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    Baywatch
    Ritmo da Economia Mundial Depende Hoje da Exuberância Irracional das Bolsas e do Consumo das Famílias nos Estados Unidos
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional e Economia Monetária e Financeira
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 06/04/99

    A América ocupa sozinha todas as telas. A CNN reina na televisão, Hollywood no cinema, a Internet tem sotaque americano e o software da Microsoft equipa nove em cada dez microcomputadores no mundo. Assim Sophie Gherardi descreveu, no Le Monde (10/02/98), a posição atual dos Estados Unidos.

    Como a paisagem humana da Califórnia mostrada na tela de TV em Baywatch, um dos seriados de sucesso nos Estados Unidos e exibido no Brasil, sua economia tem exibido jovialidade e opulência. A pujança se manifesta no fato de que a atual taxa de desemprego abaixo de 4,5% tem como sua parceira uma inflação anual em torno de 1,6%.

    Se a economia norte-americana mantiver seu ritmo aeróbico durante os próximos dez meses, baterá seu recorde dos anos 60, quando cresceu ininterruptamente por 106 meses. O alongamento da expansão já está no mês de número 97. No último biênio, somou mais de 8% de incremento no PIB.

    Até o presente momento, a crise financeira das economias emergentes talvez tenha mais suprido do que queimado proteínas da economia norte-americana, pelo menos de dois modos. Em meados de 1997, quando a inflação ameaçava acelerar o passo, recebeu uma conveniente ducha de água fria propiciada pela queda nos preços globais das commodities, a partir da crise na Ásia. O barateamento de importações e de insumos facilitou a acomodação de salários crescentes na economia.

    Além disso, elevou-se a parcela dos excedentes de liquidez em escala global refugiados nos mercados financeiros norte-americanos, o que intensificou a excitação destes. O refúgio é um dos determinantes do fato de que, no primeiro semestre de 1998, os investidores estrangeiros adquiriram um volume líquido recorde de US$ 82 bilhões de ações nos Estados Unidos, enquanto as marcas anuais de aquisição oscilaram entre US$ 10 e US$ 20 bilhões na primeira metade da década. Conforme dados reportados aqui no Estado no dia 8 de fevereiro passado, o capital estrangeiro investido em ações, títulos de renda fixa e outros títulos não emitidos pelo governo dos Estados Unidos saltou de US$ 57 bilhões, em 1994, para US$ 228 bilhões em 1998.

    Segundo David Hale, economista-chefe da Zurich Financial Services, de Chicago, os mercados de ações nos Estados Unidos vêm oferecendo algo como um retorno anual médio de 18,4% nos anos 90. Deste rendimento, mais da metade se explica não pelo crescimento dos lucros das empresas, mas sim a partir da elevação nos índices de preços/lucros. A atual capitalização dos mercados de ações, em torno de 140% do PIB, não tem precedentes históricos.

    A presença dos mercados acionários nos lares norte-americanos equipara-se à da telinha da TV. Cerca de 35 milhões de americanos possuem ações diretamente e outros 45-50 milhões têm planos de aposentadoria com instituições que investem nos mercados através de fundos mútuos. Mais da metade dos ativos dos fundos mútuos, hoje maiores do que os do sistema bancário, estão em fundos de investimento em ações.

    Os ganhos de capital das famílias com a exuberância dos mercados acionários explicam porque, pela primeira vez desde os anos 30, a poupança pessoal pôde ser negativa no ano passado. A euforia bursátil e os ganhos de capital têm sido bons até para o fisco. A redução no déficit público norte-americano tem-se beneficiado da tributação direta sobre aqueles ganhos, além da incidente sobre o consumo possibilitado por eles.

    As importações baratas e abundantes, para suspiro do resto do mundo, fizeram o déficit comercial dos Estados Unidos subir de US$ 110 bilhões em 1997 para US$ 170 bilhões no ano passado. Os déficits em conta-corrente do balanço de pagamentos, porém, têm sido regiamente financiados pelos investimentos externos. É como se o setor familiar norte-americano financiasse seu consumo mediante venda de ações de suas empresas, a preços elevadíssimos, para estrangeiros interessados em participar da orgia bursátil.

    Decerto que o crescimento norte-americano não pode ser explicado exclusivamente pelo círculo virtuoso entre, de um lado, valorização de títulos e, de outro, enriquecimento patrimonial e consumo das famílias. Por exemplo, suas taxas anuais de elevação média na produtividade manufatureira, na faixa entre 2,5% e 3% nos anos 90, superam as dos outros membros da OCDE.

    Os ramos das tecnologias de informação correspondem hoje a 4,1% do PIB local, enquanto o percentual é de 2,5% em média no resto da OCDE. Cerca de um quarto do crescimento econômico dos Estados Unidos deu-se naqueles ramos a partir de 1992.

    Contudo, é inegável que o crescimento acima da produtividade dos últimos anos não pode ser entendido sem que se faça referência à exuberância racional ou irracional das bolsas. Abundam exemplos de exagero de valorização mesmo no caso das empresas de tecnologia, as quais hoje perfazem mais de 15% da capitalização dos mercados.

    Os lucros das empresas norte-americanas caíram em torno de 2% no segundo semestre do ano passado, no primeiro recuo desde 1989, refletindo neste caso um impacto negativo da crise no exterior. Afinal, as importações não se limitam às commodities, os mercados de suas exportações estão deprimidos e, além disso, houve desvalorização cambial na maioria dos mercados emergentes.

    Conforme já comentamos aqui (12/01), no final do ano passado houve um alinhamento de expectativas de economistas e executivos em torno de uma desaceleração do crescimento norte-americano em 1999. Para o resto do mundo, por outro lado, e particularmente para as economias emergentes em recessão, os Estados Unidos cumprem atualmente a função de "consumidores em última instância", segurando a onda do crescimento na economia internacional. Em tela, Sua Majestade, o Consumidor norte-americano.

    Por isso, os emergentes vão assistir e torcer para que o descolamento entre lucros e preços de títulos continue aumentando no futuro próximo, mesmo depois do recorde de 10.000 pontos do índice Dow-Jones. Torcer para que a exuberância exibida em Baywatch não envelheça e caia com o tempo.