A Reengenharia do Plano
Crítica não é contra concepção do plano, mas o radicalismo de sua execução
Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
Assunto: Economia Brasileira: O Plano Real
Publicado pela Folha de São Paulo em 26/03/95
Seria sensato reconhecer que as condições que presidiram a implantação do Plano Real já não existem mais.
O plano, em sua formulação original, escorou a desinflação rápida na estabilização da taxa de câmbio nominal, passo indispensável para restaurar a função crucial da moeda, a de servir de padrão de valor para a fixação dos preços e denominação dos contratos.
Isto exigiu a referência clara e firme a um standard -o dólar norte-americano- que foi sendo reconhecido e consagrado pelos mercados ao longo do processo de destruição da moeda nacional.
Sustentar a aposta na estabilização da taxa de câmbio nominal (o que não significa que ela deva permanecer fixa) requer, porém, as garantias de um volume expressivo de reservas e/ou de formas de financiamento adequadas na moeda de referência.
Estas garantias devem aparecer diante dos "mercados" como armas potentes de dissuasão, capazes de conter eventuais ataques especulativos contra o novo padrão monetário.
Os autores do plano deram por assentadas a existência e a continuidade dessas condições.
Começaram a perseguir com obstinação um objetivo imediato: a convergência entre as taxas de inflação doméstica e a observada na moeda de referência.
Isto foi buscado através da valorização do real, da intensificação da abertura comercial e da inversão do sinal da conta de mercadoria: abaixo o superávit, viva o déficit.
Estas três "forças" prestariam efetividade e rapidez ao processo de arbitragem entre preços internos e preços internacionais e teriam o condão de dar origem a um "circuito virtuoso" de disciplina e confiança, culminando na desindexação da economia e na vitória dos valores nominais.
A mudança radical no cenário internacional não mais permite a insistência na aposta inicial. A despeito das conseqüências desagradáveis de ordem política e econômica, o governo precisa ter claro que suas prioridades hoje só podem ser a recuperação do saldo comercial positivo e a preservação das reservas.
Há sinais de que a equipe econômica ou parte dela ainda hesita em abandonar a tão sonhada estabilização de Primeiro Mundo, miragem que foi vendida (e comprada) a descoberto, sem consideração a respeito das bases precárias em que se apoiava.
É bom registrar que a crítica não é lançada contra a concepção básica do plano, mas sim contra o radicalismo de sua execução, tão infantil quanto conveniente. Afinal, como qualificar a valorização nominal do real e as promessas de um déficit comercial de US$ 15 bilhões anuais a ser alcançado no prazo de cinco anos?
A reengenharia do plano de estabilização não será trivial. Ela deve envolver ações simultâneas de esfriamento da economia, correção do atraso cambial e contenção da avalancha de importações.
É claro que isto significa aceitar a taxa de inflação como variável dependente. Qualquer vacilação, no entanto, pode acarretar conseqüências "mexicanas" para o final do ano: perdas de reservas, inflação em disparada e queda abrupta de nível de atividade.