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    Caçando Leões
    Cenários Para a Economia Mundial Dependem do Impacto da Subida das Taxas de Juros Sobre as Bolsas Norte-Americanas
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional e Economia Monetária e Financeira
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 15/06/99

    Dois economistas foram caçar um leão. Quando se defrontaram com o felino, um deles mirou seu rifle e falhou, atirando à esquerda do dito cujo. O segundo economista também errou, desta vez para à direita. Um pouco antes do revide do leão, um dos atiradores acalmou o outro: “dado o desvio padrão, na média acertamos o bicho!”.

    Essa historinha tem sido recontada com freqüência, por força dos erros, cometidos pela maioria dos analistas, de subestimação nas previsões quanto ao crescimento dos EUA nos últimos anos, assim como na superestimação dos efeitos inflacionários e cambiais da mudança no regime cambial brasileiro em janeiro e vários outros. Oferecer projeções econômicas tornou-se atividade de alto risco.

    Veja-se, por exemplo, a projeção de cenários para a economia internacional a partir da possível elevação na taxa básica de juros nos EUA, pelo Federal Reserve no fim do mês. Apenas amanhã, quarta-feira, conheceremos o índice de preços ao consumidor norte-americano para maio. Contudo, dados alguns indícios prévios (alta no índice de preços ao produtor e indicador de vendas ao varejo acima do esperado), além do anúncio do viés de alta para os juros na última reunião do Fed, os mercados vêm antecipando e materializando uma subida nos juros de curto prazo.

    E aí? Dependendo do palpite sobre qual deverá ser a reação das bolsas norte-americanas, pode-se desenhar cenários catastróficos ou otimistas para a economia internacional. Com efeito, já existem na praça cenários para todos os gostos.

    Conforme já abordamos aqui (06/04), quase todo mundo concorda com a opinião de que a valorização nas bolsas norte-americanas, nos últimos anos, tem excedido em muito quaisquer fundamentos para tanto. Também é relativamente consensual a avaliação de que, entre os fatores de sustentação do consumo e do crescimento econômico nos EUA, inclui-se entre outros o efeito do enriquecimento patrimonial familiar decorrente daquela valorização. Logo, praticamente todos reconhecem a possibilidade de que um aumento nas taxas de juros locais venha a suscitar o realinhamento para baixo nos preços das ações e, por conseguinte, no ritmo de expansão da economia. Esboços de cenários divergentes começam a partir do chute quanto à magnitude desse realinhamento.

    Tome-se, por exemplo, a análise da Lafis publicada na Carta Capital de 28/04 sobre as bolsas americanas na presente década. De acordo com esta, o comportamento do índice Dow Jones vem seguindo uma trajetória de crescimento explosivo rumo a um crash, trajetória atenuada durante as turbulências no segundo semestre do ano passado e retomada este ano.

    A evolução do índice desde 1990 mostra muita semelhança com a sua anterior durante o período de 1920-29 e com a da Bolsa de Tóquio em 1980-89, antes das respectivas quebras. No mesmo sentido, a análise observa que, enquanto a média histórica do índice P/L (Preço/Lucro) das ações, nos últimos 120 anos, tem oscilado em torno de 14, em maio passado estava perto de 36 para as 500 empresas que compõem o Índice Standard & Poors.

    Segundo a Lafis, um P/L de 14 seria, de fato, o nível esperado para uma taxa de crescimento de longo prazo de 3% a.a. na economia, com os lucros aumentando no mesmo ritmo e sendo descontados a uma taxa de 10% a.a. Patamares de P/L muito acima daquele só se sustentariam sob duas circunstâncias: lucros ampliando-se a taxas muito maiores que os 3% a.a. da economia e/ou apetite crescente por riscos levando à utilização de taxas de desconto menores. Mas, mesmo assim, colocar-se-iam limites à fatia de lucros na renda nacional, além do que as taxas de desconto teriam algum mínimo acima do piso correspondente às taxas básicas de juros. Seria inexorável, portanto, a “correção de erros” nas bolsas.

    Neste contexto descrito pela Lafis, o aparecimento agora de maiores taxas de inflação nos EUA poderia ser interpretado como sinal definitivo de novos patamares para as taxas de juros, suscitando uma corrida dos touros em manada nas bolsas, com vendas em massa e desvalorização de ativos. Dada a fragilidade financeira japonesa não-resolvida, bem como a desaceleração no crescimento europeu no período recente, formar-se-ia um cenário de forte retração na economia mundial e nos fluxos de aplicação em ativos de maior risco, mercados emergentes inclusive.

    Pegue-se, agora, o cenário traçado no relatório de 06/05 do Crédit Suisse First Bank (Europe). Neste, ressalta-se o poder que as respostas “just-in-time” das políticas monetárias nos países avançados exerceram para evitar, no ano passado, a eclosão de uma reprise dos anos 30. Como resultado, os mercados de ativos de risco teriam definitivamente sido reabertos este ano, com “normalização” de seus preços. A crise financeira global já se teria tornado um episódio na história.

    O Japão e a Europa, ainda às voltas com seus problemas, estariam ao menos exibindo sinais de legítimas reformas estruturais. A recessão asiática teria terminado. Mesmo sem a implementação plena das reformas financeiras preconizadas para o Japão e a Coréia, suas economias estariam passando a mostrar taxas positivas de crescimento.

    No quadro traçado pelo Crédit Suisse, pode-se contar inclusive com o seguinte cenário virtuoso: a Europa e o Japão substituindo parcialmente os EUA no papel de locomotiva na atividade econômica mundial, com simultaneamente o Dow Jones fazendo, de modo gradual, sua aterrissagem suave. O Crédit Suisse até menciona a possibilidade de um novo ciclo de 7 a 8 anos de crescimento na economia global.

    Um desastre só viria com o desabamento das bolsas norte-americanas, antes da Europa e o Japão ocuparem suas novas posições. De qualquer modo, ainda restaria a atuação dos novos gendarmes contra as depressões econômicas: os bancos centrais dos países avançados.

    A evolução do Dow Jones nos últimos dias já vem incorporando uma antecipação de realinhamentos para baixo nos preços das ações. Vende gato por lebre, porém, quem neste momento afirmar peremptoriamente já antever algo sobre o fim desse reajuste.

    Por falar em gato, quem sabe o rugido do índice norte-americano de inflação amanhã revela-se um miado? Quem sabe, também, com medo do leão do crash, o Fed mostrará ter sido apenas um boato a notícia circulada, na semana passada, de que os juros deverão subir em 0,5%? Nós, economistas, estamos condenados a caçar leões!