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    Exercício de Fracassomania
    A falta de memória é o caminho mais curto entre a última crise cambial e a próxima
    Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
    Assunto: Economia Brasileira: Abertura Comercial e Financeira
    Publicado pela Folha de São Paulo em 28/01/96

    A receita para esses desfechos trágicos é sabida: valorize o câmbio, financie o déficit em conta corrente com endividamento externo e permita a acumulação rápida da dívida interna de curto prazo, a outra face do aumento das reservas "emprestadas".

    Falar em crise cambial hoje em dia deve provocar aqueles sorrisos inconfundíveis nos integrantes do bloco "senta-que-o-leão-é-manso". São sestros faciais enigmáticos, algo entre a Mona Lisa e o Coringa. Figuras governamentais e outras nem tanto não se cansam de asseverar aos desavisados eles são muitos dentro e fora dos palácios que desta vez a coisa vai ser diferente.

    As condições atuais são, de fato, distintas daquelas observadas nos anos 70. ''In illo tempore'', o ciclo de crédito comandado pelos bancos internacionais permitiu a sustentação de elevadas taxas de crescimento, a ampliação significativa da infra-estrutura e (xô satanás protecionista!) a expansão e diversificação da indústria.

    Apesar de tudo, e como estava previsto pelos fracassomaníacos da época, o colapso foi brutal.

    Não menos brutais, as tentativas de estabilização desataram um séquito de desgraças: a disparada da inflação, a derrocada das finanças públicas, a queda dos salários reais, o aprisionamento da economia na armadilha da moeda indexada e nas ilusões do enriquecimento fictício.

    Feitas as contas, restou, porém, um consolo: a acumulação de passivos impagáveis tinham correspondência, quase sempre, na criação de ativos reprodutivos, cujo maior defeito era a sua reduzida capacidade de geração de divisas.

    Ainda convalescendo do duro golpe e de suas seqüelas, iniciamos um novo ciclo de endividamento, agora sob o patrocínio da liberalização e abertura da economia e, sobretudo, dos mercados financeiros globalizados.

    As finanças comandadas pelos "mercados" parecem ser mais sujeitas à volatilidade, mais seletivas e muito mais ciosas em relação à liquidez.

    Não por acaso, a combinação mais freqüente, no regime imposto pelos mercados desregulamentados e descompartimentalizados, envolve moeda valorizada, intensa pressão competitiva, investimento nos setores não-sujeitos à concorrência externa e esterilização do gasto público. Isto significa baixo crescimento, encolhimento da estrutura produtiva em particular da indústria e taxas de desemprego em elevação. O rastro de dívidas é certo; já os ativos reprodutivos são improváveis.