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    O Império Contra-Ataca
    Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
    Assunto: Economia Brasileira: O Papel do Estado
    Publicado pela Folha de São Paulo em 08/09/96

    O BID realizou, na última semana, em Washington, um seminário sobre políticas e práticas de desenvolvimento. Na prática, anunciou as políticas que o Império recomenda aos bárbaros próximos e remotos. É um consolo receber recomendações de um economista sabichão e prepotente em vez de mísseis disparados por um general dolicocéfalo e prognata.

    Mas parecer haver, neste momento, na Washington do Consenso, alguma inquietação com as baixas causadas pelas políticas de ajustamento inspiradas pelos estrategistas imperiais. As vítimas que reclamam maiores cuidados são o crescimento e as camadas mais pobres da população.

    Segundo John Willianson, um dos pais do Consenso de Washington, as províncias bárbaras devem agora abandonar o uso da taxa de câmbio como âncora nominal de programas de estabilização e passar a utilizá-la como instrumento de competitividade e de crescimento. Devem também continuar perseguindo o aumento das taxas de poupança doméstica, manter a disciplina fiscal, persistir nas políticas de abertura comercial e financeira, preservar na desregulamentação e na privatização. O bolo deve ser coberto com o aumento dos gastos sociais em educação, com prioridade clara para o ensino básico e secundário.

    Lawrence Summers, subsecretário do Tesouro, repetiu a mesma ladainha. Criticou os governos latino-americanos que "financiam generosamente hospitais especializados e universidades".

    Ao mesmo tempo em que recomendam políticas que agora reconhecem ineficazes quando não danosas para o crescimento, os funcionários do Consenso entregam-se a digressões moralistas sobre a composição do gasto público.

    É desejável e urgente que os governos dirijam os seus gastos para educação básica, saúde ou infra-estrutura. Mas isso parece mais difícil à medida que disparam as despesas financeiras por conta dos juros altos e das dívidas públicas internas acumuladas neste e noutros carnavais de dinheiro externo abundante.

    No carnaval anterior, a dos anos 70, o financiamento externo era, ao menos, complementar às fontes internas de financiamento. Deixou obras e serviços públicos remodelados. No de hoje, a entrada de dinheiro externo apenas aumenta as despesas financeiras e comprime os gastos sociais e as despesas de investimento em infra-estrutura.

    Este investimento já está no osso. Os governos estaduais, por exemplo, apostam na "corrida da austeridade": cortes sucessivos e demissão de funcionários. Os déficits, em vez de encolher, são escancarados pelo crescimento das dívidas que engordam com o fermento dos juros, enquanto a receita patina e a guerra fiscal, para atrair investimentos "globalizados", come solta.

    A solução é simples, ensinam os falcões do Império. Cortem os gastos. Com a sobra, mais dinheiro para ensino básico, menos para universidades; mais dinheiro para saúde pública, menos para hospitais especializados. Afinal, de nada servem aos bárbaros universidades e hospitais especializados. Se não têm cultura, usem a Internet.