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    Caça aos Economistas
    Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
    Assunto: Trabalho, Emprego e Distribuição de Renda
    Publicado pela Folha de São Paulo em 14/07/96

    Está cada vez mais intenso na Europa o debate sobre o desemprego. As idéias são muitas, e as soluções, escassas. As propostas dos governos de flexibilização das regras trabalhistas e de redução dos benefícios só têm conseguido atiçar a ira popular. Franceses e alemães resistem.

    Quem pensar que isto é coisa de sindicatos está enganado. Os sindicatos são caudatários da resistência difusa, mas sólida e crescente das sociedades. O que ninguém mais agüenta é ouvir políticos e economistas falando de austeridade e racionalidade.

    Até o sóbrio ''Le Monde'' atacou em editorial de primeira página esse tipo de postura.

    Posso estar vendo coisas, mas os economistas, estes pregadores da inevitabilidade do capitalismo, estão prestes a esgotar as reservas de paciência da tigrada.

    O ''Le Monde Diplomatique'' de julho acusa em manchete: "Economistas em guerra contra o salário". Entre outras coisas, Serge Halini, o autor do texto, exorta os leitores não só à contestação das pesquisas e relatórios que repetem a ladainha do "custo Europa". Ele propõe a deslegitimação dos "experts" e de suas opiniões "pseudo-científicas".

    Halini toma como exemplo as conclusões do "Relatório Anual sobre a Competitividade Global" publicado pelo Fórum Mundial de Davos. Alguns editores de jornais brasileiros reproduzem as informações deste relatório entre gemidos e sussurros.

    O encarregado do trabalho é Jeffrey Sachs. Pois o onipresente reformista informa no relatório deste ano que a Inglaterra é a primeirona entre os europeus na corrida pela competitividade. Na rabeira, alemães, italianos, franceses e suecos.

    Este galardão foi obtido a despeito de a pérfida Albion registrar sucessivos déficits na balança comercial, mesmo contando com a receita proporcionada pelo petróleo do Mar do Norte. Alguns críticos do relatório entendem que essa posição incômoda da Inglaterra pode ser atribuída à inexistência, para fins práticos, da indústria inglesa.

    Esta constatação parece irrelevante para o professor Sachs, que prefere atribuir um peso maior "à existência de instituições e de políticas que permitem um crescimento rápido".

    Não é difícil adivinhar quais são as instituições e as políticas. São também muito conhecidas no Brasil: "abertura da economia", "desenvolvimento do mercado financeiro", "qualidade das instituições políticas" e "flexibilidade dos mercados de trabalho".

    Ah, sim. A vencedora do torneio europeu ficou e 35º lugar na avaliação de seu sistema educacional e em 48º no que se refere à participação do investimento no PIB. Concorrem 49 países.

    Em compensação, ficou em 5º no item "disposição de reestruturar" e em 4º na "flexibilidade no emprego e nas dispensas".

    O pessoal está abusando.