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    A Insustentável Leveza da Economia
    A "Nova Economia" Carrega Enorme Potencial de Aumentos Tanto na Produtividade Quanto na Concentração da Renda
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Internacional, Economia Industrial e Economia do Trabalho
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 13/07/99

    As economias desenvolvidas estão ficando mais “leves” à medida que crescem. Esta perda de peso tem sido apontada por vários analistas como um dos traços comuns na evolução das estruturas econômicas nos países avançados desde a década passada.

    Os analistas se referem à participação crescente, em valor nos PIBs daquelas economias, de produtos com baixa ou nenhuma “manifestação” física. As economias desenvolvidas estariam atravessando uma progressiva “desmaterialização”.

    Danny Quah, da London School of Economics, é um dos maiores especialistas no tema. Localiza quatro elementos na alma da “nova economia” que vem ganhando corpo: as tecnologias de informação e comunicação; a propriedade intelectual (não apenas patentes e direitos autorais, mas também marcas, capacidades de oferta de serviços de consultoria conforme o cliente etc.); bibliotecas e bases de dados eletrônicos (incluindo novas mídias, vídeos de entretenimento etc.) e biotecnologia (bibliotecas e bases de dados com base no Carbono, farmacêuticos).

    Esses quatro elementos compartilham pelo menos duas características. Primeiro, correspondem a sistemas de gestão e manipulação de conhecimentos. Segundo, equivalem a produtos cujas propriedades físicas (intangíveis) são similares às do próprio conhecimento.

    Ora, perguntará o leitor, qual é a diferença quanto ao papel do conhecimento? A máquina a vapor, o trem de ferro, a chapa de aço, os fertilizantes, a máquina de lavar roupas, constituíram-se todos como materialização de boas idéias. A diferença é que grande parte das novas boas idéias depende menos agora, para funcionar, de estar engarrafada ou incorporada em elementos físicos tangíveis. Isso muda muita coisa na operação da economia.

    Por exemplo, o caráter desincorporado das novas tecnologias permite que suas utilizações não sejam conflitantes. Ao contrário de uma máquina ou de um automóvel, cujo usufruto só pode se concretizar impedindo outro simultâneo, a idéia enquanto tal pode ter seu uso simultâneo expandido, em termos de números de usuários e de âmbito geográfico, sem perda de eficácia.

    Pelo contrário: maiores escalas de uso aceleram o aprendizado e o aperfeiçoamento. A fertilização cruzada entre conhecimentos e competências faz da sinergia através das redes de usuários (clientes, fornecedores, parceiros de alianças estratégicas) uma das principais fontes do progresso técnico atual.

    As economias avançadas estão ficando mais “leves” também, justamente, devido à fácil e rápida difusão dos produtos da alma da “nova economia” para os demais setores. A redução nos requisitos físicos de materiais, energia e equipamentos por unidade de PIB gerado tem impressionado. Além disso, setores que permaneceram pouco atingidos nas ondas anteriores de mudança tecnológica (educação, saúde, indústrias tradicionais etc.) têm sofrido impactos substanciais em seus processos e/ou produtos. A queda em custos administrativos e transacionais é universal.

    O ciclo econômico associado a ondas de investimentos produtivos tende a mudar seu perfil. Com maior modularidade e intangibilidade, os investimentos estão deixando de apresentar as flutuações acentuadas do tempo em que as mudanças tecnológicas vinham necessariamente incorporadas em capital fixo, quando transmitiam ondas de gastos, concentradas no tempo, via multiplicação de empregos e aceleração de investimentos em capital fixo nos demais setores.

    Menor oscilação derivada de gastos com capital fixo não quer dizer maior ou menor crescimento médio. Mas é evidente a velocidade de moer postos de trabalho mostrada pela poderosa máquina da “nova economia”, particularmente nas faixas de baixa qualificação. Em contrapartida, a expansão compensatória dos postos remanescentes nos setores dinâmicos supõe crescimento econômico em patamares como o atual norte-americano.

    No caso dos EUA, o efeito-riqueza da valorização das bolsas sobre o consumo familiar tem sido fundamental como fonte de ampliação de mercados locais. O resto do mundo, por seu lado, agradece a contribuição dos escoadouros de produtos correspondentes ao déficit comercial norte-americano.

    A fragilização relativamente mais acentuada dos trabalhadores não-qualificados vem reforçando as desigualdades de renda, especialmente após o desmonte parcial dos sistemas de proteção social erigidos no período pós-guerra. Além disso, as novas tecnologias permitem maior vinculação direta entre desempenhos individualizados nos mercados e os correspondentes rendimentos. Imagina-se inclusive que as presentes mega-fusões empresariais com motivação financeira, na “nova economia”, ao invés de revitalizar quaisquer mega-estruturas burocráticas como as do passado, deverão aprofundar processos de descentralização de responsabilidades com diferenciação de rendimentos.

    Cumpre também observar que a leveza da economia não significa desaparecimento da indústria ou do agrobusiness, com emergência de alguma economia totalmente de serviços. Semicondutores, equipamentos de telecomunicações, computadores, farmacêuticos, alimentos transgênicos, por exemplo, fazem parte da “economia sem peso”. Da mesma forma, só alguns serviços é que serão os mais dinâmicos (processamento de dados, consultoria, educação, saúde). Não participar como usuário-criador nas redes da economia “desmaterializada” é que implicará “desencarnação” para indivíduos e países.

    Certamente tornar-se-á insuportável ou insustentável o quadro cultural, institucional e político no qual vem se materializando a leveza da “nova economia”, caso os fantasmas do desemprego e da concentração de renda virem assombração mais forte que o progresso tecnológico.