Os Sem-Fábrica da Agroindústria
Autor: Walter Belik
Assunto: Economia Agrícola
Produzir sem possuir uma unidade produtiva é um fenômeno que está se generalizando na agroindústria brasileira. Nos últimos anos, os sem-fábrica cresceram e se firmaram em diversos ramos da indústria: confecções, calçados, gráficas, plásticos, móveis e outros. Agora chegou a vez da agroindústria. Todas estas atividades têm como características comuns a utilização de mão-de-obra intensiva, baixo conteúdo tecnológico do produto e elevados volumes de vendas.
No passado, o processamento de matérias–primas de origem agropecuária estava cercado de uma série limitações que impunham elevadas barreiras aos novos concorrentes. Do conhecimento e acesso às fontes de suprimento até o segredo industrial passando pelo alto custo dos equipamentos envolvidos na produção, tudo era inacessível aos que se aventuravam. Hoje estas barreiras se reduziram ou, até mesmo, foram eliminadas.
Para começar, as fontes de matérias-primas estão cada vez mais próximas seja devido ao encurtamento dos tempos de transporte como também à intensificação do comércio internacional e à criação de mercados regionais comuns. A tecnologia avançou também no processo produtivo em si, simplificando procedimentos e reduzindo escalas. Finalmente, o chamado segredo industrial na agroindústria se mantém somente em algumas poucas especialidades e está ligado muito mais a tradição do fabricante ou da região produtora que a algum atributo tangível do produto.
Neste novo paradigma da produção, os antigos papéis representativos dos capitais ao longo da cadeia produtiva agroindustrial tendem a se misturar. Está cada vez mais difícil identificar quem são os produtores rurais, industriais, atacadistas e varejistas nos diferentes segmentos da agroindústria. Alguns elos desta cadeia simplesmente desapareceram enquanto outros surgiram, assumindo novas funções que até então não tinham importância. Este é o caso das funções desempenhadas por aquele que chamamos de "coordenador" da cadeia produtiva. O "coordenador" é aquele que identifica nichos ou parcelas de demanda não atendidas, desenvolve fornecedores de matérias-primas e promove a fabricação e a logística da distribuição destes produtos. O "coordenador" pode ser um dos envolvidos na cadeia produtiva como, por exemplo, o atacadista ou supermercadista. Todavia, este "coordenador" pode ser também um agente externo, como é o caso desta espécie - cada vez menos rara – conhecida como o sem-fábrica.
O sem-fábrica já era bastante comum na indústria de conservas, doces e alimentos congelados mas tornou–se muito mais conhecido nos últimos anos no segmento de leite e laticínios. No ano passado, por exemplo, antes que a desvalorização do Real, importamos 14% do que se consome no mercado formal de leite no Brasil. Muita desta matéria-prima entrava pela via da Argentina mas era proveniente da Nova Zelândia ou União Européia, onde se adquiria o produto a preços altamente subsidiados. No seu destino final, este produto era reprocessado e recebia uma embalagem de uma marca local ou nacional. O processo era coordenado por um sem-fábrica que identificava necessidades locais e ativava toda a cadeia.
Mais recentemente o fenômeno está atingindo também a indústria de suco de laranja e a produção de álcool. Nestes segmentos da agroindústria, o problema parece estar em encontrar mercado para os seus produtos e não na produção em si. Neste contexto de superprodução e redução de preços, muitas unidades produtivas estão convivendo com uma enorme capacidade ociosa. Conhecendo o mercado e possuindo os canais de distribuição, alguns agentes "coordenadores" estão alugando instalações industriais, comprando matéria-prima e distribuindo o produto sob a sua bandeira.
Em muitos casos, este novo papel de coordenação da cadeia parece estar apontando uma tendência para a agroindústria, seguindo as características de uma produção que é capturada e se torna auto-ativada pela demanda. Mas, em outros casos, que merecem mais atenção, a coordenação privada está substituído aquele papel que era exercido pelo governo no tempo em que havia um volume mais significativo de crédito agroindustrial, incentivos à exportação, controles alfandegários e estoques reguladores públicos.