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    A Política da Globalização
    Os efeitos têm sido a decadência de regiões, mais desemprego e o aumento da desigualdade
    Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
    Assunto: Economia Brasileira: Abertura Comercial e Financeira
    Publicado pela Folha de São Paulo em 10/09/95

    A coisa anda tão feia na Argentina que até os pelegos da CGT, aliados do presidente Menem, foram obrigados a comandar uma manifestação contra o desemprego. "A política econômica precisa se preocupar com o bem-estar das pessoas, queixava-se diante das câmeras globais da CNN um dos organizadores da passeata.

    Vão longe aqueles tempos em que as políticas econômicas, em quase todos os países, cuidavam do desenvolvimento econômico, do pleno emprego e do bem-estar das pessoas. Hoje em dia elas têm de cuidar de sua credibilidade diante dos mercados financeiros, um tribunal de cujas decisões não cabe recurso. Em compensação, todos participam da grande aventura da globalização. O progresso exige certas renúncias.

    Ninguém duvida de que a ação econômica dos Estados Unidos vem sendo severamente restringida: assiste quase impotente ao desdobramento das estratégias de localização e de divisão interna do trabalho da grande empresa e está cada vez mais à mercê das tensões geradas nos mercados financeiros, que submetem a seus caprichos as políticas monetária, fiscal e cambial.

    Mais do que por seu caráter global, a nova finança e sua lógica tornaram-se decisivas por sua capacidade de "vetar as políticas macroeconômicas. Este poder de veto dos mercados financeiros se impõe a todas as economias, ainda que de forma diferenciada.

    Os Estados Unidos, por exemplo, emissores e gestores da moeda-reserva, gozam de maior liberdade para executar políticas fiscais e monetárias expansionistas, desde que aceitem o risco permanente de ataques especulativos contra o dólar e administrem adequadamente as tensões que se manifestam através da elevação imediata das taxas de juros de longo prazo, quando o crescimento é julgado "excessivo pelos mercados.

    Na outra ponta do espectro, países de "moeda fraca não conseguem escapar das situações de instabilidade senão atrelando as respectivas moedas ao curso de uma divisa estrangeira, renunciando a qualquer pretensão de determinar o rumo das políticas fiscal e monetária.

    A disciplina imposta pelos mercados financeiros, cujos movimentos de antecipação podem destruir a precária estabilidade, acaba inibindo toda e qualquer tentativa de executar políticas ativas, destinadas a promover o crescimento.

    Os efeitos mais importantes dessas transformações têm sido, por toda parte, a decadência econômica de muitas regiões, o crescimento do desemprego estrutural, a proliferação de formas de precarização do emprego, o aumento da desigualdade.

    A essas tendências o Estado e a sociedade não podem responder com as medidas compensatórias dos tenebrosos anos 50 e 60. Na era dos mercados globalizados e livres, cresce a resistência à utilização de transferências fiscais e previdenciárias, aumentando, ao mesmo tempo, as restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público.

    A globalização ao tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos grupos integrados desarticulou a velha base tributária das políticas keynesianas e vem submetendo a gestão da dívida pública aos humores frequentemente imprevisíveis dos mercados financeiros.

    A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo ademais contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do individualismo que se opõe a qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza, da renda e do consumo efetuado através do mercado capitalista.

    A ética da solidariedade foi francamente derrotada pela ética da eficiência. Por isso, os programas de redistribuição de renda, reparação de desequilíbrios regionais e assistência a grupos marginalizados têm sofrido intensa rejeição da parte dos grupos "vitoriosos e cosmopolitas.

    Não há dúvida de que este novo individualismo tem sua base social originária na grande classe média produzida pela longa prosperidade e pelos processos mais igualitários que predominaram na era keynesiana, ou seja, no período em que as políticas econômicas se preocupavam com o bem-estar das pessoas. Hoje, o novo individualismo encontra reforço e sustentação no aparecimento de milhões de empresários terceirizados e autonomizados, criaturas das mudanças nos métodos de trabalho e na organização da grande empresa.

    A ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados e como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. Essas duas percepções convergem na direção da "deslegitimação do poder administrativo e da desvalorização da política.

    Aparentemente estamos numa situação histórica em que a "Grande Transformação ocorre no sentido contrário ao previsto por Karl Polanyi: a economia trata de se libertar dos grilhões da sociedade. Resta saber que respostas a sociedade está preparando para dar às façanhas da economia desentranhada e apenas limitada por suas próprias leis de movimento.