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    O Japão na Oficina
    Ainda não Parece Existir Base Firme para Crescimento Sustentável na Economia Japonesa
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 07/09/99

    Nesta quinta-feira, 09 de setembro, deverão ser divulgados os dados concernentes ao crescimento econômico japonês no segundo trimestre. A julgar pela queda nos investimentos privados já detectada no período, os números deverão ser decepcionantes, depois da relativa surpresa com os 7,9% anualizados do primeiro trimestre.

    O desempenho do início do ano decorreu de uma forte expansão nos investimentos públicos. Contudo, o estímulo fiscal – incluindo o programa de garantia de financiamento a pequenas empresas - não fez a cabeça dos investidores privados. Depois de oito anos de estagnação, com queda de 2,8% no PIB no ano passado, as previsões do JP Morgan e da Goldman & Sachs apontam, respectivamente, para meros 0,7% e 0,9% positivos de expansão neste ano. O cenário para 2000 é ainda pior: 0% ou abaixo.

    A verdade é que a necessidade dos consertos na estrutura econômica japonesa vai além dos bancos e do peso dos créditos podres em suas carteiras. O saneamento dos intermediários financeiros japoneses é condição necessária para eliminar as restrições de oferta de crédito e possibilitar o ressurgimento da alavancagem de investimentos. Mas não será suficiente enquanto não houver interesse dos investidores produtivos. Neste contexto, porém, nem as baixas taxas de juros em torno de 2% para títulos de 10 anos, nem os programas de estímulos diretos e indiretos à demanda implementados pelo governo, estão conseguindo revitalizar o investimento das corporações japonesas.

    As empresas japonesas têm, na direção exatamente oposta, reescalonado para baixo suas inversões. Estima-se um excesso de capacidade instalada em torno de 15% do PIB, cuja eliminação deverá ocorrer de modo gradual, para tanto supondo-se manutenção de baixos níveis de investimentos pelas empresas. Deste modo, pode-se esperar menos falências do que ocorreria com o reconhecimento explícito dos excessos e insucessos no investimento passado, mas o preço a pagar deverá ser um processo mais longo de retração na formação de capital.

    Além disso, a proporção das dívidas em relação ao faturamento de boa parte das empresas continua elevada. Não se pode esquecer, inclusive, que a desvalorização de ações e de propriedades, após o estouro das bolhas imobiliária e acionária, fez encolher o valor patrimonial e de colaterais também de empresas não-financeiras – e não apenas dos bancos.

    As taxas de juros continuam baixas. Por outro lado, não apenas aumentou a disposição de cobrança pelos credores, como os bancos têm se concentrado na liquidação ou no “writing off” de empréstimos existentes e na aquisição de títulos do governo. O montante de novos empréstimos bancários tem se aproximado de zero.

    O retorno sobre os ativos produtivos caiu brutalmente nos anos 90. Um estudo recente do JP Morgan mostra que essa queda tem se dado mais pelo declínio das vendas em relação aos ativos instalados do que pelas margens de lucro nestas vendas, atestando a presença de um problema de excesso de capacidade.

    A resposta das empresas tem sido levantar aquela margem de lucro e o valor de seus ativos mediante estratégias de redução de custos e de “downsizing”. Nas décadas passadas, usaram a “engenharia reversa” para desvelar e aprimorar tecnologias importadas, transformando-se então numa referência paradigmática, para o resto do mundo, quanto a novas formas de organização da produção e dos métodos de gestão. Agora, parecem estar importando a reengenharia!

    O problema, como se sabe, é que a redução de custos, bem como o “downsizing”, não garantem a retomada macroeconômica. Faz-se necessário, para esta retomada, que o enxugamento das linhas de produção e do emprego seja contrabalançado por ampliação dos mercados. Além disso, a reestruturação de empresas tem melhorado seu desempenho financeiro, mas a exploração de novas oportunidades de investimento e a criação de novos empregos supõem a superação da atual aversão à tomada de riscos que marca a economia japonesa nesse momento.

    A redução no emprego e nos rendimentos diretos e indiretos do trabalho, desde o ano passado, não tem precedentes dentro dos padrões japoneses. Não por acaso, se por um lado as projeções do consumo doméstico apontam para sua estabilidade até o ano 2000, por outro não se pode esperar dele o impulso de demanda que reduziria a ociosidade da capacidade instalada.

    E as oportunidades abertas pelas vendas ao exterior, elemento chave na trajetória de crescimento no passado? Na verdade, tais oportunidades têm sido aproveitadas com maior intensidade relativa a partir das subsidiárias no exterior. Estas são mais lucrativas e não se defrontam com aperto de crédito.

    Enquanto isso, o déficit fiscal, enquanto proporção do PIB, deverá subir dos 6,9% do ano passado para 8,2% este ano. Quando são incluídos o impacto dos planos de ajuda e o passivo previdenciário oculto nas estimativas para a dívida pública, algumas sugerem que esta se aproxima de 300% do PIB. Os estímulos fiscais, já não tão exitosos até aqui, tenderão a se defrontar com limites de expansão no futuro. Para quem pensa nos créditos externos acumulados pelo Japão, é preciso lembrar que, primeiro, são em grande parte privados e não líquidos e, segundo, que seu deslocamento de fora para financiar o setor público teria de ser compulsório ou com custos elevados.

    Portanto, parece provável que, no futuro imediato, a economia japonesa ainda não deverá ter concluída sua recauchutagem. Não constitui alternativa, como locomotiva mundial, diante de uma eventual desaceleração da economia norte-americana.

    A recente valorização do iene e da bolsa de Tóquio pode estar refletindo perspectivas de fusão e aquisição por empresas estrangeiras e/ou os resultados financeiros da reengenharia japonesa. Mas certamente não tem como fundamento o fim em definitivo do mal-funcionamento da economia dos anos 90.