Clickable Image Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment Comment




    Comprar de Quem nos Compra
    Convergência De Interesses No Mercosul Mostra-se Insuficiente Para Sua Plena Sustentabilidade
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 10/08/99

    Montevidéu, em agosto, alterna dias de vento forte com dias adequados para passeios à beira do Rio da Prata. Mas as declarações de Lord d’Abernon, diplomata chefiando a missão comercial inglesa, mostraram seu desinteresse em amenidades. Tratou logo de reclamar do protecionismo uruguaio, ameaçando veladamente com o potencial fechamento do mercado britânico para produtos locais.

    A passagem anterior dessa missão inglesa na Argentina foi um êxito, segundo palavras do primeiro ministro da Grã-Bretanha. Em troca da promessa de serem mantidas as tarifas inglesas sobre produtos argentinos, foram acordadas novas vendas de produtos manufaturados ingleses ao governo portenho. Em correspondência ao Foreign Office inglês, o embaixador britânico referiu-se ao projeto de convênio então estabelecido como “um presente de 8 a 9 milhões de libras esterlinas para nossa indústria, sem vantagens aparentes para a Argentina”. O cônsul dos Estados Unidos em Buenos Aires foi mais taxativo: “... um acordo mais unilateral não teria sido arrancado de um chefe indígena senil pelo mais astuto entre os homens brancos.”

    No Uruguai, a missão inglesa tentou reproduzir o convênio feito com a Argentina. Mas os uruguaios exigiram que, pelo menos, pudessem assumir os canais de comercialização de seus produtos, de modo a poder melhorar os preços recebidos pelos produtores locais em relação àqueles pagos por estabelecimentos estrangeiros. A resposta do governo inglês foi transformar a missão comercial em missão de cortesia.

    No Brasil, a missão inglesa foi um fracasso completo. Promessas quanto a tarifas inglesas não foram consideradas atrativo suficiente. Nos termos do Estado: “Não seria justo que, em troca apenas da isenção de tarifas módicas sobre um produto de consumo limitado, como é o nosso caso, favorecêssemos indústrias inglesas, talvez com prejuízos graves para capitais que no país estão empregados em atividades manufatureiras.”

    O curioso é que a missão inglesa, com seu êxito na Argentina acima citado, foi montada aproveitando-se justamente de oportunidade aberta pela campanha argentina de “comprar de quem nos compra”, iniciada três anos antes pela Sociedade Rural Argentina. Diante do déficit comercial argentino com os Estados Unidos e de seu superávit com a Grã-Bretanha, ganhou força local uma idéia de responder ao protecionismo agrícola norte-americano mediante transferência de importações dos EUA para a Grã-Bretanha. Nas palavras do Ministro da Agricultura argentino: "não podemos consentir que nos vendam sem que comprem de nós."

    Com a missão comercial, a Grã-Bretanha tratou de aproveitar a oportunidade... para incrementar suas vendas, sem precisar importar mais. O próprio Lord d’Abernon considerou “surpreendentes” os resultados de sua missão.

    O que não se conhece é a opinião do Presidente da Argentina depois da missão. Em maio, ao ser consultado pelo embaixador inglês, havia dito que “gostaria que todas as semanas viesse uma missão britânica”.

    Os norte-americanos, que em tese deveriam preocupar-se com o “comprar de quem nos compra”, consideraram benéfica a missão. Segundo o attaché comercial dos EUA na Argentina, a Inglaterra “necessita manter seu comércio de exportação se quiser continuar sendo nosso melhor cliente”. Afinal, não se poderia esquecer o déficit comercial inglês com a economia norte-americana.

    O agosto de Montevidéu em que aconteceu a missão chefiada por Lord d’Abernon foi há 70 anos, às vésperas do craque da bolsa em Nova Iorque. O trecho do Estado acima citado foi da edição de 02 de maio de 1930 e nosso produto de consumo mencionado era, é claro, o café.

    Os fatos foram extraídos de um trabalho apresentado pelo renomado historiador Arturo O’Connell, durante o simpósio organizado pelos Profs. Luis Bértola e Gabriel Porcile durante as Segundas Jornadas de História Econômica, há três semanas, em Montevidéu. A pesquisa do Prof. O’Connell destrinchou uma complexa teia de relações entre forças econômicas externas e internas, bem como de processos políticos nem sempre compreensíveis diretamente à luz da economia, na definição da diplomacia econômica dos países envolvidos na missão de Lord d’Abernon.

    É sempre algo imprudente generalizar a partir de episódios históricos particulares. Mas não resistimos à tentação de mencionar a missão de Lord d’Abernon como exemplo do que resulta, em geral, da boa-vontade das concessões unilaterais na diplomacia econômica.

    Dando um salto de 70 anos para agosto de 1999, em Montevidéu, vamos encontrar evidentemente outros personagens e circunstâncias, na reunião terminada sem acordo, na semana passada, entre os representantes governamentais do Mercosul. Afinal, o receio argentino quanto à expansão norte-americana, em 1929, deu lugar agora a “relações carnais”, nos termos do Chanceler Guillermo di Tella. Exemplo disso pode ser encontrado na recente alusão diplomática argentina a uma eventual intervenção militar norte-americana na Colômbia.

    No mesmo sentido, vamos encontrar a posição ambígua da Argentina quanto à Alca e quanto ao aprofundamento das relações entre o Mercosul e demais áreas latino-americanas ou, ainda, entre suas opções de dolarizar ou convergir monetariamente com o Brasil. Na hora da troca de posições comerciais, após a desvalorização do real, revelou-se que, 70 anos depois da missão de Lord d’Abernon, os interesses domésticos nos países da região não estão na verdade suficientemente convergentes para tornar prioritárias respostas alinhadas diante dos desafios em sua inserção na economia global.

    Mas não se preocupem. Conforme reportou o Estado neste sábado, o ex-ministro Cavallo defendeu uma suspensão das regras do Mercosul. Até que Brasil e Argentina voltem a crescer!