Zodiacal
    Economistas e Executivos Agora Concordam Quanto à Desaceleração no Crescimento Norte-Americano
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional e Economia Monetária e Financeira
    Publicado pelo Estado de São Paulo em 12 de janeiro de 1999

    Nos últimos anos, a grande maioria dos analistas tem sistematicamente errado em suas previsões quanto ao crescimento econômico dos Estados Unidos. A cada final de ano desde 1995, aparecem projeções de crescimento girando em torno de 2% para o período seguinte. Para serem superadas por taxas efetivas de 3,5% ou mais.

    Para o ano em curso, taxas previstas em torno de 2% mais uma vez têm sido a norma. Dessa vez, afirma-se, não haverá erro na profecia de desaceleração. Será?

    Um elemento novo a reforçar a profecia é a mudança no humor dos executivos norte-americanos quanto a 1999. A edição com data de ontem da Business Week noticia os últimos resultados de sua pesquisa anual efetuada junto a altos executivos de grandes empresas. Examinando-se em detalhe os dados coletados desde 1993 – disponíveis em sua homepage – constata-se, de fato, uma mudança nas expectativas.

    Por exemplo, cerca de metade dos entrevistados espera uma queda no crescimento norte-americano, parcela de pessimistas cujo máximo nos cinco anos anteriores havia alcançado 29% em 1997. No tocante ao desemprego, nada menos do que 57% prevêem seu aumento, enquanto a fatia correspondente nas versões anteriores da pesquisa atingiu um topo de 35% em 1995.

    Talvez ainda mais sintomático da alteração de ânimo seja o percentual sem precedentes de 35% para os executivos que trabalham com a expectativa de reduzir seus próprios empregados em tempo integral. Também com antecedentes sempre em patamares mais baixos estão os 22% que planejam reduzir gastos com equipamentos e instalações.

    Aparentemente, há agora um alinhamento zodiacal entre expectativas empresariais e as profecias de desaceleração de economistas. Que passa com os astros?

    O principal fator subjacente ao fracasso do horóscopo econômico dos últimos anos tem sido o surpreendente círculo virtuoso – ou vicioso, para outros – entre a valorização desenfreada nos mercados de capitais dos Estados Unidos e uma orgia de gastos das famílias norte-americanas. A expansão nos mercados domésticos sustenta a vertiginosa subida nos preços de ações. Por seu turno, esta elevação alimenta o patrimônio em ações das famílias e das próprias empresas, inclusive o voraz apetite por fusões e aquisições destas últimas.

    Conforme observado recentemente aqui no Estado por Robert J. Samuelson, no ano passado o índice de 500 ações da Standard & Poor’s havia aumentado até o natal em 27%, isto depois dos 31% em 1997, 20% em 1996 e 34% em 1995. Enquanto isso, os fluxos de poupança das famílias caíram a zero em 1998, ao passo que seus níveis normais anteriores variavam entre 4% e 6% de sua renda disponível. Com a sensação de enriquecimento patrimonial no lado dos ativos financeiros, o conjunto das famílias encarou um aumento na carga do serviço de sua dívida até o patamar atualmente entre 15% e 18% de sua renda disponível.

    O circuito alegre entre consumo, mercados domésticos e valorização acionária não explica tudo. Pelo menos em um aspecto, pouco ressaltado nas análises, a crise financeira dos mercados emergentes favoreceu temporariamente aquele processo.

    É verdade que houve queima de riqueza patrimonial norte-americana no exterior com a crise, assim como o baque dos fundos de hedge ameaçou provocar uma deflação de ativos e a contração de crédito. Da mesma forma, o encolhimento dos mercados emergentes tem representado um golpe sobre produtores norte-americanos, tanto no lado das exportações quanto da concorrência externa nos mercados locais.

    Por outro lado, a permanência ou “fuga para a qualidade” dos recursos líquidos restantes também se dirigiu parcialmente para os mercados de capitais dos Estados Unidos e não apenas para os títulos do Tesouro. Os atuais coeficientes médios de preço-lucro das ações Standard & Poor’s em torno de 32, sem precedentes, manifestam uma hiper-reação especulativa não só diante da euforia de gastos domésticos, como do amargo regresso de aventuras em territórios emergentes.

    Exaurido o efeito do regresso financeiro, tende a ganhar peso o efeito da crise através do comércio externo. As projeções indicam crescimento negativo na América Latina e, de novo, no Japão. Ainda que o resto da Ásia possa expandir-se em quase 2% e a Europa manter-se acima deste patamar, as previsões de crescimento para a economia mundial fora dos Estados Unidos apontam em média para 0,8% durante 1999.

    Não por acaso, espera-se um aumento no déficit comercial norte-americano para nível acima de US$ 300 bilhões. Se ao impacto disso sobre os lucros empresariais somar-se alguma parada para respirar pelos frenéticos consumidores domésticos, decerto o frenesi nas bolsas e o crescimento econômico também darão um tempo.

    Não se trata, de qualquer forma, de um inferno zodiacal à vista para os locais. Os índices de inflação estão em níveis comparáveis aos dos anos 60, enquanto os aumentos salariais reais em torno de 2,5% ao ano têm acompanhado os incrementos de produtividade.

    Portanto, abre-se margem para Alan Greenspan, presidente do Fed, manter sua atual popularidade, mediante juros baixos. No lado fiscal, também há uma folga não imaginada até poucos anos atrás. Espera-se, portanto, que a provável desaceleração norte-americana não venha a piorar o baixo astral do horóscopo chinês e asiático, bem como do latino-americano, todos com desejo de participar da orgia nos mercados dos Estados Unidos.