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    Junkies
    Multiplicam-se Sinais de que a Nova Arquitetura Financeira Global Pretende Priorizar Menor Exposição A Riscos
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 02/11/99

    Conforme destacado em nosso penúltimo artigo (05/10), a renegociação dos títulos de dívida externa do Equador está cumprindo papel-chave na reforma da arquitetura financeira global. Não foi extemporânea a exigência feita pelo FMI e o Tesouro dos Estados Unidos de que, como colateral para um pacote de empréstimos externos oficiais, o governo equatoriano também chamasse os detentores privados de seus títulos de dívida externa para uma renegociação. Foi o fim da convenção de que, nas finanças globais, os bradies de economias emergentes seriam intocáveis.

    A idéia foi essa mesma: inocular a realidade do risco de crédito no cálculo dos investidores em economias emergentes. A iniciativa reflete a opinião de que, na origem de excessos de exposição das finanças globais em relação a essas economias, desde a crise mexicana de 1995, responsabilidade parcial poderia ser imputada ao fato de que, com exceção do caso da Rússia, os pacotes de resgates oficiais deixaram ilesos os credores privados.

    Os resgates oficiais teriam inapropriadamente reduzido os riscos incorporados nas decisões dos investidores privados quanto aos mercados emergentes. O Equador seria uma oportunidade, em tamanho adequado, para ser anunciado o fim dos seguros implícitos e da subestimação de riscos de crédito.

    A nova linha de crédito contingente do FMI vai na mesma linha e de modo complementar. Foi criada de modo a oferecer acesso rápido de recursos aos países para enfrentamento de contágios e similares, mas com exclusividade para aqueles que mantenham continuamente em dia seus deveres de casa, em termos de políticas macroeconômicas sustentáveis e de supervisão e regulação financeira apertada.

    Enfim, o conserto da arquitetura financeira global corresponderia a apertar - ou excluir - seus compartimentos frouxos, bem como evitar a subestimação na tomada de riscos do sistema em relação a tais compartimentos. Em lugar de reformas nos alicerces, a arquitetura estaria necessitando de encanadores, conforme expressão usada por Hans Tietmayer, ex-presidente do Bundesbank, cuja última missão antes da aposentadoria foi elaborar um relatório sobre reformas necessárias.

    O relatório de Tietmayer, aliás, enfatizou a busca de aprimoramento na avaliação de riscos como direção a ser seguida. Criticou a atual fragmentação na supervisão financeira em escala internacional e, em particular, o tratamento separado de problemas macro e microeconômicos de cada país.

    O Professor Antônio Henrique da Silveira, da UFBa, me sugeriu, depois do artigo anterior, abordar as prováveis implicações da reforma para as economias emergentes. Me parece que, para cada uma dessas economias, tudo o mais permanecendo constante, a parcela de aplicações nos portfólios globalizados a ela dedicada tende a reduzir-se. Alternativamente, o que dá na mesma, para um mesmo volume de recursos os aplicadores tenderão a exigir maiores taxas de retorno, como resposta à reavaliação de riscos.

    A não ser que a economia emergente implemente regras de supervisão e regulação financeira mais conservadoras, o que lhe daria como bônus a inscrição no clube de economias com acesso à nova linha de crédito do FMI. Esse aperto na segurança financeira, adotado como resposta à redução de espaço na arquitetura, significaria menor grau de alavancagem financeira na economia local, bem como menor ousadia no tocante a projetos de investimento mais arriscados. A dúvida remanescente é se essa menor ousadia quanto aos investimentos seria, do ponto de vista da economia emergente, mais que compensada pelos benefícios da boa nota nas lições de casa.

    Outro exemplo de que a menor exposição ao risco - e não apenas em relação a economias emergentes - está na ordem do dia pode ser encontrado no discurso de Alan Greenspan, presidente do Fed, proferido no dia 14 de outubro. Trata-se daquele discurso que provocou um inferno na vida em Wall Street na semana seguinte. Não desse último, após o anúncio da continuação do crescimento norte-americano sem repique inflacionário, quando a fala de Greenspan sobre a sustentabilidade do crescimento acalmou os mercados.

    Naquele discurso de 14/10, Greenspan propôs-se a alertar sobre as armadilhas contidas nos modelos de gestão de riscos, quando estes não incorporam as crises periódicas como fato da vida. Abordava a avaliação de ações nos EUA, sendo essa a parte do discurso que mais atraiu atenção. Mas não deixou de localizar o problema na raiz das crises financeiras internacionais dos últimos dois anos e meio.

    Em suas palavras: "se recorrências periódicas de ruptura de confiança são um elemento do modo como nossa economia e nossos mercados financeiros funcionam agora e no futuro, tornam-se significativas suas implicações para a mensuração e a gestão dos riscos". Os possíveis pânicos e as condições de stress, quando se elevam subitamente os prêmios de riscos, devem ser incorporados e não deixados como meros "ruídos" no pano de fundo.

    O sonho dos arquitetos-encanadores é uma aterrissagem mais suave, daqui para a frente, depois das aventuras financeiras dos últimos anos. Para tanto, far-se-á necessário tolher excessos no envolvimento de bancos com hedge funds mais ariscos, bem como evitar subestimação de riscos com junk bonds, mercados emergentes demasiadamente exóticos etc.

    Os títulos de dívida desses exóticos, aliás, disputam palmo a palmo com os junk bonds - ou melhor, ponto a ponto de prêmio no retorno mínimo acima da remuneração básica dos títulos do Tesouro norte-americano - o espaço para riscos nos portfólios globais. Se não largarem seu mau comportamento, serão expulsos de casa ou, na melhor das hipóteses, confinados aos quartos encolhidos na nova arquitetura.