Sobre a Esquerda Burra
Reformismo da direita neoliberal é, na verdade, uma (de)construção
Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
Assunto: Transformações do Capitalismo Contemporâneo
Publicado pela Folha de São Paulo em 16/07/95
O Brasil vai indo tão bem que à direita multiplicam-se queixas contra o conservadorismo da esquerda. Isto é animador: em sua última tentativa de liderar um movimento pró-reformas, no início dos anos 60, os esquerdistas acabaram na cadeia.
De lá para cá, o mundo e o Brasil sofreram tantas e tão formidáveis transformações que o reformismo bandeou-se de armas e bagagens para os redutos outrora conservadores.
O grande público, instigado pela sobriedade e sutileza da mídia, manifesta, não raro, inquietação com os propósitos dos neoconservadores, empenhados em bloquear, com absoluto insucesso, diga-se, o ímpeto reformador do establishment nativo.
Antes de revelar nosso sentimento de perplexidade e mesmo de compaixão diante da situação lastimável da esquerda brasileira, não podemos deixar de registrar que, pelo mundo afora, a sina dos canhotos tem sido a mesma.
Na Itália, um debate recente entre Norberto Bobbio, o filósofo Gianni Vattimo e Giancarlo Bosetti tratou de investigar as raízes do conservadorismo da esquerda. Vattimo, para quem não sabe, vem dando contribuições importantes para o tema da pós-modernidade. Provocado por Bosetti, que suscitou a questão do conservadorismo da esquerda, o filósofo respondeu: ``Nos tempos em que a direita se apresenta como revolucionária, parece inevitável que a esquerda defenda o status quo". Bobbio completou: ``A Constituição não contém apenas normas relativas à organização do Estado, mas também as que dizem respeito aos direitos à liberdade e aos direitos sociais. É evidente que a estas não queremos renunciar. É preciso ficar atento aos perigos que rondam estes direitos".
De acordo com as novas normas brasileiras de qualidade e inteligência, surge aí uma oportunidade para inscrever Vattimo e Bobbio no rol dos muares, sabendo-se que o padrão de excelência é medido, entre nós, pelo estalão do reconhecido filósofo Roberto Campos.
Descontada a nossa flagrante e provada superioridade na matéria, não deixa de ser intrigante que um dos oráculos da social-democracia à brasileira, o reverenciado Norberto Bobbio, revele tão fortes convicções anti-reformistas.
Mas ele explica: ``O papel reformista da esquerda, sobretudo no pós-guerra, estava condicionado pela construção do Estado Social. A esquerda soube condicionar o desenvolvimento do país e mesmo na oposição teve grande influência no esforço de barrar o liberalismo selvagem, que pretende agora se impor".
O segredo do conservadorismo da esquerda é desvendado sem dificuldades: o reformismo da direita neoliberal é, na verdade, uma (de)construção. Visa a demolição das estruturas do Estado Social erigidas como defesa contra as incertezas, inseguranças e desgraças causadas aos cidadãos pelo funcionamento sem peias dos mercados livres.
O reformismo desvairado é a manifestação do desconforto do capitalismo com as formas de controle e disciplina que a sociedade tentou lhe impor, aterrorizada com as tragédias dos anos 20 e 30. Essas tragédias não custa repetir foram representadas no palco de suas guerras mundiais, uma depressão e alguns episódios hiperinflacionários.
Aqui, como se sabe, não temos senão uma pretensão de Estado Social cristalizado na Constituição de 1988. Quanto ao controle e disciplina do capitalismo, isso não merece o esforço de uma gargalhada. Desta forma, teremos a oportunidade de (de)construir o inexistente, o que é mais uma vez uma façanha. Pioneirismo e originalidade que não cansamos de exibir e que contrastam com a doentia desconfiança de Vattimo quanto aos propósitos do reformismo contemporâneo. Ele, em sua tibieza incurável, pergunta: até que ponto é ilícito adotar as autênticas mitologias de direita só porque, se não o fizermos, estaremos condenados à minoria (e à oposição). Com a palavra a social-democracia (à brasileira).