O Crescimento Americano: Rumores e Murmúrios
Autor: Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo
Assunto: Economia Internacional
Publicado pela Folha de São Paulo em 15/06/97
Desde 1991, ano em que começou a sair da última recessão, a economia americana vem apresentando um desempenho invejável. A taxa de desemprego caiu abaixo dos 5% e nem por isso há qualquer sinal de renascimento das tensões inflacionárias que, em ciclos pretéritos, logo se manifestavam nas imediações do auge, quando os mercados de trabalho começavam a ficar pressionados. A valorização do dólar ocorrida nos últimos 24 meses vem cumprindo, sem dúvida, um papel importante no controle da inflação.
Diante de tamanho sucesso, multiplicam-se, como é natural, as explicações e conjecturas sobre as causas e desdobramentos da atual etapa de expansão.
Entre as causas, a mais badalada é a chamada "revolução da produtividade" que teria assolado a indústria e os serviços nos Estados Unidos. Infelizmente, esses rumores de que a atual etapa de crescimento carrega consigo uma verdadeira revolução na produtividade fato aclamado pela barulhenta imprensa de negócios não vêm sendo confirmados pelos estudos de maior profundidade que tratam do assunto.
Dois economistas, Stephen Oliner e William Wascher, assessores do Board of Governors do Federal Reserve, em Washington, mostraram recentemente (''Is a productivity revolution under way in the United States?'', Challenge, janeiro/1995), que, consideradas corretamente as mudanças de preços relativos e as melhorias de qualidade dos produtos novos, os aumentos de produtividade do setor não-agrícola, nos anos 90, têm sido tão anêmicos quanto os observados ao longo dos 70 e dos 80. Estão, portanto, ainda na rabeira do fenomenal surto de produtividade dos anos 50 e 60, quando a terra ainda era habitada por dinossauros.
Os meios de comunicação elegeram os investimentos em computadores, a reestruturação e o ''downsizing'' como as forças de elite dessa suposta revolução da produtividade. No entanto, dizem Oliner e Wascher, "os computadores não são ainda tão presentes na economia para justificar aumentos significativos na produtividade".
No que respeita à reestruturação, "parece que o foco de redução de custos concentrou-se mais no emagrecimento das estruturas administrativas do que nas mudanças na produção. Além disso, mesmo quando a reestruturação eleva a produtividade da firma, o efeito para o conjunto da economia é negativo quando, por exemplo, o trabalhador da indústria é deslocado para o balcão do MacDonald's".
Quanto aos desdobramentos da atual etapa de expansão, circulam outros rumores. Aparentemente nascidos nos gabinetes do secretário do Tesouro, Robert Rubin, esses murmúrios vêm sugerindo que, na ausência de choques exógenos ou de erros na condução da política econômica, o crescimento pode ser prolongado por um bom tempo.
Essas hipóteses sobre o fim do ciclo econômico e os augúrios de prosperidade sem limites costumam aparecer em ocasiões de grande euforia. Em geral elas antecedem enormes decepções.
Assim foi em 1969, quando o Nacional Bureau of Economic Research (NBER) convocou um simpósio intitulado "O Ciclo Econômico está Obsoleto?". Naquela ocasião, o professor Paul Samuelson, mais tarde merecedor de um Prêmio Nobel, daria os parabéns ao NBER por haver-se desembaraçado satisfatoriamente de seu primeiro trabalho, ou seja, o ciclo econômico.
Quase ninguém havia se dado conta de que o final dos anos 60 seria marcado pelos primeiros sinais de esgotamento do mais longo e singular período de crescimento das economias industriais.
Singular por seu caráter estável e generalizado, pelo menos entre os países desenvolvidos. O início dos anos 70 mostrou que as políticas econômicas de sintonia fina haviam feito enormes progressos, mais ainda não eram capazes de eliminar a instabilidade intrínseca das economias de mercado.
Não por acaso, e curiosamente, foi este o momento das reações conservadoras. Ancoradas nos supostos mais extremados a respeito da racionalidade dos agentes e da capacidade dos mecanismos de mercado de restabelecer o "equilíbrio", os revolucionários dos anos 70 postulavam a inefetividade das políticas de estabilização e recomendavam aos governos que não perturbassem o mundo privado.
Como o mundo dá voltas, até para os economistas, as suposições sobre a continuidade da atual etapa de expansão parece apoiar-se, em boa medida, no reconhecimento da efetividade das políticas econômicas de sintonia fina. Na ausência de choques exógenos, como uma nova crise do petróleo, por exemplo, os adeptos dessa requentada teoria nos garantem que o crescimento americano vai durar muito tempo.