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    Feitiço da Lua
    Crescimento Na Coréia do Sul Supera Quase Colapso da Daewoo e Vai Além da Recuperação da Crise
    Autor: Otaviano Canuto
    Assunto: Conjuntura Econômica, Economia Monetária e Financeira e Economia Internacional
    Publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 30/11/99

    No terceiro trimestre deste ano, a economia da Coréia do Sul cresceu a uma taxa anualizada de 12,3%. Em setembro, mês dos 3 dias de feriados do Festival da Lua Cheia, o nível da atividade industrial esteve 18% acima de um ano atrás. Segundo o Financial Times de quarta-feira passada, o Citibank de Seul trabalha com a hipótese de um crescimento anualizado de 16% no último trimestre.

    Depois de uma queda de 5,8% no ano passado, o PIB coreano já ultrapassou o patamar em que estava quando estourou a crise, em 1997. No mínimo, o crescimento este ano contabilizará 9%. Um belo contraste com a situação de 2 anos atrás, quando o país estava solicitando ao FMI um programa de salvamento da ordem de US$ 58 bilhões, para evitar a moratória em seus débitos externos.

    Dois fatores têm sido básicos na recuperação coreana. Primeiro, as exportações subiram 22% nos últimos doze meses, puxadas pelo bom desempenho de vendas de produtos eletrônicos, particularmente de semicondutores.

    Por ter sua pauta de exportações carregada de produtos com alto conteúdo tecnológico e com dinamismo de mercado acima da média, a economia coreana tem-se beneficiado amplamente do bom comportamento da economia internacional. Nem mesmo a subida dos preços do petróleo, de cuja importação aquela economia depende, tem sido capaz de ofuscar o cenário.

    O segundo fator-chave na recuperação tem sido a atuação do setor público. Seu papel ativo na reestruturação do setor financeiro, após o início da crise, impediu que esta deixasse seqüelas maiores sobre a base produtiva que justamente tem permitido a rápida recuperação de exportações e crescimento. Os recursos levantados pelo governo foram usados para reconfigurar o sistema financeiro local.

    Essa atuação foi possível, é claro, por causa do quadro de relativa tranqüilidade fiscal-financeira do setor público prévio à crise. Partindo de um déficit público da ordem de 1% do PIB, em 1996, este percentual foi a 4% no ano passado, devendo alcançar 4,1% este ano.

    Segundo dados do JPMorgan, a dívida pública (direta e indireta) coreana, também como proporção do PIB, elevou-se de 17,3% em 1997 para os 41% previstos em 1999. Nesta dilatação da dívida, os títulos governamentais emitidos para reestruturação do setor financeiro e os empréstimos do Banco da Coréia junto ao FMI foram exatamente os destaques, passando de 2,8% a 18,3% do PIB no mesmo período.

    De qualquer modo, o início de ressarcimento do pacote de salvamento externo já permitiu a queda em mais da metade da dívida junto ao FMI desde o ano passado. No outro lado dessas contas, as instituições financeiras domésticas vêm pagando seus empréstimos em dólares tomados ao Banco da Coréia, permitindo a manutenção das reservas externas oficiais em torno dos US$ 65 bilhões. Como que anunciando a perspectiva de fim com êxito do ciclo de defesa contra a crise, o governo anuncia a intenção de aproveitar o crescimento econômico em 2000 para reduzir gastos e iniciar a recomposição de seu equilíbrio fiscal e financeiro.

    Tudo isso a despeito das turbulências associadas ao quase colapso em julho da Daewoo, o segundo entre os maiores conglomerados em uma economia marcada pelo peso esmagador destes grupos. Protótipo dos excessos de alavancagem financeira do período anterior à crise, a Daewoo está sendo fatiada pelos bancos credores. Para quem não acompanha mais de perto a economia coreana, é bom saber que isso não é novidade. Durante 1990-96, 3 entre os 30 maiores conglomerados tiveram suas falências decretadas. Em 1997, mais 7 se acrescentaram à lista.

    A prova de fogo foi enfrentada mais recentemente. Há vários meses, vinha-se assistindo a um deslocamento maciço de dinheiro dos fundos de investimento para os bancos comerciais. Além disso, com a possibilidade aberta de retirada de 80% dos fundos investidos na Daewoo, no mês de novembro, por investidores corporativos e individuais, temia-se o ressurgimento de algum pânico. A partir do final de setembro, a atuação agressiva do Fundo de Estabilização do Mercado de Títulos, estabelecido pelo governo para absorver liquidez abundante em bancos comerciais e companhias de seguro e, com ela, adquirir títulos no mercado, conseguiu reverter as expectativas.

    Para se ter uma idéia do perigo envolvido, foram negativos os investimentos líquidos de portfólio por estrangeiros nos últimos meses. Contudo, de julho a setembro, US$ 8,3 bilhões acumulados de saldos em conta-corrente do balanço de pagamentos mais do que superaram a saída de US$ 5,7 bilhões na conta de capitais.

    Aliás, é o bom desempenho de exportações e de conta-corrente que permite ao governo coreano bancar o surdo diante de reclamações externas quanto à profundidade e as direções da reestruturação financeira. Alguém chegou a lamentar a recuperação coreana, por estar vindo antes de um completo desmembramento dos conglomerados, bem como de maior penetração por instituições financeiras estrangeiras.

    Esta talvez seja uma diferença crucial entre a situação coreana e a japonesa. Nesta, a reestruturação bancária não tem sido ajudada por uma recuperação da economia doméstica. Na Coréia, acompanhando o incremento das exportações, os investimentos industriais e o consumo pessoal cresceram, respectivamente, 48% e 10% desde o ano passado. Em clima de crescimento e superávit em conta-corrente, a reestruturação fica mais fácil.

    Milagre nas exportações coreanas? Feitiço da lua, a grande estrela do Festival da Lua Cheia em setembro na Coréia? Parece que o aprendizado tecnológico e a qualidade da inserção produtiva e comercial anterior à crise estão ajudando a Coréia a sair desta. "Não é feitiçaria; é tecnologia."