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    A Barriga do Jota
    Efeitos Da Desvalorização Cambial Sobre o Saldo Comercial Continuarão Maiores no Lado das Importações
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 20/04/99

    Nas últimas semanas, tem-se observado manifestações de certa perplexidade com os resultados do comércio com o exterior desde a desvalorização do real e a mudança do regime cambial em janeiro. O primeiro trimestre registrou um déficit comercial de US$ 545 milhões, menor do que a cifra negativa de US$ 1,512 bilhão no mesmo período do ano passado, mas aparentemente aquém das expectativas de alguns.

    Em relação aos três primeiros meses de 1998, as exportações caíram 15,6%, enquanto as importações declinaram em 21,1%. O déficit comercial diminuiu porque ocorreu uma queda nas importações ainda maior do que a verificada no valor das exportações.

    Uma pista tentadora, para examinar a resposta até aqui do comércio exterior brasileiro, poderia ser o fenômeno há muito reconhecido pelos economistas como a chamada "curva em J". Em geral, mesmo quando uma expressiva desvalorização real da taxa de câmbio tem tudo para provocar elevações substanciais nos saldos comerciais de uma economia, este resultado não se materializa de imediato, podendo passar inclusive por uma fase durante a qual o saldo comercial até piora. O gráfico nesta página representa um caso como esse, no qual o comportamento do saldo comercial segue o formato de uma letra "J" ao longo do tempo.

    Uma desvalorização cambial torna mais caras as importações e dá margem para que exportadores tenham melhores lucros e/ou ofereçam menores preços. Quando as respostas em termos de competitividade - ou seja, aumento nas quantidades exportadas e diminuição nas quantidades importadas - são significativas, o saldo comercial do país melhora. Por outro lado, essas respostas competitivas costumam tomar algum tempo.

    No próprio país e no resto do mundo, até que os canais de comercialização possam ser revistos, as linhas de produção estejam adaptadas, os estoques existentes sejam exauridos etc., o efeito-competitividade não se concretiza inteiramente. Enquanto este efeito não ocorre, há apenas a queda no preço e no valor das exportações em divisas, decorrendo daí a possibilidade da barriga do "J".

    Parte do que se passou com o comércio exterior brasileiro nos últimos dois meses pode ser explicado por fatores como estes presentes na curva em "J", ainda que não tenha sido o caso de pioras absolutas no saldo comercial. Entre os produtos manufaturados, foi imediata a pressão por descontos nos preços exercida por clientes externos, exigindo compartilhar os ganhos possíveis dos exportadores com a desvalorização. Por seu turno, o incremento nas quantidades exportadas não tem sido equivalente até o momento.

    Contudo, a questão não se limita aos períodos mínimos de ajustes nas quantidades exportadas e importadas. Dois aspectos da turbulência cambial brasileira têm sido com freqüência lembrados como afetando negativamente as exportações e, digamos, acentuando a protuberância da barriga do "J" brasileiro. Primeiro, o encolhimento nos créditos bancários externos abateu-se sobre uma estrutura de vendas na qual 60% dependiam de linhas de adiantamento sobre contratos de câmbio (para financiamento de capital de giro) ou de antecipação de contratos de exportação (para financiamento à comercialização de produtos). Segundo, a desvalorização explosiva do real e a incerteza quanto ao destino da taxa de câmbio, até o mês de março, provocaram o adiamento no fechamento ou registro de contratos de exportação.

    Esses dois efeitos tendem a perder importância caso se consolide a normalização do crédito externo e da taxa de câmbio iniciada em março. Contudo, neste mesmo março, as exportações foram 10% menores do que aquelas do mês correspondente em 1998, enquanto as importações se reduziram em 24,3%, conforme observado na Opinião de Economia do Estado (06/04).

    Com efeito, há outros fatores a dificultar a superação da barriga para nosso "J". Estão entre eles a desaceleração no crescimento econômico no mundo fora da América do Norte, bem como a queda acentuada em preços internacionais de commodities com peso na pauta brasileira de exportação. Além disso, a crise brasileira repercutiu negativamente sobre os parceiros do Mercosul, o que se traduziu em queda de 27,3% nas vendas para estes em janeiro e fevereiro, enquanto as importações brasileiras deles provenientes diminuíram um pouco menos que isso.

    A perspectiva quanto aos saldos comerciais tem de focar, enfim, o horizonte um pouco além da barriga do "J". Por exemplo, estudo recente da A. C. Pastore & Associados apontou que, diante de um eventual aumento de 10% no tamanho do comércio mundial, as exportações brasileiras tenderiam a crescer 3,8% a curto prazo e apenas 8,1% no longo prazo. Por sua vez, uma desvalorização cambial real de 10% tende a incrementar as exportações em 3,5% a curto prazo e em 7,4% a longo prazo. Depreende-se também, do mesmo estudo, que a melhor estimativa de redução nas importações, diante de uma desvalorização cambial real de 10%, seria algo em torno de 11,2% no longo prazo.

    A continuidade de patamares de desvalorização cambial real acima dos 20% em relação a janeiro tende a ser eficaz no tocante ao saldo comercial, ainda que sem atingir a meta indicativa de US$ 11 bilhões incluída no acordo com o FMI. Por outro lado, até onde se pode enxergar, a expansão das exportações não parece ser o caminho mais provável de alteração no saldo comercial e das restrições de divisas ao crescimento. Está aberta a temporada de "adensamento das cadeias produtivas domésticas via substituição de importações".